Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Antes de examinarmos o
bem e o mal sob a perspectiva espírita, convém compreender que, em sentido
filosófico, o mal pode ser entendido como privação, imperfeição ou
aquilo que produz dano e se opõe à virtude, à justiça e à dignidade humana.
O bem, por sua vez, relaciona-se às ações e atitudes dotadas de valor
moral, orientadas para a dignidade, a justiça e o aperfeiçoamento do ser.
O Espiritismo rejeita,
contudo, qualquer concepção maniqueísta que atribua ao bem e ao mal forças
absolutas, eternamente antagônicas. Para a Doutrina Espírita, Deus é
soberanamente justo e bom, e o mal não constitui um princípio eterno ou uma
potência capaz de rivalizar com o Criador.
O mal resulta do uso
imperfeito do livre-arbítrio e da ignorância espiritual, enquanto o bem
expressa o progresso da inteligência e o despertar da consciência. Como ensina
Kardec, o ser humano possui os meios de distinguir o bem do mal, pois Deus lhe
concedeu a razão para discerni-los (KARDEC, 2019).
A questão do mal inquieta
a humanidade desde a Antiguidade. No século XX, Hannah Arendt, ao acompanhar o
julgamento de Adolf Eichmann, analisou como crimes de proporções monstruosas
podem ser praticados dentro de estruturas burocráticas por indivíduos que
abdicam da reflexão crítica e se submetem à lógica da obediência. Seu conceito
de “banalidade do mal” não significa que o mal seja insignificante, mas que sua
prática pode ser normalizada quando a consciência deixa de pensar, julgar e
assumir responsabilidade.
Sob a ótica espírita,
entretanto, o mal jamais triunfará definitivamente. Admitir a vitória final do
mal seria negar a soberania divina e o princípio da evolução espiritual. Deus
não criou seres destinados eternamente à perversidade. Todos os Espíritos
caminham para a perfeição, ainda que por diferentes caminhos e em ritmos
distintos. O mal é, portanto, uma condição transitória, vinculada à ignorância
e ao atraso moral.
André Luiz, em Ação e
Reação, apresenta a existência como processo educativo no qual nossas
escolhas produzem consequências e exigem reajustes. O sofrimento, nesse
contexto, não é castigo arbitrário, mas oportunidade de aprendizado e
reparação. O bem não nos imuniza contra as dificuldades da existência, mas nos
oferece recursos íntimos para enfrentá-las sem acrescentar novas culpas ao
patrimônio espiritual.
Paulo de Tarso expressou
dramaticamente essa luta interior: “Porque não faço o bem que quero, mas o
mal que não quero, esse faço” (ROMANOS, 7:19). A passagem revela o conflito
entre o ideal moral já reconhecido pela consciência e os hábitos inferiores
ainda arraigados. A reforma moral exige, por isso, vigilância, disciplina e
perseverança.
Também não devemos
atribuir exclusivamente aos Espíritos inferiores a responsabilidade por nossas
quedas. A influência espiritual negativa encontra campo favorável nas próprias
imperfeições humanas. O pensamento, a palavra e a ação constituem escolhas pelas
quais somos responsáveis. A obsessão pode existir, mas não elimina o
livre-arbítrio nem substitui a responsabilidade moral do indivíduo.
Vivemos, atualmente, uma
época marcada por extraordinários avanços tecnológicos e, paradoxalmente, por
profundas crises de convivência, polarização, solidão e banalização da
violência. A tecnologia ampliou a comunicação, mas não necessariamente
aprofundou a fraternidade. A informação multiplicou-se, enquanto a reflexão nem
sempre a acompanhou.
É precisamente nesse
cenário que a mensagem espírita adquire especial relevância. O progresso
material, desacompanhado do progresso moral, pode ampliar os recursos humanos
sem necessariamente aprimorar o homem. A verdadeira civilização não se mede
apenas pela ciência, pela riqueza ou pela sofisticação tecnológica, mas também pela
capacidade de promover justiça, solidariedade e respeito à dignidade humana.
O combate ao mal começa,
portanto, dentro de nós. O Evangelho não propõe uma guerra contra as pessoas, mas
uma transformação de consciências. O verdadeiro “bom combate” é aquele em
que vencemos o egoísmo, o orgulho, a indiferença e a crueldade que ainda
sobrevivem em nosso mundo íntimo.
Joanna de Ângelis recorda
que o aparente triunfo do mal não deve nos induzir ao desânimo. A sombra não
possui existência própria: é ausência de luz. Da mesma forma, o mal não
representa o destino definitivo do Espírito. A evolução é a marcha inevitável para
Deus.
Por isso, diante da
banalização do mal, nossa resposta não pode ser a omissão, o ódio ou o
desespero. Deve ser o bem consciente, lúcido e perseverante. Fazer o bem é mais
do que praticar atos generosos: é educar sentimentos, corrigir pensamentos,
assumir responsabilidades e transformar hábitos. O progresso
espiritual começa quando deixamos de perguntar apenas por que o mal existe e
passamos a indagar, diante de cada circunstância: o que posso fazer, aqui e
agora, para que o bem prevaleça?
Referências Bibliográficas:
ARENDT, Hannah. Eichmann
em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das
Letras, 1999.
FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos
enriquecedores. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1994.
KARDEC, Allan. O livro
dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. Obras
póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2006.
XAVIER, Francisco
Cândido. Ação e reação. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB, 2019.
BÍBLIA. Bíblia Sagrada.
Romanos 7:19; 2 Timóteo 4:7.
