20 setembro 2026

A república não se ajoelha diante da toga - uma reflexão espírita



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quando a autoridade pública é alcançada por suspeitas, não cabe reverência: cabe transparência, investigação e respeito absoluto à verdade

Há uma pergunta que nenhuma democracia madura deveria temer: quem fiscaliza aqueles que fiscalizam todos?

O Brasil vive um daqueles momentos em que o silêncio das instituições pode ser mais corrosivo do que o barulho das ruas. Quando surgem suspeitas envolvendo autoridades encarregadas de fazer cumprir a lei, não se pode exigir do cidadão fé cega. Exige-se exatamente o contrário: prova, transparência, contraditório e prestação de contas.

O caso Banco Master tornou essa questão ainda mais sensível. O próprio Supremo Tribunal Federal informou que existem questões envolvendo magistrados mencionados nos autos que precisam ser examinadas, inclusive quanto a possíveis indícios de recebimento de valores indevidos. Isso não autoriza condenação antecipada. Mas também não autoriza que dúvidas legítimas sejam tratadas como irrelevantes.

Suspeita não é condenação. Mas suspeita também não se dissolve por decreto.  É precisamente aqui que o pensamento espírita oferece uma contribuição que ultrapassa os muros dos centros espíritas. Allan Kardec recusou a fé irracional, a autoridade incontestável e a aceitação passiva de afirmações sem exame. O Espiritismo nasceu sob o signo do livre exame, da observação e da submissão dos fatos ao crivo da razão.

A toga, portanto, não transforma ninguém em ser moralmente superior.  E a farda tampouco.

Os militares condenados no processo relativo à tentativa de golpe de Estado devem responder perante a Justiça segundo as provas constantes dos autos e as garantias constitucionais. Patente não constitui salvo-conduto. Mas a acusação também não pode converter-se em sentença moral antecipada.

General não é sinônimo de golpista. Ministro do Supremo não é sinônimo de incorruptível. A República exige uma régua única.

Se houve crime, que a prova o demonstre, tanto quanto se houve inocência, que seja reconhecida. Mas, se houve abuso, que seja responsabilizado e se existe conflito de interesses, que seja esclarecido.

É justamente nesse ponto que a consciência espírita não pode permanecer indiferente. Kardec ensinou que o progresso moral exige responsabilidade individual e que ninguém está dispensado do exame da própria consciência. Quanto maior o poder, maior deveria ser a responsabilidade diante da verdade.

A caridade espírita não é cumplicidade com o erro. Perdoar não significa encobrir e fraternidade não significa silenciar diante da injustiça. O Brasil não precisa de uma Suprema Corte enfraquecida. Precisa de uma Suprema Corte suficientemente forte para suportar o escrutínio público.

Não carece de militares acima da lei. Necessita de militares submetidos à lei e protegidos contra acusações que não possam ser sustentadas por provas.

Não necessita de cidadãos reverentes diante do poder. Precisa de cidadãos livres para perguntar. Porque nenhuma instituição democrática pode exigir confiança enquanto recusa transparência.

A autoridade não nasce da toga, nem da farda e muito menos do cargo. Nasce da legitimidade dos atos. E, perante a Justiça Divina, nenhum título humano constitui privilégio.

A República não deve escolher entre toga e farda. Deve escolher a Constituição, a Verdade e a Justiça.  Porque quando uma instituição teme ser examinada, a pergunta já deixou de ser inconveniente.

Tornou-se absolutamente necessária.