Jorge Hessen
Brasília -DF
Há uma retumbante desordem que se consolidou no movimento espírita brasileiro e que precisa ser ajuizada sem rodeios: a falsa ideia de que o centro espírita somente cumpre sua missão se estiver permanentemente ocupado com reuniões mediúnicas, desenvolvimento de médiuns, "trabalhos espirituais", cirurgias espirituais ou manifestações psicográficas extraordinárias.
Em quase todos os centros espíritas , parece que a mediunidade deixou de ser um instrumento para transformar-se no próprio objetivo da instituição. Porém, essa ingênua inversão jamais pertenceu ao projeto da Doutrina Espírita.
Allan Kardec edificou o Espiritismo sobre o estudo, a educação moral e a reforma moral. A mediunidade ocupa lugar relativamente importante, mas sempre subordinada ao progresso espiritual. Nunca foi apresentada como devoção, nem como mecanismo milagroso para resolver conflitos psicológicos, familiares ou existenciais.
Infelizmente, parcela esmagadoramente significativa do movimento espírita “tupiniquim” criou uma verdadeira paranoia mediúnica. Tudo é explicado pela mediunidade. Toda dificuldade emocional é atribuída à obsessão. Toda pessoa inquieta é aconselhada a "desenvolver a mediunidade". Toda instituição sente-se incompleta se não possuir inúmeros grupos mediúnicos. O resultado é previsível: multiplicam-se reuniões, enquanto escasseiam exemplos sadios de moralidade e o estudo sério do Evangelho e da Codificação.
Essa mentalidade encontra frontal oposição nos ensinamentos de Emmanuel, em O Consolador. Ao responder se é correto organizar trabalhos especiais para produzir fenômenos e convencer descrentes, Emmanuel é categórico: "Um fenômeno não edifica a fé sincera." A verdadeira convicção nasce do esforço pessoal, da meditação e da transformação moral, jamais da contemplação de manifestações extraordinárias.
Mais contundente ainda é sua advertência contra a provocação do desenvolvimento mediúnico. Emmanuel afirma que ninguém deve forçar o desenvolvimento de qualquer faculdade, pois, nesse campo, a espontaneidade é indispensável. As tarefas mediúnicas pertencem à direção dos Benfeitores Espirituais, não às estratégias administrativas de dirigentes ansiosos por ampliar equipes mediúnicas.
Quantos centros, porém, fazem exatamente o contrário? Incentivam pessoas emocionalmente fragilizadas a ingressarem em grupos mediúnicos como se isso fosse terapia. Confundem sensibilidade psicológica com faculdade ostensiva. Alimentam expectativas de missões grandiosas. Produzem dependência emocional da atividade mediúnica. E, não raras vezes, terminam gerando frustrações, desequilíbrios psíquicos e mistificações infantis.
Emmanuel também recomenda que, antes de intensificar sessões mediúnicas, sejam fortalecidas as reuniões de leitura, meditação e comentários doutrinários, justamente para evitar o "prematuro comércio com as energias do plano invisível". A expressão permanece atual. Muitos ambientes espíritas negociam simbolicamente com o invisível, valorizando mensagens, fenômenos e revelações muito mais do que o estudo sistemático das obras fundamentais.
Criou-se, assim, uma perigosa cultura de excepcionalidade. O médium passou a ocupar posição de destaque, enquanto o estudioso, o trabalhador anônimo e o servidor do Evangelho permanecem invisíveis. A autoridade moral foi substituída pelo prestígio mediúnico; o conhecimento doutrinário cedeu espaço ao fascínio pelo extraordinário e ao delírio metafísico.
Urge esclarecer que o verdadeiro centro espírita não existe para fabricar médiuns. Existe para formar consciências. A mediunidade é faculdade humana, não certificado de evolução espiritual. Existem excelentes médiuns moralmente frágeis e pessoas sem qualquer faculdade ostensiva profundamente evangelizadas. Jesus jamais afirmou que reconheceríamos seus discípulos pelos fenômenos que produzem, mas pelo amor que manifestam.
É urgente libertar o movimento espírita desse frenesi pela mediunidade. A Casa Espírita deve voltar a ser escola de almas, oficina de educação moral, laboratório de autoconhecimento e núcleo de vivência do Evangelho. Quando isso acontece, a mediunidade encontra naturalmente seu lugar: discreto, responsável, disciplinado e subordinado aos superiores interesses da regeneração humana.
Enquanto continuarmos imaginando, na escola da ilusão, que o êxito de uma instituição espírita depende da quantidade de reuniões mediúnicas que realiza, permaneceremos distantes do pensamento de Kardec e dos Espíritos Superiores. O Espiritismo não veio para impressionar multidões com fenômenos. Veio propor a transformação moral do homem. Todo o restante é acessório e perfumaria de brechó .
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.
XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2019.
