30 setembro 2026

Epilepsia: entre o cérebro, a consciência e o cuidado espiritual


 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A doutrina espírita não autoriza substituir a medicina pela crença — nem transformar toda crise convulsiva em obsessão ou mediunidade.

A epilepsia acompanha a história da humanidade. Na Antiguidade, convulsões eram frequentemente atribuídas à ação de deuses, demônios ou forças sobrenaturais. Hipócrates representou uma ruptura importante ao sustentar que a chamada “doença sagrada” tinha relação com o cérebro e não com uma intervenção divina. Séculos depois, a medicina avançaria progressivamente na compreensão de suas múltiplas causas.

Hoje sabemos que a epilepsia é uma doença cerebral crônica, caracterizada por predisposição persistente à ocorrência de crises epilépticas. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 50 milhões de pessoas convivam com a enfermidade no mundo e calcula que aproximadamente 70% poderiam viver sem crises mediante diagnóstico e tratamento adequados.

A medicina contemporânea dispõe de medicamentos antiepilépticos, procedimentos cirúrgicos, neuroestimulação e outras estratégias terapêuticas. A própria International League Against Epilepsy atualizou, em 2025, a classificação das crises, incorporando avanços no conhecimento neurológico e na prática clínica.

Diante disso, uma advertência espírita se torna indispensável: crise epiléptica não deve ser automaticamente confundida com obsessão, possessão ou mediunidade ostensiva. Tampouco uma pessoa com epilepsia deve ser encaminhada a desenvolvimento mediúnico como se sua enfermidade fosse, por si mesma, manifestação mediúnica.

Esse cuidado não diminui a contribuição do Espiritismo. Ao contrário. A Doutrina nos ensina a considerar o ser humano em sua integralidade, sem desprezar nenhuma dimensão da existência. Podemos compreender o homem como Espírito reencarnado, portador de um organismo submetido às leis biológicas, psicológicas e espirituais. Entretanto, uma interpretação espiritual não deve ser apresentada como diagnóstico médico.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, ao tratar dos chamados “convulsionários”, aborda fenômenos específicos de seu tempo e menciona a influência do magnetismo e dos Espíritos. Isso não equivale a afirmar que toda convulsão neurológica seja causada por entidades desencarnadas.

Há, ainda, importante material na literatura espírita posterior. Em Nos Domínios da Mediunidade, André Luiz descreve o caso de Pedro, apresentado no contexto de possessão e epilepsia essencial, associando a crise à atuação de um desencarnado. Esse relato pertence ao campo da literatura espiritualista e deve ser compreendido dentro de seu respectivo referencial doutrinário, não utilizado como substituto da investigação neurológica.

Podemos, portanto, admitir como possibilidade doutrinária que existam situações em que processos obsessivos interfiram no equilíbrio psíquico e, segundo determinadas interpretações espíritas, repercutam sobre o organismo. Mas isso é diferente de afirmar que a ciência médica tenha demonstrado que a epilepsia seja causada por obsessão espiritual.  Essa distinção é fundamental.

O passe, a prece, o acolhimento fraterno e a assistência espiritual podem constituir recursos de amparo moral e emocional. Jamais, porém, devem servir de pretexto para abandonar medicamentos, consultas, exames ou tratamentos prescritos por profissionais habilitados. A própria terapêutica espírita perde sua legitimidade quando se converte em concorrente da medicina (inobstante esta ainda seja muito materialista).

Também precisamos combater outro equívoco: atribuir ao doente culpa moral por sua enfermidade. A existência de causas espirituais, quando admitida dentro da concepção reencarnacionista, não significa que devamos acusar o enfermo de estar exclusivamente “pagando” determinada falta. Tal interpretação pode acrescentar sofrimento, culpa e estigma a quem já enfrenta uma condição neurológica.

A postura espírita responsável deve ser outra: acolher sem rotular, orar sem substituir o tratamento, estudar sem dogmatizar e respeitar a ciência sem abdicar da dimensão espiritual da existência.

A epilepsia não é prova de inferioridade moral, não é certificado de mediunidade e não deve ser transformada em espetáculo religioso. O enfermo precisa, antes de tudo, de respeito, diagnóstico adequado, tratamento competente e solidariedade.

Se a espiritualidade puder contribuir, que o faça pela via do amor, da prece, do equilíbrio e da renovação íntima — nunca pela negação da realidade orgânica.

O verdadeiro compromisso espírita não é escolher entre ciência e espiritualidade. É aprender a colocá-las em seus devidos lugares, sem fanatismo, sem credulidade e sem abandono da razão.

 

Referências Bibliográficas:

  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Epilepsy. Geneva: WHO, 2024. Organização Mundial da Saúde
  • INTERNATIONAL LEAGUE AGAINST EPILEPSY. Updated classification of epileptic seizures: Position paper of the International League Against Epilepsy. Epilepsia, 2025. Liga Internacional Contra a Epilepsia
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte segunda, cap. IX, questões 481–483. Nepe Brasil
  • XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Cap. 9 — “Possessão”