Jorge
Hessen
Brasília
-DF
O movimento espírita
brasileiro enfrenta um fenômeno esdruxulo demais: a multiplicação de alegações
mediúnicas que, sob a aparência da consolação espiritual, podem utilizar
recursos estranhos à legítima mediunidade para produzir informações de supostos
mortos previamente obtidas pelas redes sociais. Em tempos de inteligência
artificial, bancos de dados públicos, engenharia social (óculos espiões) e
dispositivos tecnológicos cada vez mais discretos, a prudência deixou de ser
simples virtude intelectual: tornou-se imperativo moral.
Não se pode confundir
investigação séria com perseguição. Allan Kardec jamais
edificou o Espiritismo sobre a credulidade. No Livro dos Médiuns, advertiu
repetidamente quanto à necessidade de exame, controle e discernimento das
comunicações, lembrando que os Espíritos não estão acima da análise
racional e que a qualidade moral de uma mensagem não se demonstra pela
assinatura que ostenta. O próprio Codificador submeteu os fenômenos à
observação, à comparação e ao controle universal dos ensinos dos Espíritos.
A advertência permanece
atual. Informações aparentemente extraordinárias podem ser obtidas por leituras
frias — mediante observação e exploração psicológica — ou por “leituras
quentes”, quando dados são previamente recolhidos em redes sociais, pesquisas
públicas ou por terceiros. A tecnologia contemporânea ampliou enormemente
essas possibilidades. Por isso, quem investiga não é inimigo da mediunidade:
é seu defensor. O verdadeiro médium nada deve temer do exame honesto.
A inversão moral ocorre
quando falsos médiuns que se apresentam como vítimas de “perseguição” tentam
transformar qualquer questionamento em intolerância. Mas quem é realmente
perseguido: o pesquisador que pede provas e prudência ou aquele que,
eventualmente, ocupa o espaço da confiança religiosa para construir uma
autoridade imune à crítica? O inquisitorialismo moderno pode vestir-se
justamente com a máscara da vitimização, silenciando perguntas por meio
da acusação contra quem pergunta.
André Luiz ensina que a
faculdade mediúnica exige responsabilidade e educação moral (Nos Domínios da
Mediunidade). Emmanuel, por sua vez, recorda que o Espiritismo não prescinde da
razão e que a fé legítima deve caminhar com consciência. Léon Denis também
vinculou o progresso espiritual ao livre exame e à responsabilidade individual.
Nenhum desses autores autorizou a idolatria de médiuns ou a suspensão do senso
crítico diante de manifestações espetaculares.
É igualmente necessário separar
caridade de espetáculo. Obras assistenciais são respeitáveis, mas a
finalidade nobre não transforma automaticamente em legítimos os meios
empregados para obter prestígio, influência ou recursos. Alimentar
necessitados com dinheiro de terceiros pode constituir meritória
administração da solidariedade; não autoriza, porém, que uma eventual fraude
ou manipulação seja moralmente absolvida pelo destino posterior dos
recursos. A caridade não é salvo-conduto para a mentira.
O Espiritismo não precisa
de médiuns intocáveis. Precisa de trabalhadores responsáveis, de pesquisadores
livres e de instituições capazes de dizer “não sabemos” quando não há
evidências suficientes. Defender Kardec é preservar seu método: observar,
comparar, raciocinar e submeter as pretensões humanas ao crivo da consciência.
A crítica séria não é
perseguição. A investigação não é intolerância.
O verdadeiro perigo está em transformar a credulidade em virtude e o
questionamento em crime moral. Quando isso acontece, os supostos perseguidos
podem converter-se nos verdadeiros perseguidores da razão — precisamente aquela
razão que Kardec colocou como uma das colunas indispensáveis da Doutrina
Espírita.
Referências Bibliográficas:
DENIS,
Léon. Depois da morte. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.
KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.
KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, diversas
edições.
XAVIER,
Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Rio
de Janeiro: FEB, diversas edições.
XAVIER,
Francisco Cândido. Emmanuel. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB,
diversas edições.
