Jorge
Hessen
Brasília
-DF
A doutrina
espírita não autoriza substituir a medicina pela crença — nem transformar toda
crise convulsiva em obsessão ou mediunidade.
A epilepsia acompanha a
história da humanidade. Na Antiguidade, convulsões eram frequentemente
atribuídas à ação de deuses, demônios ou forças sobrenaturais. Hipócrates
representou uma ruptura importante ao sustentar que a chamada “doença sagrada”
tinha relação com o cérebro e não com uma intervenção divina. Séculos depois, a
medicina avançaria progressivamente na compreensão de suas múltiplas causas.
Hoje sabemos que a epilepsia é uma doença cerebral crônica, caracterizada por predisposição
persistente à ocorrência de crises epilépticas. A Organização Mundial da Saúde
estima que cerca de 50 milhões de pessoas convivam com a enfermidade no mundo e
calcula que aproximadamente 70% poderiam viver sem crises mediante diagnóstico
e tratamento adequados.
A medicina contemporânea
dispõe de medicamentos antiepilépticos, procedimentos cirúrgicos,
neuroestimulação e outras estratégias terapêuticas. A própria International
League Against Epilepsy atualizou, em 2025, a classificação das crises,
incorporando avanços no conhecimento neurológico e na prática clínica.
Diante disso, uma
advertência espírita se torna indispensável: crise epiléptica não deve ser
automaticamente confundida com obsessão, possessão ou mediunidade ostensiva.
Tampouco uma pessoa com epilepsia deve ser encaminhada a desenvolvimento
mediúnico como se sua enfermidade fosse, por si mesma, manifestação mediúnica.
Esse cuidado não diminui
a contribuição do Espiritismo. Ao contrário. A Doutrina nos ensina a considerar
o ser humano em sua integralidade, sem desprezar nenhuma dimensão da
existência. Podemos compreender o homem como Espírito reencarnado, portador de
um organismo submetido às leis biológicas, psicológicas e espirituais.
Entretanto, uma interpretação espiritual não deve ser apresentada como
diagnóstico médico.
Allan Kardec, em O
Livro dos Espíritos, ao tratar dos chamados “convulsionários”, aborda
fenômenos específicos de seu tempo e menciona a influência do magnetismo e dos
Espíritos. Isso não equivale a afirmar que toda convulsão neurológica seja
causada por entidades desencarnadas.
Há, ainda, importante
material na literatura espírita posterior. Em Nos Domínios da Mediunidade,
André Luiz descreve o caso de Pedro, apresentado no contexto de possessão e
epilepsia essencial, associando a crise à atuação de um desencarnado. Esse
relato pertence ao campo da literatura espiritualista e deve ser compreendido
dentro de seu respectivo referencial doutrinário, não utilizado como substituto
da investigação neurológica.
Podemos, portanto,
admitir como possibilidade doutrinária que existam situações em que processos
obsessivos interfiram no equilíbrio psíquico e, segundo determinadas
interpretações espíritas, repercutam sobre o organismo. Mas isso é diferente de
afirmar que a ciência médica tenha demonstrado que a epilepsia seja causada por
obsessão espiritual. Essa distinção é
fundamental.
O passe, a prece, o
acolhimento fraterno e a assistência espiritual podem constituir recursos de
amparo moral e emocional. Jamais, porém, devem servir de pretexto para
abandonar medicamentos, consultas, exames ou tratamentos prescritos por
profissionais habilitados. A própria terapêutica espírita perde sua
legitimidade quando se converte em concorrente da medicina (inobstante esta
ainda seja muito materialista).
Também precisamos
combater outro equívoco: atribuir ao doente culpa moral por sua enfermidade. A
existência de causas espirituais, quando admitida dentro da concepção
reencarnacionista, não significa que devamos acusar o enfermo de estar exclusivamente
“pagando” determinada falta. Tal interpretação pode acrescentar sofrimento,
culpa e estigma a quem já enfrenta uma condição neurológica.
A postura espírita
responsável deve ser outra: acolher sem rotular, orar sem substituir o
tratamento, estudar sem dogmatizar e respeitar a ciência sem abdicar da
dimensão espiritual da existência.
A epilepsia não é prova
de inferioridade moral, não é certificado de mediunidade e não deve ser
transformada em espetáculo religioso. O enfermo precisa, antes de tudo, de
respeito, diagnóstico adequado, tratamento competente e solidariedade.
Se a espiritualidade
puder contribuir, que o faça pela via do amor, da prece, do equilíbrio e da
renovação íntima — nunca pela negação da realidade orgânica.
O verdadeiro compromisso
espírita não é escolher entre ciência e espiritualidade. É aprender a
colocá-las em seus devidos lugares, sem fanatismo, sem credulidade e sem
abandono da razão.
Referências Bibliográficas:
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Epilepsy.
Geneva: WHO, 2024. Organização
Mundial da Saúde
- INTERNATIONAL LEAGUE AGAINST
EPILEPSY. Updated classification of epileptic seizures: Position paper
of the International League Against Epilepsy. Epilepsia, 2025. Liga
Internacional Contra a Epilepsia
- KARDEC, Allan. O Livro dos
Espíritos. Parte segunda, cap. IX, questões 481–483. Nepe
Brasil
- XAVIER, Francisco Cândido. Nos
Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Cap. 9 —
“Possessão”
