28 agosto 2026

Quando a dor vira picadeiro para a “falsa psicografia” - Chega de comédias!


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade. O Movimento Espírita brasileiro precisa encarar uma pergunta incômoda: quantas supostas psicografias são aplaudidas, veneradas e divulgadas antes de serem submetidas ao mais elementar exame?

É hora de acabar com a ingenuidade.   Uma falcatrua travestida de psicografia pode consistir na utilização calculada da escrita, da emoção e da credulidade humana para fabricar a aparência de uma comunicação com os desencarnados, quando as informações apresentadas são obtidas por pesquisas, redes sociais, familiares, intermediários ou outros recursos perfeitamente terrenos.

E que ninguém se escandalize com a pergunta fundamental: de onde vieram essas informações? Allan Kardec jamais ensinou que o espírita deveria desligar o cérebro diante de uma folha de papel. O Espiritismo nasceu sob o signo da observação, da comparação e do exame racional. Nenhum médium recebeu uma licença para estar acima da crítica.

Uma mensagem atribuída a um morto não prova identidade espiritual. Uma carta “consoladora”  emocionante não comprova autenticidade. Lágrimas não são evidências. Aplausos não são demonstrações de fenômenos autênticos. E uma multidão fascinada jamais foi laboratório da verdade mediúnica .

Portanto,  emoção não substitui a prova. Na era digital, a cautela tornou-se ainda mais indispensável. Fotografias, apelidos, nomes de familiares, profissões, datas, amizades, preferências e detalhes íntimos são expostos diariamente nas redes sociais. Para um impostor, a internet pode ser uma verdadeira mina de ouro.

Portanto, diante de uma informação aparentemente “impossível de conhecer”, a pergunta é inevitável: era realmente impossível descobri-la?  Houve pesquisa prévia? Contato com familiares? Consulta as redes sociais? Intermediários? Existem registros que permitam verificação independente?

Quem nada tem a ocultar não deveria temer a transparência.  Tenho conhecimento de relatos e denúncias de pessoas que afirmam ter sido lesadas por práticas apresentadas como cartas consoladoras. Denúncia não é sentença. Todo acusado tem direito à defesa. Mas respeitar a presunção de inocência não significa fechar os olhos. Se existem indícios, investiguem-se. Se existem vítimas, ouçam-se. Se existem provas, preservem-se.

O que não se pode admitir é transformar toda pergunta em “perseguição” e toda investigação em “ataque ao Espiritismo”. Investigar não é perseguir. Perguntar não é caluniar. Exigir transparência é proteger a Doutrina contra a impostura.

A mediunidade não precisa de picadeiro. Quando a suposta comunicação espiritual se transforma em espetáculo e a família enlutada se torna plateia, a cautela deve aumentar. A dor de uma mãe não pode ser matéria-prima para performance circense. O desespero de um pai não pode ser instrumento de promoção pastelão. A saudade de uma viúva não pode se converter em moeda de prestígio.

E não vale o argumento simplista da gratuidade. Não cobrar ingresso não significa ausência de interesse. Existem benefícios indiretos: vendas, doações, campanhas financeiras, publicidade, projeção pessoal e a construção de uma aura de infalibilidade.

Chegou a hora de os dirigentes espíritas abandonarem a política da ingenuidade. Uma casa espírita não pode oferecer seu “palco” a qualquer personagem sedutor e depois lavar as mãos. Quem acolhe, divulga e legitima também assume responsabilidade ética diante do público.

Nenhum nome é grande demais para ser examinado. Nenhuma fama substitui a prova. Nenhuma popularidade torna alguém infalível.

Se determinadas práticas forem comprovadamente fraudulentas, não estaremos diante de “mediunidade incompreendida”, mas de uma abjeta exploração da confiança humana. Usar o nome dos Espíritos, de Jesus ou de Kardec para conferir aparência de respeitabilidade ao engano torna a impostura ainda mais grave.

A verdadeira mediunidade não teme investigação. A fraude, esta sim, necessita de penumbra, prestígio e ingenuidade para sobreviver e muito assédio judicial. O Movimento Espírita precisa escolher: continuará protegendo personagens ou protegerá princípios? Continuará confundindo emoção com verdade ou retornará ao método de Kardec: observar, comparar, raciocinar e não aceitar sem exame?

Eu, aos meus 75 anos, não hesito: Fico com Kardec. E justamente por isso não me curvo diante de nenhuma suposta autoridade que exija fé onde deveria apresentar provas.

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília, DF: Presidência da República, 1940.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, várias edições.

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, várias edições.

KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Diversos volumes. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, várias edições.