Prossigamos nesta parte 2
refletindo sobre esse fenômeno invasor que tenta colonizar silenciosamente os bobos
úteis em tacanhos segmentos do movimento espírita brasileiro e que merece contínua
reflexão: a transformação da defesa da Codificação em uma espécie de
fundamentalismo kardequista. Não se trata da fidelidade a Allan Kardec —
dever inalienável de todo espírita consciente —, mas da deformação de seu
método, substituído por um comportamento de intolerância que rejeita, de
antemão, qualquer contribuição oriunda da literatura subsidiária, especialmente
a de Emmanuel.
Basta mencionar o nome de
Eammanuel para que alguns confrades reajam com indisfarçável aversão. Não
examinam argumentos; repelem autores. Não confrontam princípios; desqualificam
pessoas. Não aplicam o método kardequiano; recorrem às ASNEIRAS do
preconceito. Emmanuel passa a ser condenado antes de ser lido. Essa atitude não
traduz rigor doutrinário; revela um dogmatismo incompatível com a natureza
científica e filosófica do Espiritismo.
É oportuno recordar uma
verdade elementar: Allan Kardec nunca ensinou a rejeição automática de qualquer
comunicação espiritual. Ao contrário, edificou toda a Codificação sobre o exame
crítico, a comparação, a lógica, a experiência e o Controle Universal do Ensino
dos Espíritos. O Codificador jamais propôs uma ortodoxia fechada, mas um método
permanente de investigação.
No capítulo I de A
Gênese, Kardec afirma que, diante de novos conhecimentos comprovados, o
Espiritismo não permaneceria imóvel; se uma verdade nova fosse demonstrada, a
Doutrina a acolheria. Essa afirmação destrói qualquer pretensão de transformar
a Codificação em um sistema intelectual impermeável à análise, à pesquisa e ao
diálogo. Fidelidade a Kardec jamais significou fossilização do pensamento.
Curiosamente, alguns dos
que proclamam "Espiritismo é Kardec" acabam contrariando justamente
aquilo que Kardec mais prezava: a liberdade do exame. Criam uma espécie de
magistério informal de ASNEIRAS, onde determinados autores são
proscritos, determinados livros tornam-se suspeitos e determinados estudiosos
passam a ser vistos como desviacionistas simplesmente por reconhecerem méritos
na obra de Emmanuel.
É preciso afirmar, com
absoluta clareza: Emmanuel não é codificador. Nunca reivindicou esse título.
Nunca afirmou estar corrigindo Allan Kardec. Nunca pediu que suas obras
substituíssem a Codificação. Pelo contrário, inúmeras vezes reconheceu
Kardec como o fundamento doutrinário do Espiritismo. Essa realidade histórica é
frequentemente omitida pelos seus críticos mais severos.
Isso significa que
Emmanuel é infalível? Evidentemente não.
Existem temas em sua
vasta produção que suscitam legítimas reservas doutrinárias. Entretanto,
reconhecer divergências não autoriza condenações globais.
Quem rejeita
integralmente Emmanuel por causa de alguns aspectos discutíveis abandona
precisamente o critério estabelecido por Kardec. O método espírita não
recomenda nem aceitação cega nem rejeição absoluta. Recomenda discernimento.
Recomenda separar o acessório do essencial. Recomenda conservar aquilo que
resiste ao exame racional e deixar como opinião pessoal aquilo que não alcançou
confirmação doutrinária.
Infelizmente, alguns
preferem um caminho mais simples: substituir a análise pelo anátema. Esse
comportamento aproxima-se muito mais do espírito das antigas controvérsias
confessionais do que da investigação espírita. Em vez de argumentos, apresentam
rótulos. Em vez de comparação, distribuem suspeitas. Em vez de estudo, cultivam
a exclusão.
O resultado é paradoxal. Combatendo
aquilo que chamam de "emmanuelismo", acabam criando uma nova
ortodoxia: o fundamentalismo kardequista.
Não se trata do legítimo
retorno às fontes da Codificação, absolutamente necessário para preservar a
identidade doutrinária do Espiritismo. Trata-se da tentativa de reduzir toda
a cultura espírita às cinco obras fundamentais, como se mais de um século e
meio de produção séria de autores respeitados nada tivesse a oferecer.
A consequência inevitável
seria o empobrecimento intelectual do movimento espírita. Mais grave ainda é
observar que esse fundamentalismo frequentemente se apresenta revestido de uma
aparente superioridade doutrinária. Alguns comportam-se como se fossem
guardiões exclusivos da ortodoxia, distribuindo certificados de fidelidade a
Kardec conforme simpatias pessoais. Esquecem-se de que o primeiro inimigo do
conhecimento espírita sempre foi o orgulho intelectual.
Kardec jamais instituiu
tribunais doutrinários. Jamais autorizou caças às bruxas literárias. Jamais
incentivou campanhas de desmoralização contra autores. Ao contrário, advertiu
repetidas vezes contra o fascínio, contra o personalismo e contra os
julgamentos precipitados.
Paradoxalmente, aqueles
que denunciam a idolatria em torno de Emmanuel muitas vezes caem no extremo
oposto (idolatria a Kardec): transformam sua rejeição em verdadeira obsessão
intelectual. Emmanuel passa a ocupar permanentemente suas preocupações, não
como objeto de estudo, mas como alvo preferencial de ataques. O que deveria ser
análise converte-se em aversão sistemática.
Essa postura não
fortalece a Doutrina. Fragiliza-a. Porque transmite às novas gerações a falsa
ideia de que o Espiritismo se preserva por meio de proibições, listas de
autores aceitáveis ou condenações sumárias. Kardec jamais propôs semelhante
método. A força do Espiritismo reside justamente na liberdade responsável de
investigação.
O espírita maduro não
idolatra Emmanuel. Também não o demoniza. Lê-o criticamente. Confronta suas
afirmações com a Codificação. Aproveita aquilo que se harmoniza com os
princípios fundamentais. Suspende o juízo sobre o que permanece controverso. Essa
é a postura verdadeiramente kardequiana.
Quem transforma Emmanuel
em autoridade infalível erra. Mas quem o transforma em inimigo da Doutrina
também erra. Os extremos sempre empobrecem o pensamento.
O Espiritismo não
necessita de novos dogmas nem de novos inquisidores (idólatras de Kardec).
Precisa de homens e mulheres capazes de estudar sem paixões, discutir sem
sectarismo e divergir sem hostilidade.
A fidelidade a Allan Kardec não se mede pelo número de condenações lançadas contra autores subsidiários. Mede-se pela disposição de aplicar, com honestidade intelectual, o método que ele próprio legou ao mundo: observar, comparar, raciocinar, submeter tudo ao crivo da lógica, da experiência e da universalidade do ensino dos Espíritos.
Quem abandona esse
método, ainda que o faça em nome de Kardec, já começou a afastar-se do
verdadeiro espírito da Codificação.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 92. ed. Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 132. ed. Brasília: FEB,
2019.
KARDEC, Allan. A Gênese.
Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018.
KARDEC, Allan. Obras
Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018
DENIS, Léon. Depois da
morte. 32. ed. Brasília: FEB, 2019
XAVIER, Francisco
Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. 29. ed. Brasília: FEB, 2013.
XAVIER, Francisco
Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. 42. ed. Brasília: FEB, 2018.
