22 setembro 2026

Quando a toga perde a confiança, a República entra em alerta - uma reflexão espírita sobre a crise no STF


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há momentos na vida de uma nação em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser omissão. O Brasil atravessa um desses momentos.

O Supremo Tribunal Federal — instituição essencial ao Estado Democrático de Direito — precisa ser preservado. Mas preservar uma instituição não significa blindá-la contra críticas. Significa justamente exigir dela aquilo que a Constituição determina: independência, imparcialidade, fundamentação, transparência e respeito aos limites de sua competência.

O artigo 102 da Constituição é inequívoco ao estabelecer que compete precipuamente ao STF a guarda da Constituição.  E quem guarda a Constituição precisa, antes de tudo, transmitir à sociedade a segurança de que a própria Constituição está sendo respeitada.

Os números recentes deveriam acender uma luz amarela — ou talvez vermelha — em Brasília.

Pesquisa Datafolha divulgada em 18 de setembro de 2026 apontou que 48% dos entrevistados afirmam não confiar no STF, o maior percentual da série histórica iniciada em 2012, e 35% disseram confiar um pouco. Foram ouvidas 2.001 pessoas, em 125 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais.

Outra pesquisa, realizada pela Quaest entre 10 e 13 de setembro, encontrou 56% de brasileiros que declararam não confiar na Corte, contra apenas 9% que afirmaram confiar.

Obviamente não se deve transformar pesquisa de opinião em sentença contra uma instituição. Pesquisa mede percepção; não prova, por si só, que determinada decisão seja correta ou incorreta, nem demonstra que ministros tenham agido de maneira correta ou ilícita. Mas ignorar uma deterioração tão expressiva da confiança pública seria igualmente imprudente.

Como espírita que sou, aqui entra uma reflexão kardeciana. O Codificador ensinou que o Espiritismo não recomenda a fé cega. Da liberdade de consciência decorre o direito ao livre exame, e a fé verdadeira, segundo a tradição espírita, deve poder enfrentar a razão.

Ora, se o cidadão espírita é chamado a raciocinar diante das questões espirituais, com maior razão deve exercer sua consciência diante das instituições humanas. Respeitar autoridade não significa abdicar do discernimento.

Uma sociedade que perde a confiança em seus árbitros vive sob permanente tensão. E a insegurança jurídica não é assunto restrito aos juristas. Ela alcança o cidadão comum, a atividade econômica, os investimentos, as relações trabalhistas, a produção cultural, a liberdade de expressão e a própria estabilidade das relações sociais.

Por isso, o alerta não deve ser contra ou a favor do Supremo, mas em defesa do Estado democrático de direito.

É necessário recuperar a confiança por meio de procedimentos institucionais capazes de demonstrar à sociedade que nenhum ministro está acima da Constituição, que nenhuma decisão deve ser confundida com vontade pessoal e que nenhuma crítica legítima deve ser tratada como ameaça.

O Brasil não precisa de um Supremo enfraquecido. Precisa de um Supremo forte porque confiável; respeitado porque respeitável; poderoso porque constitucionalmente limitado. Até porque a última trincheira da cidadania não pode transformar-se em trincheira de brasileiros contra brasileiros.

Quando a confiança desaparece, a República adoece institucionalmente. E, diante desse cenário, a responsabilidade moral de todos — cidadãos, parlamentares, magistrados, jornalistas, juristas e formadores de opinião — é contribuir para a reconstrução do equilíbrio, da serenidade e da confiança.

Exprobrar uma instituição não é destruí-la. Às vezes, é exatamente o modo mais responsável de tentar salvá-la.

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Arts. 101-103.

DATAFOLHA. Desconfiança no STF cresce, vai a 48% e atinge recorde. Folha de S.Paulo, 18 set. 2026.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

QUAEST. Pesquisa de confiança nas instituições — setembro de 2026. Pesquisa divulgada em 14 set. 2026.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2005.