15 setembro 2026

Quando a mediunidade vira espetáculo, o silêncio institucional já não pode ser confundido com prudência


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre cartas “consoladoras” contraditas, revelações espetaculares e supostos diálogos com Kardec, o movimento espírita parece ter esquecido a vacina contra a credulidade: a própria razão.

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e começa a parecer omissão ou cumplicidade. O movimento espírita brasileiro vive um desses momentos.

Não estamos diante de uma simples divergência entre correntes doutrinárias. O que se vê é algo muito mais grave: a progressiva banalização do charlatanismo, a personalização da mediunidade e a substituição do método kardeciano pela autoridade de quem afirma possuir acesso privilegiado ao mundo espiritual.

Cartas “consoladoras” supostamente psicografadas (com informações 100% obtidas na Internet), destinadas a famílias devastadas pelo luto, passaram a ser objeto de denúncias e questionamentos jornalísticos sérios porque informações atribuídas aos mortos poderiam, segundo as acusações, ter sido obtidas em redes sociais e na internet. O assunto chegou à televisão aberta, provocou reação pública e colocou sob suspeita procedimentos que, por sua natureza, deveriam ser tratados judicialmente com extremo rigor.

A resposta não pode ser o insulto aos jornalistas, aos pesquisadores ou às famílias que questionam. A resposta deve ser a prova. Se a comunicação é autêntica, que seja examinada. Se existem elementos verificáveis, que sejam apresentados. Se as acusações são infundadas, que sejam refutadas documentalmente.

Mas transformar todo questionamento em acusações difamatórias e perseguição pela internet é uma maneira particularmente criminosa de fugir da questão central. E a questão é brutalmente simples: de onde vieram as informações?

Kardec jamais construiu o Espiritismo sobre a credulidade diante do médium. Ao contrário. O Livro dos Médiuns é uma advertência permanente contra a mistificação, a fraude, a fascinação, o charlatanismo e a aceitação precipitada de comunicações espirituais.

É por isso que determinadas novidades que circulam no movimento causam perplexidade. Agora aparecem afirmações de comunicação direta com Allan Kardec e até a proposta de um suposto “Livro dos Espíritos 2”.

É preciso dizer sem rodeios: Allan Kardec não é selo de autenticação para qualquer revelação contemporânea. Quem afirma conversar com Kardec não recebe, por isso, autoridade kardeciana.

Quem declara receber mensagens do além não adquire imunidade contra a crítica. Quem reúne milhares de seguidores não ganha certificado de infalibilidade. O Espiritismo não funciona assim. Ou não deveria funcionar.

Há ainda a defesa pública de práticas mediúnicas realizadas no ambiente familiar, acompanhada da valorização da evocação de Espíritos como se a simples experiência pessoal fosse suficiente para legitimar o procedimento.

Não é.

No universo kardeciano, fenômeno sem exame é apenas fenômeno. Experiência pessoal não constitui doutrina. Convicção íntima não constitui prova. O Espiritismo não nasceu para abolir a razão em nome dos Espíritos. Nasceu para aproximar a investigação espiritual da razão.

E justamente por isso a postura da Federação Espírita Brasileira merece ser discutida. Não se trata de exigir que uma instituição condene pessoas sem investigação. Trata-se de perguntar qual é seu papel diante de episódios que repercutem nacionalmente e podem deformar a imagem pública da Doutrina Espírita.

Uma Federação que historicamente se apresenta como referência na difusão do Espiritismo não pode ser percebida apenas como uma indústria que só mira lucros com editora, distribuidora de livros ou administradora institucional.

O movimento precisa de uma voz doutrinária. Precisa de estudo, de esclarecimento e de coragem para dizer onde termina o Espiritismo e onde começam as invenções humanas atribuídas a ele.

Não há aqui qualquer guerra contra a mediunidade. A guerra é contra a credulidade travestida de fé. Contra o personalismo travestido de autoridade espiritual e o espetáculo travestido de fenômeno.

Contra a exploração do sofrimento e estelionato do luto  travestida de consolação. E contra a ideia absurda de que questionar um médium equivale a atacar o Espiritismo. É exatamente o contrário.

Questionar é proteger a Doutrina. Investigar é honrar Kardec. Exigir provas é respeitar os Espíritos. Desconfiar daquilo que parece maravilhoso demais é exercer a própria faculdade que Kardec mais valorizou: o pensamento.

O movimento espírita precisa decidir o que quer ser. Uma escola de pensamento fundada na observação, na razão, na moral cristã e no livre exame? Ou um ambiente de celebridades mediúnicas, revelações particulares e histórias extraordinárias consumidas por uma multidão sedenta de consolo?

A escolha não é pequena. Porque se tudo pode ser chamado de Espiritismo, então nada mais é Espiritismo. Talvez estejamos mesmo diante da apoteose dos desvios.

Talvez seja o momento em que a caricatura se tornou tão grotesca que já não pode ser ignorada. Então que venha a atitude. Não pela censura.Não pela perseguição. Não pela intolerância. Pela razão.

Que se abram os livros de Kardec e estudem os textos,  confrontem as afirmações,  investiguem os fatos. Que se retirem os holofotes. E que permaneça aquilo que sobreviver ao exame.

Porque o Espiritismo não precisa temer a verdade. Quem precisa temê-la é o falso médium. E se existe uma coisa que Allan Kardec jamais nos ensinou, foi a acreditar porque alguém mandou. Ele nos ensinou a pensar e a repelir dez verdades do que a admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: ou guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Conheça a FEB: missão e história da Federação Espírita Brasileira. Brasília, DF: FEB.