Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Há momentos em que o
silêncio deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade. O Movimento
Espírita brasileiro precisa encarar uma pergunta incômoda: quantas supostas
psicografias são aplaudidas, veneradas e divulgadas antes de serem submetidas
ao mais elementar exame?
É hora de acabar com a
ingenuidade. Uma falcatrua travestida
de psicografia pode consistir na utilização calculada da escrita, da emoção e
da credulidade humana para fabricar a aparência de uma comunicação com os
desencarnados, quando as informações apresentadas são obtidas por pesquisas,
redes sociais, familiares, intermediários ou outros recursos perfeitamente
terrenos.
E que ninguém se
escandalize com a pergunta fundamental: de onde vieram essas informações? Allan
Kardec jamais ensinou que o espírita deveria desligar o cérebro diante de uma
folha de papel. O Espiritismo nasceu sob o signo da observação, da comparação e
do exame racional. Nenhum médium recebeu uma licença para estar acima da
crítica.
Uma mensagem atribuída a
um morto não prova identidade espiritual. Uma carta “consoladora” emocionante não comprova autenticidade.
Lágrimas não são evidências. Aplausos não são demonstrações de fenômenos autênticos.
E uma multidão fascinada jamais foi laboratório da verdade mediúnica .
Portanto, emoção não substitui a prova. Na
era digital, a cautela tornou-se ainda mais indispensável. Fotografias,
apelidos, nomes de familiares, profissões, datas, amizades, preferências e
detalhes íntimos são expostos diariamente nas redes sociais. Para um impostor,
a internet pode ser uma verdadeira mina de ouro.
Portanto, diante de uma
informação aparentemente “impossível de conhecer”, a pergunta é inevitável: era
realmente impossível descobri-la? Houve
pesquisa prévia? Contato com familiares? Consulta as redes sociais?
Intermediários? Existem registros que permitam verificação independente?
Quem nada tem a ocultar
não deveria temer a transparência. Tenho
conhecimento de relatos e denúncias de pessoas que afirmam ter sido lesadas por
práticas apresentadas como cartas consoladoras. Denúncia não é sentença. Todo
acusado tem direito à defesa. Mas respeitar a presunção de inocência não
significa fechar os olhos. Se existem indícios, investiguem-se. Se existem
vítimas, ouçam-se. Se existem provas, preservem-se.
O que não se pode admitir
é transformar toda pergunta em “perseguição” e toda investigação em “ataque ao
Espiritismo”. Investigar não é perseguir. Perguntar não é caluniar. Exigir
transparência é proteger a Doutrina contra a impostura.
A mediunidade não precisa
de picadeiro. Quando a suposta comunicação espiritual se transforma em
espetáculo e a família enlutada se torna plateia, a cautela deve aumentar. A
dor de uma mãe não pode ser matéria-prima para performance circense. O
desespero de um pai não pode ser instrumento de promoção pastelão. A saudade de
uma viúva não pode se converter em moeda de prestígio.
E não vale o argumento
simplista da gratuidade. Não cobrar ingresso não significa ausência de
interesse. Existem benefícios indiretos: vendas, doações, campanhas
financeiras, publicidade, projeção pessoal e a construção de uma aura de
infalibilidade.
Chegou a hora de os
dirigentes espíritas abandonarem a política da ingenuidade. Uma casa espírita
não pode oferecer seu “palco” a qualquer personagem sedutor e depois lavar as
mãos. Quem acolhe, divulga e legitima também assume responsabilidade ética
diante do público.
Nenhum nome é grande
demais para ser examinado. Nenhuma fama substitui a prova. Nenhuma popularidade
torna alguém infalível.
Se determinadas práticas
forem comprovadamente fraudulentas, não estaremos diante de “mediunidade
incompreendida”, mas de uma abjeta exploração da confiança humana. Usar o nome
dos Espíritos, de Jesus ou de Kardec para conferir aparência de respeitabilidade
ao engano torna a impostura ainda mais grave.
A verdadeira mediunidade
não teme investigação. A fraude, esta sim, necessita de penumbra, prestígio e
ingenuidade para sobreviver e muito assédio judicial. O
Movimento Espírita precisa escolher: continuará protegendo personagens ou
protegerá princípios? Continuará confundindo emoção com verdade ou retornará ao
método de Kardec: observar, comparar, raciocinar e não aceitar sem exame?
Eu, aos meus 75 anos, não
hesito: Fico com Kardec. E justamente por isso não me curvo diante de
nenhuma suposta autoridade que exija fé onde deveria apresentar provas.
Referências
Bibliográficas:
BRASIL. Decreto-Lei nº
2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília, DF: Presidência da
República, 1940.
KARDEC, Allan. O livro
dos médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: Federação
Espírita Brasileira, várias edições.
KARDEC, Allan. A
gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro:
Federação Espírita Brasileira, várias edições.
KARDEC, Allan. Revista
Espírita: jornal de estudos psicológicos. Diversos volumes. Rio de Janeiro:
Federação Espírita Brasileira, várias edições.
