A verdadeira reforma moral começa no lar, onde nossas imperfeições são confrontadas diariamente, e não no exibicionismo assistencialista.
Jorge Hessen
Brasília -DF
O Espiritismo nos convida a compreender que o primeiro campo de exercício da caridade é o ambiente familiar. Entretanto, parcela do movimento espírita (os assistencialistas) parece ter invertido essa prioridade, promovendo um verdadeiro festival de realizações materiais — distribuição de alimentos, roupas, dinheiro e inúmeras campanhas assistenciais — enquanto, não raro, negligencia os conflitos, as necessidades afetivas e as responsabilidades morais dentro do próprio lar.
Em A Revista Espírita de agosto de 1865, Allan Kardec publicou a mensagem intitulada “A chave do céu”, que apresenta uma escala de prioridades no exercício da caridade: A orientação não desqualifica a assistência aos pobres cônjuges e filhos; pais ou aqueles que nos criaram; irmãos consanguíneos; amigos; e, finalmente, os necessitados em geral, começando pelos mais miseráveis.: adverte-nos sobre a inversão de prioridades que pode ocorrer quando pretendemos abraçar a humanidade sem cuidar daqueles que a Providência colocou sob nossa responsabilidade imediata.
Por que essa advertência continua tão atual? Porque é relativamente fácil distribuir cestas básicas, organizar campanhas e receber aplausos pelo trabalho social. Difícil, verdadeiramente difícil, é conviver com o familiar temperamental, tolerar o cônjuge imperfeito, acolher o filho que pensa diferentemente de nós, respeitar os pais envelhecidos e perdoar aquele parente que nos contraria. Fora de casa, podemos escolher as circunstâncias e até os beneficiários de nossas ações. Dentro dela, somos confrontados com pessoas reais, cujas limitações expõem as nossas.
Há, portanto, um risco que merece reflexão: a atividade assistencial pode, em determinadas circunstâncias, converter-se em mecanismo de fuga psicológica. Sob o peso da culpa, algumas pessoas procuram compensar conflitos íntimos acumulando tarefas externas, como se o volume de realizações materiais pudesse substituir a transformação moral. Quanto maior a necessidade de se sentir benfeitor, maior pode ser a tentação de querer salvar o mundo inteiro, sem enfrentar a própria consciência. Não se trata de presumir as motivações de todo trabalhador voluntário, mas de reconhecer que boas obras exteriores não dispensam o indispensável exame de nós mesmos.
Jesus não nos ensinou a negligenciar os necessitados. Ensinou-nos a amar. E o amor não se mede exclusivamente pela quantidade de objetos distribuídos, mas também pela capacidade de escutar, compreender, respeitar, perdoar e conviver. A assistência material é indispensável quando alguém tem fome, frio ou falta de recursos; todavia, ela não substitui a caridade moral, que exige renúncia ao orgulho, à intolerância e ao egoísmo.
Em O Livro dos Espíritos, Kardec esclarece, na questão 886, que a caridade, conforme Jesus a entendia, consiste em benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas (KARDEC, 2004). Essa definição não deixa espaço para uma caridade meramente cenográfica, exibida em campanhas públicas enquanto cultivamos ressentimentos e indiferença entre quatro paredes.
Nossa família constitui, assim, uma oportunidade concreta de crescimento espiritual. Não escolhemos necessariamente as imperfeições dos que convivem conosco, mas podemos escolher como agir com elas. Amar não significa aprovar abusos, tolerar violência ou abdicar de limites saudáveis. Significa reconhecer a dignidade do outro, sem exigir que ele alcance a perfeição para merecer nosso respeito.
Talvez a mais profunda declaração de caridade seja olhar nos olhos de um familiar e dizer, sinceramente: “Eu aceito você como você é. Suas limitações não anulam sua dignidade, assim como as minhas não me tornam indigno de amor. Nossa convivência é uma oportunidade recíproca de crescimento.
Desistir do outro não significa necessariamente desistir de si, mas fugir sistematicamente dos desafios afetivos pode significar desperdiçar oportunidades preciosas de autoconhecimento e renovação moral.
O Espiritismo não deve ser reduzido a uma agenda de atividades assistencialistas, por mais meritórias que sejam. Sua finalidade é transformar o ser humano. E essa transformação começa quando deixamos de exigir dos outros a perfeição que nós mesmos ainda não conquistamos.
Antes de pretender salvar o mundo, cuidemos de não perder a oportunidade de amar aqueles que compartilham conosco o mesmo teto. A caridade que Jesus exemplificou não se limita ao que nossas mãos entregam: revela-se, sobretudo, na maneira como nosso coração acolhe.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2004.
KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Agosto de 1865. Texto “A chave do céu”. Paris: Bureau de la Revue Spiritée, 1865.
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2008.
