10 setembro 2026

A fé que não teme a razão



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Andá com fé, eu vou, que a fé não costuma faiá”, canta Gilberto Gil. A imagem popular traduz uma experiência humana profunda: diante das incertezas da existência, precisamos de confiança para prosseguir. A Epístola aos Hebreus define a fé como “o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem” (BÍBLIA, Hebreus, 11:1).

Mas é preciso distinguir a fé da credulidade. Para o Espiritismo, fé verdadeira não significa acreditar cegamente, muito menos aceitar afirmações apenas porque alguém as apresenta como verdades espirituais. Allan Kardec é categórico: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade” (KARDEC, 2008, p. 239).

Essa concepção é particularmente importante nos momentos de crise. Doença, desemprego, dificuldades financeiras, insegurança, envelhecimento, solidão e perdas afetivas podem despertar medo, ansiedade e desalento. A fé racional não elimina automaticamente essas experiências, mas pode oferecer ao indivíduo um eixo interior para enfrentá-las com maior serenidade, responsabilidade e esperança.

No entendimento espírita, essa esperança encontra fundamento na imortalidade da alma e na reencarnação. A morte deixa de ser compreendida como aniquilamento e passa a ser encarada como etapa da existência. Isso não autoriza passividade diante das dificuldades; ao contrário, convoca-nos ao trabalho, à resignação ativa e à transformação moral.

Fé, portanto, não é privilégio concedido a alguns, nem imposição religiosa. É conquista progressiva da consciência. Desenvolve-se pelo estudo, pela experiência, pela reflexão e, sobretudo, pela vivência do bem. A fé que dispensa a razão pode facilmente converter-se em superstição; a razão que despreza toda dimensão espiritual pode reduzir a existência àquilo que os sentidos conseguem perceber.

Jesus ensinou uma fé capaz de “transportar montanhas” (MATEUS, 17:20). As montanhas, porém, também podem representar nossas limitações interiores: medo, egoísmo, pessimismo, orgulho e desesperança.

A verdadeira fé não promete uma vida sem dificuldades. Ela nos ensina a atravessá-las sem perder o sentido da vida. Por isso, mais do que repetir que “a fé não costuma faiá”, precisamos construir uma fé que não tema a razão, não fuja dos fatos e, sobretudo, transforme-se em coragem para viver e amor para servir.

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.

GIL, Gilberto. Andar com fé. In: GILBERTO GIL. Um banda um. Rio de Janeiro: Warner Music Brasil, 1982.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 129. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2008.