16 agosto 2026

A nossa indignação é um alerta ou um veneno da alma?

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Obviamente, indignar-se diante da injustiça não é uma deformidade moral. Ao contrário: a consciência moral não pode permanecer indiferente diante da mentira, da corrupção, da violência ou da desonestidade. O problema começa quando a indignação deixa de ser ação circunstancial e se transforma em modo constante de viver.

Há pessoas que parecem ter feito da revolta uma residência mental. Acordam indignadas, passam o dia alimentando a indignação e dormem ruminando ofensas, erros alheios e acontecimentos que não têm poder de modificar. Confundem vigilância com ansiedade, transformando a coragem em  agressividade e perseverança colérica.

O Espiritismo oferece uma advertência contundente. No Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec examina a cólera e mostra que ela não apenas prejudica aquele contra quem se dirige, mas também transforma o próprio indivíduo em sua primeira vítima. O ensinamento é direto: a cólera compromete a saúde, perturba a razão e pode provocar sofrimento ao redor.

Isso não significa aceitar passivamente o erro. Mansidão não é covardia, tanto quanto a indulgência não é cumplicidade, e muito menos a tolerância é omissão. O espírita pode e deve denunciar fatos que  considera equivocados, mas sem permitir que o objeto de sua crítica seja pessoal e passe a governar sua mente.

A diferença é fundamental: quem combate o mal precisa evitar tornar-se semelhante ao mal que combate. Kardec, em O Livro dos Espíritos, esclarece que as paixões não são necessariamente más; tornam-se perniciosas quando deixam de ser governadas e passam a governar o indivíduo. 

A indignação pode ser uma força moral legítima quando convertida em discernimento, coragem e ação. Mas, quando alimentada indefinidamente, transforma-se em fanatismo e paixão destrutiva.

Há, portanto, uma pergunta que cada espírita deveria fazer a si mesmo: minha indignação está influenciando alguma mudança concreta ou apenas consumindo minhas energias?

Porque reclamar incessantemente é fácil. Construir é complexo e trabalhoso. Atacar pessoas é fácil, mas corrigir-se moralmente é desafiador. Sempre é muito “confortável” apontar culpados,  porém, trabalhar pela solução exige disciplina, serenidade e responsabilidade.

A Doutrina Espírita não nos convida à apatia diante das situações equivocadas. Convida-nos à nossa transformação moral. Jesus fez da brandura, da moderação, da mansuetude e da paciência verdadeiros deveres cristãos.

Não estou sugerindo que devemos reprimir a indignação, porém, convido para a sua educação,  até porque se a indignação momentânea pode despertar a consciência , a  indignação constante pode aprisioná-la.

O espírita não precisa viver anestesiado diante de um mundo  tão diverso, mas urge viver senhor de si mesmo. Porque quem perde o equilíbrio enquanto combate o desequilíbrio já começou a ser derrotado pelo próprio adversário que pretende “vencer”.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. IX, itens 4, 9 e 10. Brasília: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte terceira, cap. XII, questões 907-908. Brasília: Federação Espírita Brasileira.