Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Vivemos a era das
inteligências artificiais. E, como ocorre diante de toda novidade tecnológica,
surgem entusiasmos exagerados de um lado e rejeições igualmente apaixonadas de
outro. No meio desses extremos, porém, há uma postura mais sensata: usar a
inteligência artificial sem abdicar da inteligência humana.
Para o espírita, essa cautela não deveria causar estranheza. A Doutrina Espírita nasceu sob o signo da investigação, da observação e do livre exame. Allan Kardec não propôs que aceitássemos informações simplesmente porque parecessem convincentes. Ao contrário, ensinou que aquilo que recebemos deve ser submetido ao crivo da razão, da lógica e dos conhecimentos disponíveis. Na Gênese, afirma-se que o homem deve discutir, verificar e submeter as informações ao “cadinho da razão” (KARDEC, 2013).
E aqui está o ponto
fundamental: a inteligência artificial pode pesquisar, organizar, comparar e
estabelecer conexões, mas não pode substituir o nosso discernimento.
Uma IA pode apresentar
centenas de informações sobre Espiritismo, relacionar conceitos, localizar
referências, resumir obras e até formular interpretações aparentemente
brilhantes. Mas aparência de inteligência não significa necessariamente
verdade. Uma resposta bem escrita pode conter equívocos, generalizações,
informações desatualizadas ou interpretações incompatíveis com a Codificação.
Portanto, não basta
perguntar à máquina. É preciso questionar a própria resposta da máquina. Esse
procedimento encontra perfeita correspondência no método kardequiano. Kardec
jamais transformou qualquer informação recebida em dogma. A própria autoridade
da Doutrina Espírita está associada ao controle e à concordância, e não à
opinião isolada de uma pessoa ou de uma fonte.
É nesse sentido que precisamos
“humanizar” a inteligência artificial. Humanizar não significa
sentimentalizar a máquina. Significa colocar consciência, experiência,
conhecimento, ética e responsabilidade humana diante daquilo que ela produz.
A IA oferece dados; nós
devemos oferecer discernimento. Porquanto toda estatística e combinações de
informações da IA precisamos avaliá-las. Portanto, temos o dever de verificar a
coerência das informações da IA. Até porque ela pode auxiliar nossa pesquisa,
porém jamais ocupar o lugar da nossa
consciência.
Há, inclusive, uma
advertência espírita muito atual: nem mesmo a inteligência constitui, por si
só, sinal seguro de superioridade. Kardec observa que inteligência e moralidade
nem sempre caminham juntas (O Livro dos Médiuns, item 265). Se isso vale para os Espíritos e para os
seres humanos, vale também, guardadas as proporções, para aquilo que chamamos
de inteligência artificial: capacidade de produzir respostas não é sinônimo de
posse da verdade.
O perigo não está na
ferramenta. Está na submissão intelectual a ela. O espírita não deve temer a
tecnologia, mas também não deve venerá-la. Deve utilizá-la como instrumento de
pesquisa, mantendo acesa a chama da razão e do senso crítico.
A máquina pode nos ajudar
a encontrar caminhos. Mas quem deve decidir por onde caminhar somos nós.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. A Gênese:
os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Médiuns. Brasília, DF: FEB, 2013.
