05 julho 2026

Sim à reforma moral , não ao espetáculo das “curas”, pois o centro espírita não é clínica de milagres



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

É sintomático que, em numerosos centros espíritas, as atividades mais concorridas sejam justamente aquelas anunciadas como "trabalhos de cura", "cirurgias espirituais" ou atendimentos realizados por supostos "médicos espirituais". O fenômeno desperta curiosidade, atrai multidões e alimenta expectativas ilusórias. Contudo, permanece a pergunta inevitável: essa prioridade de cirurgiões do além encontra respaldo na Codificação Espírita?

A resposta é definitivamente NÃO!

Allan Kardec jamais priorizou ou atribuiu centralidade à chamada mediunidade de cura dos corpos. Em toda a Codificação, o eixo do Espiritismo repousa na educação moral do ser humano, na renovação da consciência e na vivência dos ensinamentos de Jesus. A faculdade mediúnica nunca foi apresentada como espetáculo, nem como instrumento destinado a satisfazer a ansiedade humana pela eliminação imediata das patologias físicas.

No Livro dos Médiuns, Kardec esclarece que a mediunidade é faculdade destinada ao intercâmbio entre os dois planos da vida, exigindo discernimento, estudo e responsabilidade. Não a transforma em método terapêutico nem estabelece qualquer hierarquia que coloque os chamados médiuns de cura (com supostos cirurgiões do além) acima das demais formas de intercâmbio espiritual.

Do mesmo modo, no Evangelho segundo o Espiritismo, ao comentar as curas realizadas por Jesus, Kardec demonstra que o verdadeiro milagre consiste na transformação moral. O Cristo jamais limitou sua missão à recuperação de organismos enfermos. Seu propósito era despertar consciências para o Reino de Deus, mostrando que a libertação do Espírito tem valor infinitamente superior ao restabelecimento transitório do corpo físico.

É evidente que os recursos fluídicos podem contribuir para o alívio de enfermidades, conforme esclarece a Gênese. Todavia, tais benefícios dependem de múltiplos fatores, entre eles as necessidades evolutivas do Espírito, as leis de causa e efeito e a vontade divina. A Doutrina Espírita jamais prometeu curas universais nem autorizou campanhas de marketing espiritual baseadas em resultados extraordinários de hipotéticas curas espirituais.

Transformar a casa espírita em um centro de promessas terapêuticas representa um inquietante desvio de finalidade. Quando o fenômeno ocupa o lugar do estudo, quando a expectativa da cura física supera o esforço da reforma íntima e quando determinados médiuns passam a ser vistos como detentores de poderes especiais por supostamente incorporam o “Espírito” Dr. “X,Y,X” (normalmente nome de um inglês ,de  um  alemão ou de um hindu), instala-se um ambiente propício ao personalismo, ao misticismo e à superstição — exatamente aquilo que Kardec combateu durante toda a elaboração e codificação da Doutrina.

O Centro espírita não existe para disputar espaço com hospitais, clínicas ou práticas alternativas de saúde. Sua missão é muito mais profunda: esclarecer, consolar, educar e promover a transformação moral do indivíduo. O passe, a prece e a assistência espiritual são valiosos recursos de auxílio, mas jamais substituem o compromisso pessoal com o próprio crescimento espiritual nem autorizam promessas incompatíveis com a prudência kardeciana.

Quem busca o Espiritismo exclusivamente para curar o corpo talvez até encontre algum “alívio” passageiro. Entretanto, quem compreende sua essência descobre algo incomparavelmente maior: um roteiro seguro de renovação interior, capaz de libertar o Espírito das enfermidades morais que constituem a verdadeira causa de grande parte das doenças humanas.

Aliviar” doenças pode ser uma permissão circunstancial. Educar Espíritos é a missão permanente do Espiritismo. Inverter essa ordem significa afastar-se da proposta de Kardec e reduzir uma doutrina de iluminação da consciência a mera fornecedora de expectativas milagrosas.