16 agosto 2026

A inteligência artificial é conquista irreversível mas ela não pode" pensar" por nós



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Vivemos a era das inteligências artificiais. E, como ocorre diante de toda novidade tecnológica, surgem entusiasmos exagerados de um lado e rejeições igualmente apaixonadas de outro. No meio desses extremos, porém, há uma postura mais sensata: usar a inteligência artificial sem abdicar da inteligência humana.

Para o espírita, essa cautela não deveria causar estranheza. A Doutrina Espírita nasceu sob o signo da investigação, da observação e do livre exame. Allan Kardec não propôs que aceitássemos informações simplesmente porque parecessem convincentes. Ao contrário, ensinou que aquilo que recebemos deve ser submetido ao crivo da razão, da lógica e dos conhecimentos disponíveis. Na Gênese, afirma-se que o homem deve discutir, verificar e submeter as informações ao “cadinho da razão” (KARDEC, 2013).

E aqui está o ponto fundamental: a inteligência artificial pode pesquisar, organizar, comparar e estabelecer conexões, mas não pode substituir o nosso discernimento.

Uma IA pode apresentar centenas de informações sobre Espiritismo, relacionar conceitos, localizar referências, resumir obras e até formular interpretações aparentemente brilhantes. Mas aparência de inteligência não significa necessariamente verdade. Uma resposta bem escrita pode conter equívocos, generalizações, informações desatualizadas ou interpretações incompatíveis com a Codificação.

Portanto, não basta perguntar à máquina. É preciso questionar a própria resposta da máquina. Esse procedimento encontra perfeita correspondência no método kardequiano. Kardec jamais transformou qualquer informação recebida em dogma. A própria autoridade da Doutrina Espírita está associada ao controle e à concordância, e não à opinião isolada de uma pessoa ou de uma fonte.

É nesse sentido que precisamos “humanizar” a inteligência artificial. Humanizar não significa sentimentalizar a máquina. Significa colocar consciência, experiência, conhecimento, ética e responsabilidade humana diante daquilo que ela produz.

A IA oferece dados; nós devemos oferecer discernimento. Porquanto toda estatística e combinações de informações da IA precisamos avaliá-las. Portanto, temos o dever de verificar a coerência das informações da IA. Até porque ela pode auxiliar nossa pesquisa, porém  jamais ocupar o lugar da nossa consciência.

Há, inclusive, uma advertência espírita muito atual: nem mesmo a inteligência constitui, por si só, sinal seguro de superioridade. Kardec observa que inteligência e moralidade nem sempre caminham juntas (O Livro dos Médiuns, item 265).  Se isso vale para os Espíritos e para os seres humanos, vale também, guardadas as proporções, para aquilo que chamamos de inteligência artificial: capacidade de produzir respostas não é sinônimo de posse da verdade.

O perigo não está na ferramenta. Está na submissão intelectual a ela. O espírita não deve temer a tecnologia, mas também não deve venerá-la. Deve utilizá-la como instrumento de pesquisa, mantendo acesa a chama da razão e do senso crítico.

A máquina pode nos ajudar a encontrar caminhos. Mas quem deve decidir por onde caminhar somos nós.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília, DF: FEB, 2013.