29 setembro 2026

O “Apocalipse” não é destino: é responsabilidade




Jorge Hessen
Brasília -DF

Entre o negacionismo e o catastrofismo, resta-nos a razão: a Terra não precisa de profetas do fim, mas de consciências capazes de reconstruí-la.

A velha metáfora da borboleta que bate as asas em Tóquio e pode, por uma complexa cadeia de acontecimentos, contribuir para uma chuva em Nova York tornou-se célebre graças a Stephen Hawking. A imagem não autoriza fantasias místicas: evidencia apenas a extraordinária interdependência dos sistemas naturais.

É justamente aí que o debate contemporâneo deveria começar. Não precisamos de profetas para anunciar o fim do mundo. Temos conhecimento suficiente para compreender que a ação humana interfere profundamente no ambiente. Mudanças climáticas, desmatamento, ocupação irregular do solo, impermeabilização das cidades, poluição e a ausência de planejamento ampliam as vulnerabilidades e podem transformar fenômenos naturais em tragédias humanas.

O erro está em atribuir tudo à natureza — ou, no extremo oposto, tudo a uma suposta punição divina.

O Espiritismo não recomenda nenhum desses atalhos. Allan Kardec, ao examinar os fenômenos naturais, pergunta se as perturbações dos elementos são sempre independentes da vontade dos Espíritos. A resposta é cautelosa: há fenômenos que têm relação com a existência humana, mas muitos visam simplesmente ao restabelecimento do equilíbrio das forças naturais. (O Livro dos Espíritos, questão 536).

Isso deveria bastar para desautorizar a indústria espiritual do medo.

Terremotos, furacões, enchentes, secas e erupções vulcânicas não podem ser convertidos em instrumentos de terror religioso. Tampouco devemos utilizar cada calamidade para fabricar calendários do “fim dos tempos”, para selecionar culpados ou para anunciar castigos coletivos. A tragédia já é suficientemente dolorosa sem que sobre ela acrescentemos superstição.

O mundo contemporâneo, entretanto, oferece razões concretas para preocupação. O IPCC demonstra que a influência humana sobre o clima é inequívoca e que determinados extremos climáticos sofreram alterações em frequência e intensidade. A ONU registra que 2015–2025 constituiu o período de onze anos mais quente já observado. O problema, portanto, não está em imaginar o apocalipse, mas em reconhecer responsabilidades objetivas.

Há ainda uma dimensão moral. Uma sociedade que desperdiça recursos, destrói florestas, contamina águas e transforma o consumo em finalidade existencial não pode esperar indefinidamente que a natureza suporte sua imprudência.

A resposta espírita não é o pânico. É a responsabilidade.

Também não devemos confundir esperança com acomodação. Jesus advertiu: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16:33). O ensinamento não promete uma existência sem dores. Ensina-nos a atravessá-las com coragem, lucidez e confiança.

A Terra não necessita de uma hecatombe para ingressar numa nova etapa. A transformação começa muito antes: quando mudamos nossos valores, nossas escolhas e nossa relação conosco e com o semelhante e com o planeta.

O verdadeiro “fim do mundo” que precisamos desejar é o fim do mundo velho em nós: o egoísmo, o orgulho, a indiferença e a irresponsabilidade.

Não esperemos que a próxima catástrofe nos ensine aquilo que a razão já deveria ter aprendido.

A natureza não precisa de profetas do apocalipse. Precisa de seres humanos responsáveis.

 

Referências Bibliográficas:

HAWKING, Stephen W. O universo numa casca de noz. São Paulo: Mandarim, 2002.

IPCC. Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília: FEB, 2019. Questão 536.

NAÇÕES UNIDAS. The Sustainable Development Goals Report 2026: Goal 13 — Climate action. New York: United Nations, 2026.

BÍBLIA João, 16:33