Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Há críticas religiosas
que merecem respeito, porque decorrem de divergências teológicas sinceras. Mas
há outras que apenas revelam ignorância ingênua daquilo que se pretende
combater. As declarações de um conhecido sacerdote de nome Paulo da Igreja
Romana sobre o Espiritismo contidas no vídeo que acabo de assistir enquadram-se,
lamentavelmente, nesta segunda categoria: acumulam simplificações, distorções
conceituais e afirmações incompatíveis com os textos fundamentais da Doutrina
Espírita.
Dizer, por exemplo, que o
Espiritismo consiste simplesmente em “invocar os espíritos dos mortos” é
reduzir uma filosofia complexa a uma caricatura intelectualoide. Allan Kardec
jamais definiu o Espiritismo como um ritual de evocação indiscriminada. O Livro
dos Médiuns estabelece critérios rigorosos para o estudo da mediunidade,
adverte contra a mistificação e recomenda o exame racional das comunicações. A
mediunidade, para a Doutrina Espírita, não é um espetáculo mágico nem uma
licença para acreditar em qualquer mensagem.
Igualmente equivocada é a
afirmação de que Jesus seria, para os espíritas, “apenas um espírito-guia”.
Basta compulsar O Evangelho segundo o Espiritismo para constatar a centralidade
moral de Jesus. Kardec apresenta Cristo como “guia e modelo” da humanidade, e
toda a ética espírita está edificada sobre a vivência de seus ensinamentos. É
evidente que o Espiritismo não aceita os dogmas católicos sobre a natureza de
Jesus. Mas divergência cristológica não autoriza ninguém a falsificar a posição
doutrinária do oponente.
Mais absurda ainda é a
tese de que o Espiritismo seria “simples paganismo”. O Espiritismo possui
princípios próprios, baseados na existência de Deus, na sobrevivência da alma,
na comunicabilidade dos Espíritos, na pluralidade das existências e no progresso
moral. Pode-se discordar desses princípios — e a Igreja romana tem pleno
direito de fazê-lo —, mas classificá-los como “paganismo” é substituir
argumentação por rótulo.
Também é impreciso
afirmar que os espíritas se mancomunam com demônios ou anjos por ignorarem o
bem e o mal. O Espiritismo interpreta essas denominações de maneira distinta:
considera os Espíritos como seres em diferentes graus de evolução moral. Não
há, portanto, negação da realidade espiritual, mas outra explicação para sua
natureza.
A incompatibilidade entre
a Igreja Romana e o Espiritismo, em infinitos pontos teológicos, é real. Não há
necessidade de escondê-las. O problema surge quando a crítica abandona o
terreno da comparação doutrinária e passa a disseminar versões deformadas do
pensamento espírita. Quem deseja combater uma doutrina deve, antes de tudo,
conhecê-la. O sacerdote Paulo em questão demonstrou rasa capacidade intelectual.
O Espiritismo não precisa
que sacerdotes da Igreja Romana se tornem espíritas, assim como os seguidores
dessa igreja não necessitam que
espíritas aceitem seus dogmas. O que se exige é algo mais elementar:
honestidade intelectual. Discordar é legítimo. Distorcer o que o outro ensina
para facilitar a condenação é um expediente imoral — e incompatível com
qualquer debate religioso que pretenda ser sério.
Referências Bibliográficas:
KARDEC,
Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF:
Federação Espírita Brasileira, 2019.
KARDEC,
Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF:
Federação Espírita Brasileira, 2019.
KARDEC,
Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro.
Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
FEDERAÇÃO
ESPÍRITA BRASILEIRA. Espiritismo: princípios e fundamentos da Doutrina
Espírita. Brasília, DF: FEB, [s.d.].
