Jorge
Hessen
Brasília
-DF
A informação circula hoje
com velocidade inédita. Escândalos, fraudes, abusos e desvios podem ser
conhecidos em minutos. O mundo tornou-se uma espécie de vitrine permanente
da condição humana. E o espetáculo não é edificante.
O que mais espanta,
entretanto, não é a existência dos desonestos. Eles sempre existiram. O
verdadeiramente perturbador é a facilidade com que alguns deles conquistam
poder, prestígio e autoridade — enquanto pessoas honestas, competentes e
moralmente respeitáveis assistem a tudo em silêncio.
Na política, nos
negócios, na administração pública, no meio jurídico, na educação e até em
instituições que deveriam cultivar valores superiores, a mesma história se
repete: indivíduos de caráter duvidoso avançam porque encontram pouca
resistência.
Não se trata de afirmar
que todo acusado é culpado, nem de transformar suspeita em condenação. Trata-se
de reconhecer um princípio elementar: caráter não nasce pronto, nem a
corrupção surge por geração espontânea. O indivíduo que aprende a mentir
nas pequenas coisas, a manipular, a fraudar, a abusar de sua posição e a
justificar seus próprios privilégios está construindo, dia após dia, o caminho
que o levará a transgressões maiores.
E onde estavam os que
perceberam os sinais? Frequentemente,
estavam calados. Há uma concepção pueril de caridade que transforma indulgência
em omissão e prudência em covardia. Como se apontar uma conduta nociva fosse
falta de fraternidade. Como se o dever de amar o próximo obrigasse a
sociedade a fechar os olhos diante daquele que prejudica o próximo.
Não é assim.
Kardec definiu a caridade
como benevolência, indulgência e perdão, mas isso jamais autorizou a
cumplicidade com o erro. A própria Doutrina Espírita vincula a caridade à
justiça e ao progresso moral.
É preciso, portanto,
separar duas coisas que a hipocrisia costuma misturar: perseguir uma pessoa
e combater uma conduta. A primeira pode nascer da maldade. A segunda
pode ser um dever.
Quem denuncia uma fraude
para destruir reputação pratica mesquinharia. Quem silencia diante de uma
fraude comprovada para preservar amizades, interesses ou conveniências pratica
algo talvez ainda mais perigoso: oferece ao desonesto o ambiente ideal para continuar
agindo.
O dinheiro público
roubado não é abstrato. É hospital que não se constrói, escola que não se
reforma, serviço que não funciona. O patrimônio empresarial desviado pode
significar empregos perdidos. A corrupção institucional destrói confiança e
dissemina a convicção de que a honestidade é coisa de ingênuos.
E quando os honestos se
calam, essa mensagem ganha força.
Allan Kardec identificou
no egoísmo uma das grandes raízes das misérias humanas: quando cada um coloca
seus interesses acima dos demais, o prejuízo individual transforma-se em
miséria coletiva.
A sociedade não será
saneada apenas pela punição dos corruptos. Será saneada também quando os
homens de bem deixarem de entregar os espaços de decisão aos mais audaciosos.
A omissão dos bons é uma
forma indireta de patrocínio do mal.
Não se exige ódio.
Exige-se coragem. Não se exige perseguição. Exige-se vigilância. Não se exige
humilhação do culpado. Exige-se que seus atos tenham consequências. Não se
trata de alimentar o ódio, mas de recusar a covardia travestida de tolerância.
Não se trata de perseguir culpados, mas de impedir que a complacência lhes
sirva de salvo-conduto. Não se trata de humilhar ninguém, porque a justiça não
precisa de linchamento moral. Exige-se, simplesmente, responsabilidade.
Quem erra deve responder
pelo que fez; quem causa dano não pode esconder-se atrás de discursos piedosos;
e quem viola princípios não pode esperar que o silêncio alheio transforme sua
culpa em inocência. A indulgência que elimina as consequências deixa de ser
virtude e passa a ser cumplicidade. Afinal, uma sociedade que se recusa a
responsabilizar os que abusam não promove a paz: apenas institucionaliza a
impunidade.
Perdoar não é aprovar.
Compreender não é absolver. Ser caridoso não é ser tolo. O homem de bem não
precisa transformar-se em inquisidor. Mas também não pode desempenhar o papel
confortável de espectador.
Quando pessoas íntegras
recusam responsabilidades por medo, comodismo ou falsa modéstia, deixam o
caminho livre para quem não possui os mesmos escrúpulos.
Depois, não adianta
lamentar a decadência das instituições.
Quem abandona o campo
moral não pode se surpreender quando os indignos ocupam o campo abandonado.
É hora dos honestos
compreenderem que também têm responsabilidade pelo mundo que ajudam a
construir.
A virtude que se cala diante do vício deixa de ser virtude pública. Portanto, sem ódio, sem calúnia e sem injustiça — mas também sem silêncio, sem ingenuidade e sem cumplicidade.
Referências
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF:
FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Brasília, DF: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. Obras
Póstumas. Brasília, DF: FEB, 2019.
