10 agosto 2026

A cumplicidade dos honestos e a ascensão dos desonestos


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A informação circula hoje com velocidade inédita. Escândalos, fraudes, abusos e desvios podem ser conhecidos em minutos. O mundo tornou-se uma espécie de vitrine permanente da condição humana. E o espetáculo não é edificante.

O que mais espanta, entretanto, não é a existência dos desonestos. Eles sempre existiram. O verdadeiramente perturbador é a facilidade com que alguns deles conquistam poder, prestígio e autoridade — enquanto pessoas honestas, competentes e moralmente respeitáveis assistem a tudo em silêncio.

Na política, nos negócios, na administração pública, no meio jurídico, na educação e até em instituições que deveriam cultivar valores superiores, a mesma história se repete: indivíduos de caráter duvidoso avançam porque encontram pouca resistência.

Não se trata de afirmar que todo acusado é culpado, nem de transformar suspeita em condenação. Trata-se de reconhecer um princípio elementar: caráter não nasce pronto, nem a corrupção surge por geração espontânea. O indivíduo que aprende a mentir nas pequenas coisas, a manipular, a fraudar, a abusar de sua posição e a justificar seus próprios privilégios está construindo, dia após dia, o caminho que o levará a transgressões maiores.

E onde estavam os que perceberam os sinais?  Frequentemente, estavam calados. Há uma concepção pueril de caridade que transforma indulgência em omissão e prudência em covardia. Como se apontar uma conduta nociva fosse falta de fraternidade. Como se o dever de amar o próximo obrigasse a sociedade a fechar os olhos diante daquele que prejudica o próximo.

Não é assim.

Kardec definiu a caridade como benevolência, indulgência e perdão, mas isso jamais autorizou a cumplicidade com o erro. A própria Doutrina Espírita vincula a caridade à justiça e ao progresso moral.

É preciso, portanto, separar duas coisas que a hipocrisia costuma misturar: perseguir uma pessoa e combater uma conduta. A primeira pode nascer da maldade. A segunda pode ser um dever.

Quem denuncia uma fraude para destruir reputação pratica mesquinharia. Quem silencia diante de uma fraude comprovada para preservar amizades, interesses ou conveniências pratica algo talvez ainda mais perigoso: oferece ao desonesto o ambiente ideal para continuar agindo.

O dinheiro público roubado não é abstrato. É hospital que não se constrói, escola que não se reforma, serviço que não funciona. O patrimônio empresarial desviado pode significar empregos perdidos. A corrupção institucional destrói confiança e dissemina a convicção de que a honestidade é coisa de ingênuos.

E quando os honestos se calam, essa mensagem ganha força.

Allan Kardec identificou no egoísmo uma das grandes raízes das misérias humanas: quando cada um coloca seus interesses acima dos demais, o prejuízo individual transforma-se em miséria coletiva.

A sociedade não será saneada apenas pela punição dos corruptos. Será saneada também quando os homens de bem deixarem de entregar os espaços de decisão aos mais audaciosos.

A omissão dos bons é uma forma indireta de patrocínio do mal.

Não se exige ódio. Exige-se coragem. Não se exige perseguição. Exige-se vigilância. Não se exige humilhação do culpado. Exige-se que seus atos tenham consequências. Não se trata de alimentar o ódio, mas de recusar a covardia travestida de tolerância. Não se trata de perseguir culpados, mas de impedir que a complacência lhes sirva de salvo-conduto. Não se trata de humilhar ninguém, porque a justiça não precisa de linchamento moral. Exige-se, simplesmente, responsabilidade.

Quem erra deve responder pelo que fez; quem causa dano não pode esconder-se atrás de discursos piedosos; e quem viola princípios não pode esperar que o silêncio alheio transforme sua culpa em inocência. A indulgência que elimina as consequências deixa de ser virtude e passa a ser cumplicidade. Afinal, uma sociedade que se recusa a responsabilizar os que abusam não promove a paz: apenas institucionaliza a impunidade.

Perdoar não é aprovar. Compreender não é absolver. Ser caridoso não é ser tolo. O homem de bem não precisa transformar-se em inquisidor. Mas também não pode desempenhar o papel confortável de espectador.

Quando pessoas íntegras recusam responsabilidades por medo, comodismo ou falsa modéstia, deixam o caminho livre para quem não possui os mesmos escrúpulos.

Depois, não adianta lamentar a decadência das instituições.

Quem abandona o campo moral não pode se surpreender quando os indignos ocupam o campo abandonado.

É hora dos honestos compreenderem que também têm responsabilidade pelo mundo que ajudam a construir.

A virtude que se cala diante do vício deixa de ser virtude pública. Portanto, sem ódio, sem calúnia e sem injustiça — mas também sem silêncio, sem ingenuidade e sem cumplicidade.

 

Referências

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília, DF: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Brasília, DF: FEB, 2019.