16 setembro 2026

Assistencialismo, terapismo e personalismo e um Espiritismo desidratado



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre assistencialismo, terapias inócuas e personalismos, a Doutrina Espírita corre o risco de ser empurrada para o canto, justamente onde deveria estar o centro de tudo.

Há algo profundamente reprovável quando uma Casa Espírita consegue multiplicar campanhas, terapias, tratamentos, eventos e atividades sociais, mas encontra cada vez menos tempo para estudar Allan Kardec.

É preciso dizer sem rodeios: assistência social não é sinônimo de Espiritismo, tanto quanto as terapias de “cura”  não são sinônimo de Espiritismo. Até mesmo os passes , os fenômenos mediúnicos não são sinônimos de Espiritismo. Tudo isso pode encontrar lugar numa instituição espírita. Nada disso, porém, pode ocupar o lugar da Doutrina.

O problema não é “ajudar” os pobres. Ao contrário. O problema é transformar a assistência em finalidade absoluta, criando uma instituição extremamente ativa no plano material e progressivamente desidratada no plano espiritual.

A caridade espírita não pode limitar-se à cesta básica. Ela deve também libertar da ignorância, educar a consciência, estimular a autonomia e promover a transformação moral. Kardec, em O Livro dos Espíritos, questão 886, ao tratar da caridade, não a reduz ao socorro material.

Mais preocupante ainda é a crescente terapização das Casas Espíritas. O Espiritismo não foi criado para funcionar como clínica alternativa.

O corpo precisa de cuidados médicos. O sofrimento físico merece assistência. Mas o objeto essencial da Doutrina é o Espírito: sua imortalidade, responsabilidade, evolução e transformação moral.

Quando uma Casa espírita passa a ser procurada principalmente por suas terapias, e não pelo estudo e vivência da Doutrina, alguma coisa saiu do eixo.

O Livro dos EspíritosO Evangelho segundo o EspiritismoO Livro dos Médiuns e A Gênese não podem ser tratados como peças decorativas de uma biblioteca. Kardec não pode virar rodapé de uma instituição que se diz espírita.

Léon Denis, Emmanuel e André Luiz, cada qual em sua perspectiva e contexto, igualmente colocaram a educação espiritual, a responsabilidade e o aperfeiçoamento moral no centro da experiência espírita. A literatura espírita clássica jamais autorizou a redução do ser humano ao corpo ou a substituição da reforma íntima por uma sucessão interminável de procedimentos.

E há uma questão que precisa ser enfrentada: caridade não significa conivência.  Devemos advertir, porque advertir não é odiar. Precisamos questionar, porque questionar não é perseguir. Discordar, com respeito e fundamento, não é faltar com a fraternidade. E humildade não significa silenciar diante do erro. Ao contrário: há momentos em que o verdadeiro compromisso com a fraternidade exige a coragem de advertir, questionar e discordar.

Uma Casa Espírita que não aceita questionamento corre o risco de trocar a Doutrina pelo personalismo de seus dirigentes. E o dirigente não é proprietário. Até porque  o cargo é encargo, tanto quanto o mandato é responsabilidade; ademais, uma instituição espírita não é feudo particular.

Também não se pode transformar a mediunidade em mercado. Jesus foi explícito: “De graça recebestes, de graça dai” (MATEUS, 10:8). A manutenção financeira de uma instituição é legítima e necessária; outra, muito diferente, é transformar benefícios espirituais em mercadoria, vinculando-os a relações comerciais.

O movimento espírita precisa recuperar o eixo.

Urge menos culto à estrutura, menos personalismo, menos terapismo, menos assistencialismo sem emancipação e mais Kardec,  Evangelho, estudo, discernimento,  educação espiritual e

Mais reforma moral.

A Casa Espírita não precisa fazer menos caridade. Precisa fazer caridade mais inteligente, mais educativa e mais libertadora. Nem precisa abandonar o cuidado do corpo, mas importa deixar de confundir o corpo com o Espírito.

A Casa Espírita precisa ser mais acolhedora,  mais fiel àquilo que afirma representar. Porque há uma diferença brutal entre uma instituição cheia de atividades e uma instituição vazia de doutrina. Pode haver uma multidão entrando pela porta de uma Casa Espírita e, paradoxalmente, o Espiritismo saindo pela porta dos fundos.

Esse é o perigo que não podemos fingir que não enxergamos.