29 agosto 2026

Ninguém vai ao Pai senão pelo EU ou o Cristo Interno


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João, 14:6). Poucas sentenças evangélicas possuem densidade filosófica e espiritual tão profunda.

A tradição cristã geralmente compreendeu essa afirmação como a proclamação de Jesus enquanto mediador entre Deus e a humanidade. Carlos Torres Pastorino, contudo, em sua monumental obra Sabedoria do Evangelho, propõe uma leitura simbólica e profunda que desloca o centro da questão para a essência  do próprio ser humano.

No capítulo intitulado “O Eu Profundo”, Pastorino interpreta o “mim” da sentença evangélica em conexão com o EU essebcial, que ele identifica com a dimensão mais profunda do ser e com aquilo que denomina “Cristo Interno”. Sua proposta de “sentido real” apresenta a frase como: “O Eu é o caminho da Verdade e da Vida: ninguém vem ao Pai senão pelo Eu” (PASTORINO, 1971). Para o autor, esse Eu não corresponde ao ego psicológico, à personalidade social ou ao conjunto de desejos que caracterizam a existência transitória. Trata-se, antes, da realidade espiritual mais profunda, que permanece para além das máscaras e vicissitudes da individualidade encarnada.

Aqui reside uma distinção fundamental. O ego é a consciência que se fecha em si mesma: deseja possuir, dominar, destacar-se e afirmar-se. O Eu profundo, na linguagem de Pastorino, realiza o movimento inverso: quanto mais se descobre, menos se encerra na vaidade da personalidade. Não é a hipertrofia do “eu”, mas a sua transcendência. É preciso perder o pequeno eu para encontrar a dimensão mais profunda do ser.

Essa concepção possui uma ressonância filosófica universal. Desde o imperativo socrático do “conhece-te a ti mesmo”, o pensamento humano reconhece que a ignorância mais grave talvez seja aquela que o indivíduo tem acerca de sua própria realidade. O homem pode conquistar o mundo exterior e permanecer estrangeiro de si mesmo. Pode acumular informações, títulos e poderes, mas continuar desconhecendo a finalidade de sua existência.

É precisamente nesse ponto que a interpretação pastoriniana se aproxima de uma questão essencial do Espiritismo: quem sou eu? Para Allan Kardec, o ser humano não se reduz ao corpo físico, nem à personalidade que se manifesta durante uma única existência. É Espírito imortal, temporariamente unido à matéria, caminhando através de múltiplas experiências rumo ao aperfeiçoamento.

O autoconhecimento, por isso, não é simples técnica psicológica: constitui instrumento de progresso moral. Na questão 919 de O Livro dos Espíritos, a resposta dos Espíritos superiores aponta o “conhece-te a ti mesmo” como o meio prático de melhorar-se. A interioridade é, portanto, uma exigência evolutiva.

Mas é importante estabelecer uma fronteira doutrinária. O Eu profundo de Pastorino não pode ser identificado, sem ressalvas, com o Espírito tal como definido pela Codificação. A linguagem de “Cristo Interno”, de “individuação do Cristo” e de uma unidade mística entre o Eu e o Pai pertence à elaboração filosófico-mística particular do autor. O Espiritismo de Kardec ensina que Deus é o Criador e que os Espíritos são criaturas, individualidades imortais em processo de evolução. A criatura aproxima-se de Deus pelo aperfeiçoamento, mas não se confunde ontologicamente com Ele.

Nesse sentido, a interpretação de Pastorino pode ser recebida como uma meditação espiritual sobre o processo interior, sem que necessariamente seja tomada como definição doutrinária literal. Seu mérito consiste em recordar que ninguém pode percorrer a estrada da evolução em nosso lugar.

Nenhuma instituição, sacerdote, médium ou mentor pode substituir a consciência individual no trabalho de renovação. O próprio Pastorino enfatiza essa interioridade ao afirmar que o verdadeiro progresso exige a descoberta dessa dimensão profunda, que se torna, para o indivíduo, o caminho da Verdade e da Vida.

Assim, a frase “ninguém vai ao Pai senão por mim” pode ser contemplada em dois planos complementares. No plano cristológico, Jesus (manifesto) é o Caminho, porque representa o modelo moral mais elevado oferecido à Humanidade, conforme a resposta à questão 625 de O Livro dos Espíritos. Segui-lo é orientar a própria existência pela lei de amor que ele viveu e ensinou. No plano interior, ninguém assimila esse caminho sem passar pela própria consciência, isto é, sem transformar intimamente os princípios que admira exteriormente.

Não basta admirar o Cristo: é preciso permitir que o Evangelho penetre a intimidade. Não basta falar de amor: é necessário amar. Não basta exaltar o perdão: é preciso perdoar. Não basta reconhecer a imortalidade: é preciso viver de maneira coerente com ela. A estrada apontada por Jesus somente se torna real quando é percorrida no território da consciência.

Talvez esteja aí o sentido mais fecundo da reflexão de Pastorino: o caminho para Deus não é uma fuga de si, mas uma viagem através de si. Todavia, atravessar-se não significa cultuar a personalidade; significa descer às profundezas da própria consciência, reconhecer as sombras, educar as paixões e fazer emergir as potencialidades superiores do Espírito.

O Cristo, portanto, não é substituído pelo Eu. Para o pensamento de Pastorino, o Eu verdadeiro seria precisamente a dimensão pela qual o ser humano pode perceber e experimentar interiormente a presença do Cristo. Jesus continua sendo a referência sublime, o Mestre e o modelo; mas o discípulo precisa realizar, em si mesmo, a obra que admira no Mestre.

Ir ao Pai é ultrapassar progressivamente as limitações do egoísmo e aproximar-se da Lei de Amor. E ninguém pode realizar essa travessia por procuração. A salvação, entendida como libertação e progresso espiritual, não é um privilégio recebido passivamente: é uma conquista da consciência.

Por isso, a provocadora tradução de Pastorino — “ninguém vem ao Pai senão pelo Eu” — pode ser compreendida como um apelo à responsabilidade espiritual. Deus não está distante apenas nos espaços infinitos; sua Lei interpela a consciência. O caminho não está exclusivamente fora, nos templos ou nas palavras; começa no íntimo, onde cada Espírito é chamado a confrontar-se consigo mesmo.

Encontrar o Eu profundo não é descobrir que o homem é Deus, mas reconhecer que ele é filho de Deus e portador de uma destinação espiritual. É compreender que, por trás da personalidade transitória, existe o Espírito imortal, chamado a crescer em sabedoria e amor. E é nesse processo de autoconhecimento, purificação moral e vivência evangélica que a criatura, gradualmente, aprende a caminhar para o Pai.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Evangelho segundo João, 14:6. Diversas traduções.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2013. Questões 625 e 919.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, diversas edições.

PASTORINO, Carlos Torres. Sabedoria do Evangelho: O Eu profundo. v. 8. Rio de Janeiro: Sabedoria, 1971. Interpretação de João 14:1-14.