17 agosto 2026

O país da fábula mediúnica e coragem para dizer NÃO ao escombro da mistificação



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O movimento espírita brasileiro atravessa, talvez, um dos períodos mais preocupantes de sua história contemporânea. Multiplicam-se o misticismo, a credulidade, o culto ao fenômeno, as promessas de curas extraordinárias e, lamentavelmente, as fraudes travestidas de mediunidade.

Vivemos num país onde, em determinados ambientes, basta alguém anunciar-se como médium para encontrar uma multidão disposta a acreditar. O discernimento, que deveria ser patrimônio indispensável do espírita, cede lugar ao deslumbramento.

É nesse terreno fértil para a fantasia que reaparecem, em diferentes regiões, os chamados “doutores Fritz”, realizando supostas cirurgias espirituais e alimentando a esperança de cura imediata.

Não se trata aqui de discutir a autenticidade ou não dos fenômenos alegados. A questão é outra, muito mais grave: que espécie de espiritismo estamos ensinando quando estimulamos alguém a procurar a “cura” do sintoma da doença sem propor a indispensável transformação moral do doente?

A Doutrina Espírita jamais ensinou que uma intervenção mediúnica dispense o esforço pessoal, a reforma moral, a responsabilidade perante a própria existência e os recursos possíveis da medicina. Allan Kardec advertiu que o verdadeiro espírita é reconhecido pelo esforço de sua transformação moral, e não pela quantidade de fenômenos que presencia e/ou produz (KARDEC, 2013).

É preciso, portanto, abandonar a linguagem irresponsável da “cura garantida”. Uma prática espiritual, quando autêntica, pode eventualmente produzir efeitos de alívio ou melhora, mas não autoriza ninguém a prometer aquilo que não pode assegurar. Até porque só e somente o doente consegue curar a sua doença.

E aqui reside um ponto essencial: quase toda enfermidade é  uma consequência direta de comportamento moral. O Espiritismo reconhece a complexidade da existência humana e não autoriza simplificações grosseiras. Fatores biológicos, hereditários, ambientais, psicológicos e espirituais podem participar como efeitos dos processos de adoecimento. Porém, a reforma moral é indispensável à evolução da saúde e constitui a fórmula completa para explicar a vida saudável.

Extremamente  escandaloso ainda é o mercado da falsa psicografia. Há “criaturas” que recolhem informações em redes sociais, fotografias, obituários, comentários públicos e até recursos de inteligência artificial para produzir mensagens emocionalmente convincentes e apresentá-las como comunicações de parentes mortos.

Informações obtidas previamente na internet são apresentadas como percepção (visual ou auditiva) mediúnica. A fraude torna-se sofisticada porque explora justamente aquilo que o enlutado mais deseja: uma confirmação. E, quando faltam informações suficientes, entra em cena outro recurso sorrateiro: a suposta vidência e audição mediúnicas.

Os embusteiros dizem  frases do tipo: “Estou vendo e ouvindo seu pai.” “Vejo sua mãe ao seu lado.” “Seu irmão está aqui.” Pronto! Está montado o espetáculo  do circo Poeirinha  da fraude mediúnica agora com nova versão (vidência e audiência).

Kardec foi categórico ao recomendar prudência, exame e controle diante das manifestações espirituais. Para ele, o verdadeiro critério não é o deslumbramento produzido pelo fenômeno, mas a análise racional da comunicação e de suas consequências morais (KARDEC, 2013).

Léon Denis, igualmente, insistiu na necessidade de estudo, discernimento e elevação moral para o desenvolvimento seguro das faculdades mediúnicas (DENIS, 2013). Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, jamais apresentou a mediunidade como instrumento de exibição pessoal ou de exploração da dor alheia. Divaldo Pereira Franco, em sua longa trajetória doutrinária, também enfatizou repetidamente a responsabilidade moral do médium.

Então, onde estão as lideranças do combalidíssimo movimento espírita brasileiro? Onde estão as advertências (notas) públicas? Onde estão os dirigentes dispostos a dizer que nem tudo o que se apresenta em nome do Espiritismo é Espiritismo?

O silêncio e a omissão produzem consequências. Não se trata de acossar pessoas, destruir reputações ou combater fenômenos legítimos. Trata-se de preservar os princípios da Doutrina Espírita contra a credulidade cega, o charlatanismo, a exploração do sofrimento e a transformação da mediunidade em espetáculo.

Quem ocupa posição de liderança tem responsabilidade proporcional à influência que exerce. Não pode assistir passivamente à deterioração doutrinária e depois alegar que nada sabia. A advertência deve ser feita enquanto há tempo.

Aos líderes mornos bonzinhos ou os  consagrados "santos do pau oco" que regurgitam que o Espiritismo não necessita de defensores advertimos que perante as leis divinas, não responderemos apenas pelo mal que praticamos. Também responderemos pelo bem que poderíamos ter realizado e deliberadamente deixamos de fazer por atitude de falsa tolerância.

O Espiritismo não necessita de espetacularização mediúnica. Carece , sim, de mais estudo, mais discernimento, mais ética e, sobretudo, mais coragem para dizer NÃO ao entulho da mistificação.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. No invisível. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF: FEB, 2013.

FRANCO, Divaldo Pereira. Mediunidade: desafios e bênçãos. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL, 2010.