Jorge
Hessen
Brasília
-DF
“Eu sou o caminho, a
verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João, 14:6). Poucas
sentenças evangélicas possuem densidade filosófica e espiritual tão profunda.
A tradição cristã
geralmente compreendeu essa afirmação como a proclamação de Jesus enquanto
mediador entre Deus e a humanidade. Carlos Torres Pastorino, contudo, em sua
monumental obra Sabedoria do Evangelho, propõe uma leitura simbólica e profunda
que desloca o centro da questão para a essência do próprio ser humano.
No capítulo intitulado “O
Eu Profundo”, Pastorino interpreta o “mim” da sentença evangélica em conexão
com o EU essebcial, que ele identifica com a dimensão mais profunda do ser e
com aquilo que denomina “Cristo Interno”. Sua proposta de “sentido real”
apresenta a frase como: “O Eu é o caminho da Verdade e da Vida: ninguém vem
ao Pai senão pelo Eu” (PASTORINO, 1971). Para o autor, esse Eu não
corresponde ao ego psicológico, à personalidade social ou ao conjunto de
desejos que caracterizam a existência transitória. Trata-se, antes, da
realidade espiritual mais profunda, que permanece para além das máscaras e
vicissitudes da individualidade encarnada.
Aqui reside uma distinção
fundamental. O ego é a consciência que se fecha em si mesma: deseja possuir,
dominar, destacar-se e afirmar-se. O Eu profundo, na linguagem de Pastorino,
realiza o movimento inverso: quanto mais se descobre, menos se encerra na vaidade
da personalidade. Não é a hipertrofia do “eu”, mas a sua transcendência. É
preciso perder o pequeno eu para encontrar a dimensão mais profunda do ser.
Essa concepção possui uma
ressonância filosófica universal. Desde o imperativo socrático do “conhece-te a
ti mesmo”, o pensamento humano reconhece que a ignorância mais grave talvez
seja aquela que o indivíduo tem acerca de sua própria realidade. O homem pode
conquistar o mundo exterior e permanecer estrangeiro de si mesmo. Pode acumular
informações, títulos e poderes, mas continuar desconhecendo a finalidade de sua
existência.
É precisamente nesse
ponto que a interpretação pastoriniana se aproxima de uma questão essencial do
Espiritismo: quem sou eu? Para Allan Kardec, o ser humano não se reduz ao corpo
físico, nem à personalidade que se manifesta durante uma única existência. É
Espírito imortal, temporariamente unido à matéria, caminhando através de
múltiplas experiências rumo ao aperfeiçoamento.
O autoconhecimento, por
isso, não é simples técnica psicológica: constitui instrumento de progresso
moral. Na questão 919 de O Livro dos Espíritos, a resposta dos Espíritos
superiores aponta o “conhece-te a ti mesmo” como o meio prático de
melhorar-se. A interioridade é, portanto, uma exigência evolutiva.
Mas é importante
estabelecer uma fronteira doutrinária. O Eu profundo de Pastorino não pode ser
identificado, sem ressalvas, com o Espírito tal como definido pela Codificação.
A linguagem de “Cristo Interno”, de “individuação do Cristo” e de uma unidade mística
entre o Eu e o Pai pertence à elaboração filosófico-mística particular do
autor. O Espiritismo de Kardec ensina que Deus é o Criador e que os Espíritos
são criaturas, individualidades imortais em processo de evolução. A criatura
aproxima-se de Deus pelo aperfeiçoamento, mas não se confunde ontologicamente
com Ele.
Nesse sentido, a
interpretação de Pastorino pode ser recebida como uma meditação espiritual
sobre o processo interior, sem que necessariamente seja tomada como definição
doutrinária literal. Seu mérito consiste em recordar que ninguém pode percorrer
a estrada da evolução em nosso lugar.
Nenhuma instituição,
sacerdote, médium ou mentor pode substituir a consciência individual no
trabalho de renovação. O próprio Pastorino enfatiza essa interioridade ao
afirmar que o verdadeiro progresso exige a descoberta dessa dimensão profunda,
que se torna, para o indivíduo, o caminho da Verdade e da Vida.
Assim, a frase “ninguém
vai ao Pai senão por mim” pode ser contemplada em dois planos complementares.
No plano cristológico, Jesus (manifesto) é o Caminho, porque representa o
modelo moral mais elevado oferecido à Humanidade, conforme a resposta à questão
625 de O Livro dos Espíritos. Segui-lo é orientar a própria existência pela lei
de amor que ele viveu e ensinou. No plano interior, ninguém assimila esse
caminho sem passar pela própria consciência, isto é, sem transformar
intimamente os princípios que admira exteriormente.
Não basta admirar o
Cristo: é preciso permitir que o Evangelho penetre a intimidade. Não basta
falar de amor: é necessário amar. Não basta exaltar o perdão: é preciso
perdoar. Não basta reconhecer a imortalidade: é preciso viver de maneira
coerente com ela. A estrada apontada por Jesus somente se torna real quando é
percorrida no território da consciência.
Talvez esteja aí o
sentido mais fecundo da reflexão de Pastorino: o caminho para Deus não é uma
fuga de si, mas uma viagem através de si. Todavia, atravessar-se não significa
cultuar a personalidade; significa descer às profundezas da própria consciência,
reconhecer as sombras, educar as paixões e fazer emergir as potencialidades
superiores do Espírito.
O Cristo, portanto, não é
substituído pelo Eu. Para o pensamento de Pastorino, o Eu verdadeiro seria
precisamente a dimensão pela qual o ser humano pode perceber e experimentar
interiormente a presença do Cristo. Jesus continua sendo a referência sublime,
o Mestre e o modelo; mas o discípulo precisa realizar, em si mesmo, a obra que
admira no Mestre.
Ir ao Pai é ultrapassar
progressivamente as limitações do egoísmo e aproximar-se da Lei de Amor. E
ninguém pode realizar essa travessia por procuração. A salvação, entendida como
libertação e progresso espiritual, não é um privilégio recebido passivamente: é
uma conquista da consciência.
Por isso, a provocadora
tradução de Pastorino — “ninguém vem ao Pai senão pelo Eu” — pode ser
compreendida como um apelo à responsabilidade espiritual. Deus não está
distante apenas nos espaços infinitos; sua Lei interpela a consciência. O
caminho não está exclusivamente fora, nos templos ou nas palavras; começa no
íntimo, onde cada Espírito é chamado a confrontar-se consigo mesmo.
Encontrar o Eu profundo
não é descobrir que o homem é Deus, mas reconhecer que ele é filho de Deus e
portador de uma destinação espiritual. É compreender que, por trás da
personalidade transitória, existe o Espírito imortal, chamado a crescer em
sabedoria e amor. E é nesse processo de autoconhecimento, purificação moral e
vivência evangélica que a criatura, gradualmente, aprende a caminhar para o
Pai.
Referências Bibliográficas:
BÍBLIA.
Bíblia Sagrada. Evangelho segundo João, 14:6. Diversas traduções.
KARDEC,
Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de
Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2013. Questões 625 e 919.
KARDEC,
Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de
Janeiro: Federação Espírita Brasileira, diversas edições.
PASTORINO,
Carlos Torres. Sabedoria do Evangelho: O Eu profundo. v. 8. Rio de Janeiro:
Sabedoria, 1971. Interpretação de João 14:1-14.
