04 setembro 2026

No STF, quem deve ser investigado — aquele que acende a luz ou aquilo que a luz revela?


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Hoje mesmo escrevi que o Brasil atravessa um período de grave tensão institucional. As divergências entre os Poderes, as controvérsias envolvendo autoridades e a crescente desconfiança de parcela da sociedade exigem algo elementar: serenidade, transparência, investigação e respeito absoluto à Constituição. O cidadão não pode ser obrigado a escolher entre a autoridade e a verdade. Autoridade alguma substitui a prova.

O próprio ordenamento constitucional estabelece que ninguém será privado de liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal e assegura aos acusados o contraditório e a ampla defesa. Também determina que a Administração Pública observe, entre outros, os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade.

Para o espírita, entretanto, a questão ultrapassa a esfera jurídica. É também uma questão moral. Allan Kardec jamais ensinou submissão cega a autoridades humanas. Ao contrário, a Doutrina Espírita valoriza o livre exame, a liberdade de consciência e o uso da razão. A fé espírita não teme a investigação porque, sendo racional, não precisa esconder-se atrás de dogmas ou de intimidações. A própria orientação doutrinária destaca que a fé verdadeira deve poder enfrentar a razão em qualquer época.

Por isso, quando surgem denúncias envolvendo pessoas poderosas, o comportamento correto não é transformar automaticamente o denunciante em inimigo. É investigar. Se alguém mente, manipula documentos, calunia ou pratica qualquer abuso, que responda por seus atos. Mas isso precisa ser demonstrado por investigação regular, com provas e devido processo. Não se pode substituir a apuração pela suspeita, a prova pela autoridade ou o argumento pelo silêncio.

Há uma pergunta que deveria ecoar na consciência de todos: quem deve ser investigado — aquele que acende a luz ou aquilo que a luz revela?

A resposta espírita não pode ser outra: os fatos devem falar mais alto que as paixões.  Kardec ensinou que o Espiritismo não impõe a fé cega e que o livre exame é indispensável. Isso significa que o espírita não deve transformar ministro, presidente, parlamentar, partido ou instituição em objeto de veneração política. Respeito à autoridade não significa abdicação da consciência.

A Doutrina Espírita também nos recorda a responsabilidade individual. Cada ser responde moralmente pelos próprios atos. Portanto, quanto maior a posição ocupada por alguém na sociedade, maior deveria ser sua responsabilidade perante a própria consciência e perante a coletividade.

O Brasil não precisa de salvadores institucionais. Precisa de instituições submetidas à lei, homens públicos submetidos à responsabilidade e cidadãos livres para questionar sem medo.

Se há denúncias, investiguem-se. Se são falsas, demonstre-se. Se são verdadeiras, responsabilizem-se os envolvidos. Se nada houver, que a própria investigação produza a absolvição.

É assim que uma República madura funciona. E é assim também que uma sociedade moralmente saudável deve proceder: sem ódio, sem idolatria, sem perseguição e sem medo da verdade.

Porque a verdade não precisa de violência para prevalecer.

Precisa apenas que lhe permitam aparecer.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República