Jorge Hessen
Brasília -DF
"Racismo é uma chaga
aberta no corpo da Humanidade." A frase de Cornélio Pires continua a ecoar
num século em que a ciência desmontou definitivamente o mito das raças
superiores, mas em que a discriminação racial persiste sob novas roupagens.
O preconceito já não se
manifesta apenas nas legislações segregacionistas do passado; ele sobrevive na
exclusão social, na violência cotidiana, nas desigualdades econômicas, nos
discursos de ódio disseminados pelas redes sociais e nas tentativas de justificar
privilégios históricos.
Embora a genética moderna
tenha demonstrado que todos os seres humanos compartilham a mesma origem
biológica, setores extremistas insistem em ressuscitar antigas teorias raciais,
travestidas de nacionalismo, supremacismo ou intolerância cultural.
O racismo contemporâneo
não se limita aos insultos explícitos: ele se revela também na marginalização
sistemática de populações negras, indígenas e pobres, no preconceito velado e
na indiferença diante das injustiças sociais.
Sob a ótica espírita,
toda pretensão de superioridade racial constitui um grave equívoco moral. Allan
Kardec ensina que a pluralidade das existências dissolve os preconceitos de
raça e de casta, porque o mesmo Espírito pode renascer em diferentes povos, culturas
e condições sociais (KARDEC, 2019). O homem que hoje discrimina poderá amanhã
experimentar a dor da discriminação; aquele que desfruta de privilégios poderá
reencarnar em circunstâncias completamente distintas.
O Espiritismo rejeita
frontalmente qualquer ideologia fundada na cor da pele, na origem étnica ou na
posição econômica. Em A Gênese, Kardec afirma que a reencarnação funda "o
princípio da fraternidade universal, da igualdade dos direitos sociais e da
liberdade" (KARDEC, 2019). Não existem Espíritos predestinados à
superioridade racial; existem apenas Espíritos em diferentes estágios de
aperfeiçoamento, todos destinados ao progresso.
Infelizmente, o racismo
moderno frequentemente se esconde atrás de discursos pseudocientíficos,
estatísticas manipuladas e preconceitos culturais herdados de séculos de
colonialismo. A antiga frenologia, que pretendia medir a inteligência pela
anatomia craniana, foi substituída por novas formas de intolerância intelectual
e social. Mudaram-se os argumentos, mas permanece a mesma ilusão de
superioridade.
O movimento espírita, por
sua vez, não pode permanecer indiferente diante dessa realidade. Os centros
espíritas devem ser espaços de acolhimento, educação moral e combate
intransigente a toda forma de discriminação. O silêncio diante do preconceito
constitui uma forma de cumplicidade moral. Não basta proclamar a fraternidade
em discursos; é indispensável traduzi-la em atitudes concretas de respeito,
inclusão e solidariedade.
Importa reconhecer,
igualmente, que algumas interpretações equivocadas de textos do século XIX não
podem servir de justificativa para o preconceito contemporâneo. Nenhuma
passagem isolada tem força para anular o núcleo ético da Doutrina Espírita,
fundamentado na igualdade essencial entre todos os filhos de Deus.
Nas questões 798 e 799 do Livro dos Espíritos, os benfeitores espirituais anunciam que o Espiritismo
exercerá profunda influência sobre o progresso humano justamente porque
ensinará aos homens a reconhecerem-se como irmãos. O racismo, portanto, não é
apenas um erro social ou político: é uma rebelião contra a lei divina da
fraternidade.
Num mundo marcado pela
intolerância, a Doutrina Espírita proclama uma verdade revolucionária: ninguém
é superior a ninguém pela cor da pele, pela nacionalidade ou pela condição
econômica. Diante da eternidade, somos todos Espíritos imortais em marcha para
a perfeição, aprendendo, através das múltiplas existências, a grande lição do
amor universal.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Brasília: FEB, 2018.
KARDEC, Allan. A Gênese.
Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. Revista
Espírita. Paris, abril de 1861.
XAVIER, Francisco
Cândido. Caminhos da Vida. Pelo Espírito Cornélio Pires. São Paulo: CEU, 1996.
