Jorge Hessen
Brasília -DF
Há algo de profundamente
errado quando uma doutrina fundada no exame racional dos fatos passa a ser
tratada como propriedade de médiuns que, a qualquer momento, anunciam uma nova
“revelação” recebida diretamente do Além. O fenômeno não é apenas pitoresco. É
preocupante. E, se não for enfrentado com firmeza, poderá transformar o
Espiritismo brasileiro numa caricatura de si mesmo.
Circulam relatos sobre
uma obra que teria pretendido “atualizar” O Livro dos Espíritos para o século
XXI, acrescentando novas perguntas à Codificação. Agora aparece alegação ainda
mais extraordinária: uma suposta médium teria ido ao túmulo de Allan Kardec, em
Paris, e recebido do próprio Codificador desencarnado autorização para produzir
um hipotético Livro dos Espíritos 2.
Se é assim que a história
está sendo apresentada, há uma pergunta inevitável: desde quando o túmulo de
Kardec se transformou em cartório para autenticar livros mediúnicos?
A pergunta é incômoda,
mas necessária.
Allan Kardec não criou
uma doutrina dependente de revelações privadas. Ao contrário. Criou um método
para impedir justamente que indivíduos se transformassem em proprietários da
verdade espiritual. No Livro dos Médiuns, advertiu contra a fascinação, a credulidade
e os perigos da mistificação. No Livro dos Espíritos, submeteu as
comunicações a exame e comparação. E, ao formular o princípio do Controle
Universal do Ensino dos Espíritos, estabeleceu um mecanismo destinado a impedir
que a opinião de um médium fosse elevada à condição de verdade doutrinária.
Portanto, uma comunicação
particular — seja atribuída a Kardec, Emmanuel, André Luiz ou qualquer outro
Espírito — não é, por si mesma, atualização alguma da Doutrina Espírita.
Nome não é prova.
Assinatura espiritual não é prova. Fenômeno mediúnico não é prova. É muito
menos uma suposta conversa junto a um túmulo.
Quem conhece Kardec
deveria saber disso.
O problema é que a
credulidade encontrou no ambiente contemporâneo um terreno extraordinariamente
fértil. Podcasts, redes sociais, vídeos, congressos, celebridades e
plataformas digitais transformaram a mediunidade em conteúdo de consumo. A
cada novo personagem, uma revelação. A cada revelação, um livro. A cada livro,
uma plateia. E a cada plateia, mais autoridade para o próprio autor.
É a lógica da celebridade
aplicada ao sagrado.
O caso das chamadas
cartas consolidadoras torna tudo ainda mais delicado. Famílias enlutadas são
psicologicamente vulneráveis. A mensagem de um suposto comunicante pode
representar enorme conforto — mas também pode alimentar dependência, idolatria
e, quando existe exploração financeira ou promessa de certeza absoluta, uma forma
particularmente cruel de abuso da credulidade.
O Espiritismo não nasceu
para explorar a dor humana.
Nasceu para esclarecê-la.
Kardec também não
construiu uma religião de médiuns infalíveis. Ao contrário, ensinou que os
Espíritos comunicantes devem ser avaliados pelo conteúdo de suas mensagens,
pela qualidade moral e pela concordância com os princípios já estabelecidos. A
mediunidade é instrumento; não é diploma de infalibilidade.
Por isso, é preciso dizer
sem eufemismos: quem pretende “completar” Kardec mediante revelação particular
está assumindo uma responsabilidade gigantesca — e precisa apresentar muito
mais do que a própria palavra.
A Doutrina Espírita não é
um aplicativo que necessita de atualização anual. O Livro dos Espíritos não é
um arquivo incompleto aguardando que algum médium descubra a pergunta número
1.019, 1.020 ou 1.500.
Kardec não deixou uma
vaga aberta para sucessores.
E muito menos deixou
procuração para alguém encontrá-lo no além-túmulo e voltar ao Brasil com
autorização editorial.
Se novas ideias forem
apresentadas, que sejam estudadas como ideias. Se novos livros forem
publicados, que sejam avaliados como obras pessoais. Se novas comunicações
forem recebidas, que sejam submetidas ao crivo da razão, da experiência e da
concordância universal.
Mas que se pare de usar o
nome de Kardec como selo sobrenatural de autenticidade.
O Espiritismo brasileiro
já tem problemas suficientes com o culto à personalidade, a espetacularização
da mediunidade e a transformação da divulgação doutrinária em mercado.
Não precisa acrescentar a isso uma espécie de cartório mediúnico do Além, no
qual qualquer revelador possa sair com um certificado assinado por Kardec.
A Terceira Revelação não
precisa de donos, continuadores autoproclamados ou profetas particulares.
Precisa de espíritas que
estudem.
Que pensem.
Que questionem.
Que não se deixem
fascinar.
E, sobretudo, que
compreendam a advertência fundamental de Kardec: “Fé inabalável só o é a que
pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.”
O dia em que o
Espiritismo aceitar que uma suposta conversa privada com um Espírito basta para
modificar sua estrutura doutrinária será o dia em que terá abandonado o método
kardequiano.
E, quando uma doutrina
abandona o método que lhe deu origem, qualquer coisa pode ser apresentada como
verdade.
Até um “Kardec 2”.
Referências
Bibliográficas:
KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília, DF: FEB, 2016.
KARDEC,
Allan. O livro dos médiuns. Brasília, DF: FEB, 2019.
KARDEC,
Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. Brasília,
DF: FEB, 2019.
KARDEC,
Allan. Obras póstumas. Brasília, DF: FEB, 2019.
KARDEC,
Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2019.
KARDEC,
Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Paris: Bureau de la
Revue Spirite, 1858-1869
