Jorge Hessen
Brasília
-DF
Obviamente, indignar-se diante da injustiça não é uma deformidade moral. Ao contrário: a consciência moral
não pode permanecer indiferente diante da mentira, da corrupção, da violência
ou da desonestidade. O problema começa quando a indignação deixa de ser ação
circunstancial e se transforma em modo constante de viver.
Há pessoas que parecem
ter feito da revolta uma residência mental. Acordam indignadas, passam o dia
alimentando a indignação e dormem ruminando ofensas, erros alheios e
acontecimentos que não têm poder de modificar. Confundem vigilância com ansiedade, transformando a coragem em agressividade
e perseverança colérica.
O Espiritismo oferece uma
advertência contundente. No Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec
examina a cólera e mostra que ela não apenas prejudica aquele contra quem se
dirige, mas também transforma o próprio indivíduo em sua primeira vítima. O
ensinamento é direto: a cólera compromete a saúde, perturba a razão e pode
provocar sofrimento ao redor.
Isso não significa
aceitar passivamente o erro. Mansidão não é covardia, tanto quanto a indulgência não é cumplicidade, e muito menos a tolerância é omissão. O espírita pode e deve denunciar fatos que considera equivocados, mas sem permitir que o
objeto de sua crítica seja pessoal e passe a governar sua mente.
A diferença é
fundamental: quem combate o mal precisa evitar tornar-se semelhante ao mal que
combate. Kardec, em O Livro dos Espíritos, esclarece que as paixões não são
necessariamente más; tornam-se perniciosas quando deixam de ser governadas e
passam a governar o indivíduo.
A indignação pode ser uma
força moral legítima quando convertida em discernimento, coragem e ação. Mas,
quando alimentada indefinidamente, transforma-se em fanatismo e paixão
destrutiva.
Há, portanto, uma
pergunta que cada espírita deveria fazer a si mesmo: minha indignação está influenciando alguma mudança concreta ou apenas consumindo minhas energias?
Porque reclamar
incessantemente é fácil. Construir é complexo e trabalhoso. Atacar pessoas é
fácil, mas corrigir-se moralmente é desafiador. Sempre é muito “confortável” apontar
culpados, porém, trabalhar pela solução
exige disciplina, serenidade e responsabilidade.
A Doutrina Espírita não
nos convida à apatia diante das situações equivocadas. Convida-nos à nossa transformação
moral. Jesus fez da brandura, da moderação, da mansuetude e da paciência
verdadeiros deveres cristãos.
Não estou sugerindo que devemos
reprimir a indignação, porém, convido para a sua educação, até porque se a indignação momentânea pode
despertar a consciência , a indignação constante
pode aprisioná-la.
O espírita não precisa
viver anestesiado diante de um mundo tão
diverso, mas urge viver senhor de si mesmo. Porque quem perde o equilíbrio
enquanto combate o desequilíbrio já começou a ser derrotado pelo próprio
adversário que pretende “vencer”.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. IX, itens 4, 9 e 10. Brasília: Federação
Espírita Brasileira.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Parte terceira, cap. XII, questões 907-908. Brasília: Federação
Espírita Brasileira.
