25 agosto 2026

A inquisição às avessas: Quando questionar se torna crime de perseguição



Jorge Hessen

Brasília -DF

O movimento espírita brasileiro enfrenta um fenômeno esdruxulo demais: a multiplicação de alegações mediúnicas que, sob a aparência da consolação espiritual, podem utilizar recursos estranhos à legítima mediunidade para produzir informações de supostos mortos previamente obtidas pelas redes sociais. Em tempos de inteligência artificial, bancos de dados públicos, engenharia social (óculos espiões) e dispositivos tecnológicos cada vez mais discretos, a prudência deixou de ser simples virtude intelectual: tornou-se imperativo moral.

Não se pode confundir investigação séria com perseguição. Allan Kardec jamais edificou o Espiritismo sobre a credulidade. No Livro dos Médiuns, advertiu repetidamente quanto à necessidade de exame, controle e discernimento das comunicações, lembrando que os Espíritos não estão acima da análise racional e que a qualidade moral de uma mensagem não se demonstra pela assinatura que ostenta. O próprio Codificador submeteu os fenômenos à observação, à comparação e ao controle universal dos ensinos dos Espíritos.

A advertência permanece atual. Informações aparentemente extraordinárias podem ser obtidas por leituras frias — mediante observação e exploração psicológica — ou por “leituras quentes”, quando dados são previamente recolhidos em redes sociais, pesquisas públicas ou por terceiros. A tecnologia contemporânea ampliou enormemente essas possibilidades. Por isso, quem investiga não é inimigo da mediunidade: é seu defensor. O verdadeiro médium nada deve temer do exame honesto.

A inversão moral ocorre quando falsos médiuns que se apresentam como vítimas de “perseguição” tentam transformar qualquer questionamento em intolerância. Mas quem é realmente perseguido: o pesquisador que pede provas e prudência ou aquele que, eventualmente, ocupa o espaço da confiança religiosa para construir uma autoridade imune à crítica? O inquisitorialismo moderno pode vestir-se justamente com a máscara da vitimização, silenciando perguntas por meio da acusação contra quem pergunta.

André Luiz ensina que a faculdade mediúnica exige responsabilidade e educação moral (Nos Domínios da Mediunidade). Emmanuel, por sua vez, recorda que o Espiritismo não prescinde da razão e que a fé legítima deve caminhar com consciência. Léon Denis também vinculou o progresso espiritual ao livre exame e à responsabilidade individual. Nenhum desses autores autorizou a idolatria de médiuns ou a suspensão do senso crítico diante de manifestações espetaculares.

É igualmente necessário separar caridade de espetáculo. Obras assistenciais são respeitáveis, mas a finalidade nobre não transforma automaticamente em legítimos os meios empregados para obter prestígio, influência ou recursos. Alimentar necessitados com dinheiro de terceiros pode constituir meritória administração da solidariedade; não autoriza, porém, que uma eventual fraude ou manipulação seja moralmente absolvida pelo destino posterior dos recursos. A caridade não é salvo-conduto para a mentira.

O Espiritismo não precisa de médiuns intocáveis. Precisa de trabalhadores responsáveis, de pesquisadores livres e de instituições capazes de dizer “não sabemos” quando não há evidências suficientes. Defender Kardec é preservar seu método: observar, comparar, raciocinar e submeter as pretensões humanas ao crivo da consciência.

A crítica séria não é perseguição. A investigação não é intolerância. O verdadeiro perigo está em transformar a credulidade em virtude e o questionamento em crime moral. Quando isso acontece, os supostos perseguidos podem converter-se nos verdadeiros perseguidores da razão — precisamente aquela razão que Kardec colocou como uma das colunas indispensáveis da Doutrina Espírita.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. Depois da morte. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.

XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.

XAVIER, Francisco Cândido. Emmanuel. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.