Jorge Hessen
Brasília -DF
Entre assistencialismo,
terapias inócuas e personalismos, a Doutrina Espírita corre o risco de ser
empurrada para o canto, justamente onde deveria estar o centro de tudo.
Há algo profundamente
reprovável quando uma Casa Espírita consegue multiplicar campanhas, terapias,
tratamentos, eventos e atividades sociais, mas encontra cada vez menos tempo
para estudar Allan Kardec.
É preciso dizer sem
rodeios: assistência social não é sinônimo de Espiritismo, tanto quanto
as terapias de “cura” não são sinônimo de Espiritismo. Até mesmo os
passes , os fenômenos mediúnicos não são sinônimos de Espiritismo. Tudo
isso pode encontrar lugar numa instituição espírita. Nada disso, porém,
pode ocupar o lugar da Doutrina.
O problema não é “ajudar”
os pobres. Ao contrário. O problema é transformar a assistência em
finalidade absoluta, criando uma instituição extremamente ativa no
plano material e progressivamente desidratada no plano
espiritual.
A caridade espírita não
pode limitar-se à cesta básica. Ela deve também libertar da
ignorância, educar a consciência, estimular a autonomia e promover a
transformação moral. Kardec, em O Livro dos Espíritos, questão 886,
ao tratar da caridade, não a reduz ao socorro material.
Mais preocupante ainda é
a crescente terapização das Casas Espíritas. O Espiritismo
não foi criado para funcionar como clínica alternativa.
O corpo precisa de
cuidados médicos. O sofrimento físico merece assistência. Mas o objeto
essencial da Doutrina é o Espírito: sua imortalidade, responsabilidade,
evolução e transformação moral.
Quando uma Casa espírita passa a
ser procurada principalmente por suas terapias, e não pelo estudo e vivência da
Doutrina, alguma coisa saiu do eixo.
O Livro dos Espíritos, O
Evangelho segundo o Espiritismo, O Livro dos Médiuns e A
Gênese não podem ser tratados como peças decorativas de uma
biblioteca. Kardec não pode virar rodapé de uma instituição que se diz
espírita.
Léon Denis, Emmanuel e
André Luiz, cada qual em sua perspectiva e contexto, igualmente colocaram a
educação espiritual, a responsabilidade e o aperfeiçoamento moral no centro da
experiência espírita. A literatura espírita clássica jamais autorizou a redução
do ser humano ao corpo ou a substituição da reforma íntima por uma sucessão
interminável de procedimentos.
E há uma questão que
precisa ser enfrentada: caridade não significa conivência. Devemos
advertir, porque advertir não é odiar. Precisamos questionar,
porque questionar não é perseguir. Discordar, com respeito e
fundamento, não é faltar com a fraternidade. E humildade não significa
silenciar diante do erro. Ao contrário: há momentos em que o
verdadeiro compromisso com a fraternidade exige a coragem de advertir,
questionar e discordar.
Uma Casa Espírita que não
aceita questionamento corre o risco de trocar a Doutrina pelo personalismo de
seus dirigentes. E o dirigente não é proprietário. Até porque o cargo é
encargo, tanto quanto o mandato é responsabilidade; ademais, uma instituição
espírita não é feudo particular.
Também não se pode
transformar a mediunidade em mercado. Jesus foi explícito: “De
graça recebestes, de graça dai” (MATEUS, 10:8). A manutenção
financeira de uma instituição é legítima e necessária; outra, muito diferente,
é transformar benefícios espirituais em mercadoria, vinculando-os a
relações comerciais.
O movimento espírita
precisa recuperar o eixo.
Urge menos culto à
estrutura, menos personalismo, menos terapismo, menos assistencialismo sem
emancipação e mais Kardec, Evangelho, estudo, discernimento,
educação espiritual e
Mais reforma moral.
A Casa Espírita não
precisa fazer menos caridade. Precisa fazer caridade mais inteligente,
mais educativa e mais libertadora. Nem precisa abandonar o cuidado do
corpo, mas importa deixar de confundir o corpo com o Espírito.
A Casa Espírita precisa
ser mais acolhedora, mais fiel àquilo que afirma
representar. Porque há uma diferença brutal entre uma instituição
cheia de atividades e uma instituição vazia de doutrina. Pode haver uma
multidão entrando pela porta de uma Casa Espírita e, paradoxalmente, o
Espiritismo saindo pela porta dos fundos.
Esse é o perigo que não podemos fingir que não enxergamos.
