Jorge Hessen
Brasília-DF
Toda convicção religiosa merece respeito. O Espiritismo jamais se opôs ao direito de cada consciência de buscar Deus segundo sua compreensão. Contudo, quem abraça conscientemente a Doutrina Espírita assume, por dever moral, o compromisso de preservar-lhe a identidade. Como adverte Emmanuel: "Toda convicção religiosa é respeitável; entretanto, se procuramos a Doutrina Espírita, não podemos negar-lhe fidelidade." (XAVIER, 2003).
Essa fidelidade não representa dogmatismo nem exclusivismo sectário. Ao contrário, significa respeito à integridade da Codificação elaborada por Allan Kardec, que submeteu os ensinos dos Espíritos ao rigor da observação, da comparação e do controle universal. O Espiritismo distingue-se justamente por conciliar fé e razão, permitindo o livre exame e recusando a crença cega. Emmanuel recorda que somente a Doutrina Espírita possibilita ao homem "o livre exame, com o sentimento livre de compressões dogmáticas, para que a fé contemple a razão, face a face" (XAVIER, 2003).
Enquanto muitas tradições religiosas ainda sustentam concepções de punições eternas, privilégios espirituais ou salvação por meio de ritos exteriores, o Espiritismo esclarece que cada criatura é autora do próprio destino. A lei divina é imparcial e cada Espírito colherá, inevitavelmente, os frutos de suas escolhas, conforme ensinam O Livro dos Espíritos e O Evangelho segundo o Espiritismo. Não existem favorecimentos perante a Justiça Divina; existe responsabilidade moral.
Por essa razão, a Codificação Kardeciana constitui a chave segura para a interpretação racional do Evangelho de Jesus. Kardec não fundou uma nova religião baseada em dogmas, mas organizou um corpo doutrinário coerente, aberto ao progresso, sem jamais admitir que opiniões pessoais ou modismos substituíssem seus princípios fundamentais.
Infelizmente, observa-se, em alguns setores do movimento espírita, a tentativa de incorporar práticas esotéricas, misticismos, terapias sem fundamento doutrinário, sincretismos religiosos e experiências estranhas aos princípios kardequianos. Sob o pretexto da fraternidade ou da modernização, pretende-se transformar o Espiritismo numa síntese indiscriminada de crenças. Entretanto, Emmanuel adverte contra esse "lisonjeiro ecletismo", recomendando que preservemos "a pureza e a simplicidade" da Doutrina, evitando colaborar "nos vícios da ignorância e nos crimes do pensamento" (XAVIER, 2003).
A verdadeira tolerância jamais pode converter-se em silêncio diante da descaracterização doutrinária. Respeitar pessoas não significa legitimar ideias incompatíveis com a Codificação. Defender a identidade do Espiritismo não constitui intolerância; constitui responsabilidade para com o patrimônio espiritual legado por Allan Kardec.
Naturalmente, essa vigilância deve ser exercida sem agressividade, sem personalismos e sem fanatismo. O próprio Espiritismo rejeita qualquer forma de autoritarismo intelectual. A defesa da pureza doutrinária deve caminhar lado a lado com a humildade, o diálogo fraterno e a caridade. Não se trata de combater pessoas, mas de esclarecer conceitos.
Também seria incoerente exigir fidelidade doutrinária sem empenho pela própria renovação moral. Não basta conhecer Kardec; é indispensável viver Kardec. Não basta denunciar enxertias doutrinárias; é necessário ressignificar as próprias imperfeições. A reforma moral permanece sendo o maior testemunho da autenticidade espírita.
Em uma de suas mais conhecidas exortações, Emmanuel sintetiza esse compromisso afirmando:
"Espírita deve ser o nosso caráter, ainda mesmo nos sintamos em reajuste depois da queda. Espírita deve ser a nossa conduta, ainda que estejamos em duras experiências. Espírita deve ser o nome do nosso nome. Espírita deve ser o claro adjetivo de nossa instituição, ainda mesmo que, por isso, nos faltem as passageiras subvenções e honrarias terrestres." (XAVIER, 2003).
Essa advertência permanece extremamente atual. Em tempos de relativização dos princípios, de espetacularização da mediunidade e de crescente influência de filosofias estranhas à Codificação, torna-se indispensável recordar que a identidade espírita não pode ser negociada.
Concluindo, Emmanuel oferece uma das mais profundas definições do compromisso espírita:
"Doutrina Espírita quer dizer Doutrina do Cristo. E a Doutrina do Cristo é a doutrina do aperfeiçoamento moral em todos os mundos. Guarda-a, pois, na existência, como sendo a tua responsabilidade mais alta, porque dia virá em que serás naturalmente convidado a prestar-lhe contas." (XAVIER, 2003).
Ser fiel ao Espiritismo, portanto, não significa cristalizar a Doutrina nem impedir o progresso do conhecimento. Significa preservar seus fundamentos, conforme estabelecidos por Allan Kardec, para que o Consolador Prometido continue cumprindo sua missão de esclarecer as inteligências, consolar os corações e promover a transformação moral da humanidade.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 130. ed. Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.
XAVIER, Francisco Cândido. Religião dos Espíritos. Pelo Espírito Emmanuel. 22. ed. Brasília: FEB, 2023.
