05 setembro 2026

Não se responde às cartas “consoladoras” com “flores”


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Havia, numa pequena cidade, uma casa conhecida pelo belo jardim.

 Semanalmente seus voluntários distribuíam alimentos, roupas e outros recursos aos necessitados. Gioconda trabalhava ali há muitos anos. Sabia quem precisava de uma cesta básica, quem chegava em silêncio e quem voltava apenas para conversar. Para ela, a caridade não era uma ideia: tinha rosto, nome e história.

 Epifânio era diferente. Gostava de documentos, datas e comparações. Quando ouvia uma afirmação extraordinária, sua primeira reação não era acreditar nem desacreditar.

Era perguntar:

— Como podemos saber?

 Ariosto, o velho jardineiro, conhecia os dois.

 Numa manhã, encontrou-os conversando diante de uma mesa onde estavam algumas cartas “consoladoras”.

— Lá estão vocês dois outra vez — disse ele. — Uma querendo respostas e a outra querendo proteger o jardim.

 Gioconda sorriu.

 — Não estou protegendo o jardim, Ariosto. Estou protegendo pessoas. É diferente.

 Epifânio respondeu:

— E eu não estou tentando derrubar o jardim. Estou tentando descobrir de onde vieram essas cartas “consoladoras”.

 Gioconda cruzou os braços.

— Você sabe como essas coisas funcionam. Quando uma história começa a circular, ninguém fica apenas nas cartas “consoladoras”. Daqui a pouco estão falando da casa inteira.

 — E justamente por isso precisamos ser precisos — respondeu Epifânio. — Se eu questiono uma carta “consoladora”, diga que questionei a carta. Não diga que ataquei a caridade.

 Gioconda ficou séria.

 — Mas você também precisa reconhecer que palavras têm consequências. Para quem recebe ajuda aqui, ouvir que a casa está sendo questionada pode causar insegurança.

Epifânio fez uma pausa.

— Reconheço. Mas isso vale para os dois lados. Se uma dúvida sobre as cartas “consoladoras” for apresentada como se fosse uma condenação da caridade, também se cria uma impressão que não corresponde ao que foi perguntado.

 Ariosto, que até então observava em silêncio, puxou uma cadeira.

— Muito bem. Agora estamos chegando ao ponto.

Gioconda olhou para ele.

— Qual ponto?

 — O ponto em que vocês percebem que estão falando de duas preocupações diferentes.

 Epifânio perguntou:

 — Quais?

— Você quer saber se as cartas “consoladoras” resistem ao exame. Gioconda quer ter certeza de que as pessoas que dependem da casa não serão prejudicadas pela discussão.

Gioconda concordou.

 — É exatamente isso.

 — E nenhuma dessas preocupações é absurda — continuou Ariosto. — O problema começa quando uma resposta para uma preocupação é usada para substituir a outra.

 Epifânio pegou uma carta “consoladora”.

— Então vamos ao concreto. Se existem informações aqui que também aparecem em entrevistas, publicações ou redes sociais, eu quero saber como isso é explicado.

 Gioconda respondeu imediatamente:

 — E eu quero saber se você já ouviu a explicação completa.

Epifânio levantou os olhos.

— Ainda não.

 — Então talvez esse seja o primeiro passo — disse ela.

 Epifânio sorriu.

 — Justo.

Ariosto bateu levemente na mesa.

— Vejam só. Uma pergunta e uma resposta. Sem precisar transformar ninguém em vilão.

 Gioconda riu.

 — Você sempre acha tudo mais simples.

— Não. Eu só já vivi o suficiente para saber que uma discussão fica mais difícil quando começamos a adivinhar o que existe na cabeça dos outros.

 Epifânio concordou:

 — Isso é verdade. Eu posso dizer o que observei. Não posso afirmar por que alguém fez alguma coisa sem ter elementos para isso.

 Gioconda olhou novamente para a carta “consoladora”.

 — E eu posso defender o trabalho da casa sem afirmar que qualquer pessoa que faça uma pergunta está atacando a instituição.

 Ariosto levantou-se.

 — Agora vocês estão aprendendo a conversar.

Gioconda provocou:

— E você? De que lado está?

 O velho jardineiro apontou para o jardim.

 — Do lado das perguntas bem feitas, das respostas honestas e das flores bem cuidadas.

 Epifânio riu.

 — Isso não é exatamente um lado.

 — É o melhor que consigo oferecer.

Gioconda pegou a carta “consoladora”e a colocou novamente sobre a mesa.

— Então fica combinado: o trabalho assistencial continua sendo reconhecido pelo que é. E as cartas “consoladoras” são examinadas pelo que apresentam.

 — E sem antecipar a conclusão — acrescentou Epifânio.

 — Sem transformar crítica em acusação — disse Gioconda.

Ariosto completou:

 — E sem transformar caridade em argumento para uma questão que precisa ser respondida por evidências.

 Os três ficaram em silêncio.

 O jardim continuou sendo cuidado.

 As cartas “consoladoras” permaneceram sobre a mesa.

 E a pequena comunidade descobriu que é possível defender uma obra sem defender previamente todas as suas práticas, assim como é possível questionar uma prática sem desmerecer toda a obra.

Moral:

 Quando cada pessoa fala a partir de sua preocupação, a conversa pode parecer uma disputa. Quando cada uma aprende a separar fatos, perguntas e conclusões, a mesma conversa pode se transformar em busca pela verdade.