22 julho 2026

O bem e o mal à luz do Espiritismo



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Antes de examinarmos o bem e o mal sob a perspectiva espírita, convém compreender que, em sentido filosófico, o mal pode ser entendido como privação, imperfeição ou aquilo que produz dano e se opõe à virtude, à justiça e à dignidade humana. O bem, por sua vez, relaciona-se às ações e atitudes dotadas de valor moral, orientadas para a dignidade, a justiça e o aperfeiçoamento do ser.

O Espiritismo rejeita, contudo, qualquer concepção maniqueísta que atribua ao bem e ao mal forças absolutas, eternamente antagônicas. Para a Doutrina Espírita, Deus é soberanamente justo e bom, e o mal não constitui um princípio eterno ou uma potência capaz de rivalizar com o Criador.

O mal resulta do uso imperfeito do livre-arbítrio e da ignorância espiritual, enquanto o bem expressa o progresso da inteligência e o despertar da consciência. Como ensina Kardec, o ser humano possui os meios de distinguir o bem do mal, pois Deus lhe concedeu a razão para discerni-los (KARDEC, 2019).

A questão do mal inquieta a humanidade desde a Antiguidade. No século XX, Hannah Arendt, ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, analisou como crimes de proporções monstruosas podem ser praticados dentro de estruturas burocráticas por indivíduos que abdicam da reflexão crítica e se submetem à lógica da obediência. Seu conceito de “banalidade do mal” não significa que o mal seja insignificante, mas que sua prática pode ser normalizada quando a consciência deixa de pensar, julgar e assumir responsabilidade.

Sob a ótica espírita, entretanto, o mal jamais triunfará definitivamente. Admitir a vitória final do mal seria negar a soberania divina e o princípio da evolução espiritual. Deus não criou seres destinados eternamente à perversidade. Todos os Espíritos caminham para a perfeição, ainda que por diferentes caminhos e em ritmos distintos. O mal é, portanto, uma condição transitória, vinculada à ignorância e ao atraso moral.

André Luiz, em Ação e Reação, apresenta a existência como processo educativo no qual nossas escolhas produzem consequências e exigem reajustes. O sofrimento, nesse contexto, não é castigo arbitrário, mas oportunidade de aprendizado e reparação. O bem não nos imuniza contra as dificuldades da existência, mas nos oferece recursos íntimos para enfrentá-las sem acrescentar novas culpas ao patrimônio espiritual.

Paulo de Tarso expressou dramaticamente essa luta interior: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço” (ROMANOS, 7:19). A passagem revela o conflito entre o ideal moral já reconhecido pela consciência e os hábitos inferiores ainda arraigados. A reforma moral exige, por isso, vigilância, disciplina e perseverança.

Também não devemos atribuir exclusivamente aos Espíritos inferiores a responsabilidade por nossas quedas. A influência espiritual negativa encontra campo favorável nas próprias imperfeições humanas. O pensamento, a palavra e a ação constituem escolhas pelas quais somos responsáveis. A obsessão pode existir, mas não elimina o livre-arbítrio nem substitui a responsabilidade moral do indivíduo.

Vivemos, atualmente, uma época marcada por extraordinários avanços tecnológicos e, paradoxalmente, por profundas crises de convivência, polarização, solidão e banalização da violência. A tecnologia ampliou a comunicação, mas não necessariamente aprofundou a fraternidade. A informação multiplicou-se, enquanto a reflexão nem sempre a acompanhou.

É precisamente nesse cenário que a mensagem espírita adquire especial relevância. O progresso material, desacompanhado do progresso moral, pode ampliar os recursos humanos sem necessariamente aprimorar o homem. A verdadeira civilização não se mede apenas pela ciência, pela riqueza ou pela sofisticação tecnológica, mas também pela capacidade de promover justiça, solidariedade e respeito à dignidade humana.

O combate ao mal começa, portanto, dentro de nós. O Evangelho não propõe uma guerra contra as pessoas, mas uma transformação de consciências. O verdadeiro “bom combate” é aquele em que vencemos o egoísmo, o orgulho, a indiferença e a crueldade que ainda sobrevivem em nosso mundo íntimo.

Joanna de Ângelis recorda que o aparente triunfo do mal não deve nos induzir ao desânimo. A sombra não possui existência própria: é ausência de luz. Da mesma forma, o mal não representa o destino definitivo do Espírito. A evolução é a marcha inevitável para Deus.

Por isso, diante da banalização do mal, nossa resposta não pode ser a omissão, o ódio ou o desespero. Deve ser o bem consciente, lúcido e perseverante. Fazer o bem é mais do que praticar atos generosos: é educar sentimentos, corrigir pensamentos, assumir responsabilidades e transformar hábitos. O progresso espiritual começa quando deixamos de perguntar apenas por que o mal existe e passamos a indagar, diante de cada circunstância: o que posso fazer, aqui e agora, para que o bem prevaleça?

 

 

Referências Bibliográficas:


ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos enriquecedores. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1994.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

XAVIER, Francisco Cândido. Ação e reação. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB, 2019.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Romanos 7:19; 2 Timóteo 4:7.