24 agosto 2026

Por trás das “cartas consoladoras”: Leitura fria, informações da internet e tecnologia a serviço do crime lesa-Deus



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Nem toda mensagem apresentada como mediúnica é, necessariamente, fruto de mediunidade. Em torno do sofrimento humano — especialmente da dor provocada pela morte — podem prosperar práticas de manipulação psicológica, coleta clandestina de informações e encenações cuidadosamente construídas. E quanto maior a idolatria em torno do suposto médium, menor, muitas vezes, torna-se a disposição dos seguidores para examinar criticamente aquilo que recebem.

Um dos mecanismos psicológicos mais conhecidos nesse contexto é o Efeito Forer ou Barnum, descrito por Bertram R. Forer em 1948. Trata-se da tendência humana de considerar algo altamente pessoal e de precisar de uma descrição suficientemente genérica para servir a inúmeras pessoas. Frases como “há algo que ficou por dizer”, “você ainda carrega uma dor profunda ou “ele gostaria que você seguisse em frente” podem produzir enorme impacto emocional sem revelar qualquer informação verificável.

No luto, essa vulnerabilidade pode ser ainda maior. A necessidade de reencontrar simbolicamente quem morreu pode favorecer o viés de confirmação: a pessoa se recorda intensamente dos aparentes acertos e tende a minimizar, reinterpretar ou esquecer os inúmeros erros.

É nesse terreno que prosperam técnicas conhecidas como leitura fria. O operador observa gestos, lágrimas, hesitações e reações, lançando afirmações vagas e ajustando o discurso conforme as respostas da vítima. Um “erro” rapidamente pode ser reformulado; uma negativa pode transformar-se em nova interpretação; uma pergunta pode ser disfarçada de revelação. Ao final, dez informações equivocadas desaparecem da memória diante de uma coincidência emocionalmente marcante.

Há também a leitura quente: informações obtidas previamente por redes sociais, mecanismos de busca, bancos de dados, conversas públicas ou pessoas próximas. Na era digital, o problema tornou-se ainda mais grave. Fotografias, parentescos, datas, locais frequentados e detalhes da vida íntima podem estar disponíveis antes mesmo do encontro.

E surge agora um terceiro recurso: a tecnologia discreta. Óculos inteligentes aparentemente comuns, equipados com câmeras, microfones e sistemas de inteligência artificial, podem ampliar a capacidade de captar imagens, conversas e informações. Não se deve afirmar, sem provas concretas, que determinado indivíduo utiliza esses recursos; mas ignorar que a tecnologia criou novas possibilidades de coleta e processamento de dados seria ingenuidade. O que parece “revelação sobrenatural” em determinadas circunstâncias é apenas informação obtida por meios tecnológicos facilmente comprovados.

Por isso, a verdadeira investigação exige controle, documentação e verificabilidade. Informações “mediunicas” específicas devem ser analisadas antes de serem aceitas como verdadeiras. É preciso perguntar: o dado era realmente desconhecido? Poderia estar na internet? Alguém teve acesso prévio à família? Houve gravação integral da sessão? Quantos erros ocorreram e foram convenientemente esquecidos?

A comparação com Chico Xavier também exige rigor. Seus defensores frequentemente apontam casos de mensagens com elevado grau de especificidade e relevância histórica. Contudo, a existência de casos considerados impressionantes não autoriza ninguém a usar seu nome como certificado automático de autenticidade para qualquer pessoa que hoje alegue psicografar. Prestígio alheio não é prova pessoal.

O verdadeiro problema não é a fé submetida à razão; é a fé transformada em idolatria. Quando seguidores passam a considerar o suposto médium incapaz de errar, qualquer crítica vira “perseguição” e qualquer dúvida passa a ser tratada como blasfêmia.

Allan Kardec recomendava exatamente o contrário: examinar, comparar e não aceitar cegamente. Onde se proíbe a pergunta, floresce a fraude. E onde a dor humana se transforma em mercado, espetáculo ou instrumento de poder, a vigilância moral torna-se um dever inadiável.

 

Referências Bibliográficas:

FORER, Bertram R. The fallacy of personal validation: a classroom demonstration of gullibility. Journal of Abnormal and Social Psychology, v. 44, n. 1, p. 118-123, 1949.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Brasília: Federação Espírita Brasileira, várias edições.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília: Federação Espírita Brasileira, várias edições.

SOUTO MAIOR, Marcel. As vidas de Chico Xavier. São Paulo: Planeta, 2003.