Jorge
Hessen
Brasília
-DF
“Andá com fé, eu vou,
que a fé não costuma faiá”, canta Gilberto Gil. A imagem popular traduz uma
experiência humana profunda: diante das incertezas da existência, precisamos de
confiança para prosseguir. A Epístola aos Hebreus define a fé como “o firme
fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem”
(BÍBLIA, Hebreus, 11:1).
Mas é preciso distinguir a fé da credulidade. Para o Espiritismo, fé verdadeira não significa acreditar
cegamente, muito menos aceitar afirmações apenas porque alguém as apresenta
como verdades espirituais. Allan Kardec é categórico: “Fé inabalável só o é a
que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade”
(KARDEC, 2008, p. 239).
Essa concepção é
particularmente importante nos momentos de crise. Doença, desemprego,
dificuldades financeiras, insegurança, envelhecimento, solidão e perdas
afetivas podem despertar medo, ansiedade e desalento. A fé racional não elimina
automaticamente essas experiências, mas pode oferecer ao indivíduo um eixo
interior para enfrentá-las com maior serenidade, responsabilidade e esperança.
No entendimento espírita,
essa esperança encontra fundamento na imortalidade da alma e na reencarnação.
A morte deixa de ser compreendida como aniquilamento e passa a ser encarada
como etapa da existência. Isso não autoriza passividade diante das
dificuldades; ao contrário, convoca-nos ao trabalho, à resignação ativa e à
transformação moral.
Fé, portanto, não é
privilégio concedido a alguns, nem imposição religiosa. É conquista progressiva
da consciência. Desenvolve-se pelo estudo, pela experiência, pela reflexão e,
sobretudo, pela vivência do bem. A fé que dispensa a razão pode facilmente converter-se
em superstição; a razão que despreza toda dimensão espiritual pode reduzir a
existência àquilo que os sentidos conseguem perceber.
Jesus ensinou uma fé
capaz de “transportar montanhas” (MATEUS, 17:20). As montanhas, porém, também
podem representar nossas limitações interiores: medo, egoísmo, pessimismo,
orgulho e desesperança.
A verdadeira fé não
promete uma vida sem dificuldades. Ela nos ensina a atravessá-las sem perder
o sentido da vida. Por isso, mais do que repetir que “a fé não costuma
faiá”, precisamos construir uma fé que não tema a razão, não fuja dos fatos e,
sobretudo, transforme-se em coragem para viver e amor para servir.
Referências Bibliográficas:
BÍBLIA. Bíblia
Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica
do Brasil, 1995.
GIL,
Gilberto. Andar com fé. In: GILBERTO GIL. Um banda um. Rio de
Janeiro: Warner Music Brasil, 1982.
KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro.
129. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2008.
