21 setembro 2026

Quando Aristóteles vira enfeite de toga


Jorge Hessen

Brasília -DF

Se a autoridade invoca Aristóteles para legitimar ironias, silogismos e decisões jurídicas, é preciso retornar ao próprio Aristóteles — e perguntar se a retórica está servindo à verdade ou apenas ao “triunfo” no estéril debate.

Há momentos em que uma frase aparentemente espirituosa revela um problema muito maior. Durante sessão do Supremo Tribunal Federal, o ministro Flávio Dino afirmou, ao responder a um motejo do presidente Edson Fachin: “A ironia serve para descontrair o ambiente. Vossa Excelência sabe disso. Aristóteles.”

Como professor de História, não consigo ouvir uma autoridade invocar Aristóteles e simplesmente fingir que não ouvi. É preciso conferir.

E a primeira constatação é elementar: na Ética a Nicômaco, Livro IV, capítulo 7, Aristóteles não apresenta a ironia simplesmente como instrumento para “descontrair o ambiente”. Ele a examina no contexto da relação entre verdade, falsidade, jactância e dissimulação. O homem virtuoso situa-se entre aquele que exagera suas qualidades e aquele que as diminui ou dissimula. A questão central é a veracidade.

Isso não significa que toda ironia seja ilegítima. Significa apenas que atribuir a Aristóteles uma formulação que ele não apresentou exige cautela intelectual.

Dino também invocou moderação, ponderação, corrupção dos regimes e, em outro momento, o silogismo. Nesses pontos, há elementos relacionados ao pensamento aristotélico. O problema começa quando conceitos filosóficos deixam de ser instrumentos de investigação e passam a funcionar como recursos de autoridade retórica.

Silogismo não é palavra mágica destinada a encerrar uma divergência. É uma estrutura lógica de dedução. Suas premissas precisam ser examinadas, e a conclusão precisa decorrer delas. Invocar “Aristóteles” não substitui a demonstração. Ao contrário: aumenta a responsabilidade de demonstrar.

É aqui que o debate deixa de ser apenas filosófico e passa a ser institucional. Um tribunal constitucional não existe para produzir vencedores de debates. Existe para decidir segundo a Constituição, as leis, as provas, a competência e o devido processo.

A autoridade do juiz não nasce da quantidade de filósofos citados como ornamento retórico, nem da força da ironia, tampouco da capacidade de dominar verbalmente um colega.

E reflito aqui como espírita, pois há uma lição kardeciana ainda mais severa. Allan Kardec ensina que o verdadeiro espírita deve reconhecer-se pela sua transformação moral e pelo esforço que emprega para domar suas más inclinações.

A palavra também é um instrumento moral. No Evangelho segundo o Espiritismo, Jesus é apresentado como referência de caridade, benevolência e indulgência nas relações humanas. Não basta possuir inteligência; é necessário empregá-la com responsabilidade.

Por isso, não me interessa saber se a fala de Flávio Dino foi espirituosa, brilhante ou politicamente conveniente. Interessa saber se suas afirmações foram apropriadas, logicamente sustentadas e compatíveis com a dignidade da função judicial.

Num ambiente institucional já submetido a intenso escrutínio público, inclusive diante de denúncias e controvérsias que precisam ser apuradas pelas instituições competentes, o Supremo deveria compreender que cada palavra de seus ministros tem peso excessivo.

Não se combate a desconfiança pública com erudição florida e ornamental. Combate-se com transparência, fundamentação, coerência e respeito aos limites institucionais.

Até porque, senhor Flávio, Aristóteles ensinava que a virtude está no meio-termo. Mas o meio-termo não é mediocridade: é a medida racional da conduta.

E talvez esta seja a pergunta que realmente importa:

Quando Aristóteles entra numa sessão judicial, ele deve entrar como argumento ou como autoridade perfumosa e decorativa?

Porque citar o filósofo é fácil.

Difícil é submeter a própria palavra à verdade que o filósofo ensinou a procurar.

 

Referências bibliográficas

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro IV, cap. 7, 1127a-1127b.

ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martins Fontes.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB.