24 agosto 2026

Quando a crítica ao Espiritismo troca argumentos por caricaturas intelectualoides


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há críticas religiosas que merecem respeito, porque decorrem de divergências teológicas sinceras. Mas há outras que apenas revelam ignorância ingênua daquilo que se pretende combater. As declarações de um conhecido sacerdote de nome Paulo da Igreja Romana sobre o Espiritismo contidas no vídeo que acabo de assistir enquadram-se, lamentavelmente, nesta segunda categoria: acumulam simplificações, distorções conceituais e afirmações incompatíveis com os textos fundamentais da Doutrina Espírita.

Dizer, por exemplo, que o Espiritismo consiste simplesmente em “invocar os espíritos dos mortos” é reduzir uma filosofia complexa a uma caricatura intelectualoide. Allan Kardec jamais definiu o Espiritismo como um ritual de evocação indiscriminada. O Livro dos Médiuns estabelece critérios rigorosos para o estudo da mediunidade, adverte contra a mistificação e recomenda o exame racional das comunicações. A mediunidade, para a Doutrina Espírita, não é um espetáculo mágico nem uma licença para acreditar em qualquer mensagem.

Igualmente equivocada é a afirmação de que Jesus seria, para os espíritas, “apenas um espírito-guia”. Basta compulsar O Evangelho segundo o Espiritismo para constatar a centralidade moral de Jesus. Kardec apresenta Cristo como “guia e modelo” da humanidade, e toda a ética espírita está edificada sobre a vivência de seus ensinamentos. É evidente que o Espiritismo não aceita os dogmas católicos sobre a natureza de Jesus. Mas divergência cristológica não autoriza ninguém a falsificar a posição doutrinária do oponente.

Mais absurda ainda é a tese de que o Espiritismo seria “simples paganismo”. O Espiritismo possui princípios próprios, baseados na existência de Deus, na sobrevivência da alma, na comunicabilidade dos Espíritos, na pluralidade das existências e no progresso moral. Pode-se discordar desses princípios — e a Igreja romana tem pleno direito de fazê-lo —, mas classificá-los como “paganismo” é substituir argumentação por rótulo.

Também é impreciso afirmar que os espíritas se mancomunam com demônios ou anjos por ignorarem o bem e o mal. O Espiritismo interpreta essas denominações de maneira distinta: considera os Espíritos como seres em diferentes graus de evolução moral. Não há, portanto, negação da realidade espiritual, mas outra explicação para sua natureza.

A incompatibilidade entre a Igreja Romana e o Espiritismo, em infinitos pontos teológicos, é real. Não há necessidade de escondê-las. O problema surge quando a crítica abandona o terreno da comparação doutrinária e passa a disseminar versões deformadas do pensamento espírita. Quem deseja combater uma doutrina deve, antes de tudo, conhecê-la. O sacerdote Paulo em questão demonstrou rasa capacidade intelectual.

O Espiritismo não precisa que sacerdotes da Igreja Romana se tornem espíritas, assim como os seguidores dessa igreja  não necessitam que espíritas aceitem seus dogmas. O que se exige é algo mais elementar: honestidade intelectual. Discordar é legítimo. Distorcer o que o outro ensina para facilitar a condenação é um expediente imoral — e incompatível com qualquer debate religioso que pretenda ser sério.

 

Referências Bibliográficas:

 

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Espiritismo: princípios e fundamentos da Doutrina Espírita. Brasília, DF: FEB, [s.d.].