29 setembro 2026

A "neurotech" será o novo desafio à ciência e ao Espiritismo?



 





Jorge Hessen

Brasília -DF



 

A revolução tecnológica poderá não estar apenas na inteligência artificial, mas na crescente convergência entre cérebro, matéria viva e máquinas — um território que desafia a ciência e convida o Espiritismo a uma reflexão ainda mais profunda.

Durante décadas, a humanidade imaginou que o futuro dos computadores dependeria exclusivamente de máquinas cada vez mais velozes. Agora surge uma fronteira surpreendente: utilizar células nervosas vivas como parte de sistemas computacionais e estabelecer comunicação direta entre cérebro e dispositivos eletrônicos.

A Cortical Labs, por exemplo, desenvolve sistemas de computação biológica nos quais neurônios cultivados em laboratório interagem com circuitos eletrônicos. Paralelamente, as interfaces cérebro-computador avançam rapidamente. Em 2026, a China autorizou para uso comercial um dispositivo invasivo destinado a auxiliar pessoas com tetraplegia a recuperar movimentos de preensão mediante uma luva robótica controlada por sinais cerebrais.

Não estamos, portanto, diante de mera ficção científica. Estamos ingressando numa época em que a fronteira entre organismo e máquina se torna progressivamente mais permeável.

Mas justamente aqui começa a pergunta que interessa ao Espiritismo: o cérebro é a consciência ou é o instrumento através do qual a consciência se manifesta?

A Doutrina Espírita não precisa temer essa investigação. Ao contrário. Allan Kardec sustentou que a ciência deve descobrir as leis da Natureza e advertiu que o Espiritismo não poderia permanecer estacionário diante do progresso. Em A Gênese, afirmou que, se uma nova verdade fosse demonstrada, a Doutrina deveria aceitá-la e modificar-se nesse ponto.

Essa postura continua extraordinariamente atual.

A neurotecnologia poderá ampliar capacidades motoras, tratar enfermidades, restaurar comunicação e produzir formas inéditas de interação homem-máquina. Poderá também criar dilemas éticos gigantescos: privacidade mental, autonomia, manipulação neural, propriedade dos dados cerebrais e limites da intervenção sobre a intimidade psíquica.

Para nós, espíritas, existe ainda uma questão mais profunda. Um cérebro artificialmente estimulado, um conjunto de neurônios cultivados ou uma máquina capaz de reproduzir determinados padrões neurais constitui, por si só, uma consciência?

A ciência pode investigar neurônios, sinapses, impulsos elétricos e circuitos cerebrais. Isso não significa que já tenha solucionado o problema filosófico da consciência, muito menos demonstrado que o Espírito seja simplesmente um produto da matéria.

Kardec distinguia o princípio espiritual da organização corporal e reconhecia que a ciência material possui um campo próprio de investigação. A Gênese observa que o conhecimento completo do ser humano exige considerar tanto a dimensão material quanto a espiritual.

Por isso, não devemos combater a neurociência em nome da fé, nem transformar qualquer avanço tecnológico em suposta confirmação do Espiritismo. O verdadeiro espírito científico exige prudência diante daquilo que ainda não sabemos.

A grande revolução talvez não seja descobrir máquinas que imitem o cérebro, mas compreender finalmente aquilo que faz do ser humano muito mais do que uma máquina biológica.

Se a inteligência artificial pretende reproduzir capacidades cognitivas, a neurotecnologia poderá tentar conectar diretamente cérebro e máquina. O Espiritismo acrescenta uma pergunta que permanece aberta: quem é o ser que pensa, escolhe, ama, sofre e utiliza o cérebro como instrumento de manifestação?

Talvez seja justamente nessa fronteira — entre cérebro, consciência e Espírito — que ciência e filosofia serão convocadas a conversar com maior seriedade.

O progresso tecnológico será extraordinário. Mas seu verdadeiro valor dependerá de uma conquista ainda maior: usar o poder adquirido sobre a matéria sem perder o domínio moral sobre nós mesmos.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013.

FIELDHOUSE, Rachel; YOU, Xiaoying. China approves brain chip to treat paralysis — a world first. Nature, 16 de março de 2026.

NATURE BIOTECHNOLOGY. China approves brain chip to overcome paralysis. Nature Biotechnology, v. 44, p. 497, 2026.

TERINI, Ricardo Andrade. Allan Kardec e o progresso da ciência. Horizonte, Belo Horizonte, v. 22, n. 67, 2024.