19 outubro 2026

Espiritismo x comunismo segundo as fontes kardecianas




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Ideologia não pode reescrever a história doutrinária

Como professor de História, devo expor que a tentativa de atribuir a Allan Kardec uma adesão ao comunismo esbarra em um obstáculo incontornável: os próprios textos do Codificador. Não se trata de defender direita ou esquerda, mas de exigir honestidade intelectual. O Espiritismo não deve ser instrumentalizado por partidos nem convertido em apêndice de qualquer ideologia.

Na Revista Espírita de outubro de 1861, Kardec publica a “Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses”. A mensagem rejeita energicamente o que denomina “comunismo antissocial” e proclama a liberdade individual como indispensável ao desenvolvimento humano (KARDEC, 1861). É verdade que essas palavras são atribuídas a Erasto, não diretamente ao Codificador. Mas a questão não termina aí.

Em fevereiro de 1863, na própria Revista Espírita, Kardec responde às acusações de que o Espiritismo pregaria o comunismo e a subversão da ordem social. Classifica essa imputação como caluniosa e pergunta: “Quem poderá crer que pregamos o comunismo?” Em seguida, remete o leitor às explicações apresentadas durante sua viagem de 1862 (KARDEC, 1863).

E o que encontramos nessa obra? Em Viagem Espírita em 1862, Kardec examina propostas de vida comunitária e de distribuição igualitária dos bens. Observa que a riqueza integralmente colocada em comum poderia produzir “uma miséria geral, em vez de uma miséria parcial”, além de destacar as diferenças de aptidões e capacidades humanas (KARDEC, 1862). Não é uma defesa da indiferença diante da pobreza, mas uma crítica à pretensão de resolver problemas morais e sociais mediante a uniformização compulsória dos bens.

O argumento ganha consistência em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVI, item 8, dedicado à desigualdade das riquezas. Kardec analisa a diversidade de inteligência, atividade, laboriosidade e capacidade de administrar recursos. Não apresenta a riqueza como certificado de superioridade moral: ao contrário, insiste na responsabilidade de quem a possui e no dever de empregá-la em benefício do próximo (KARDEC, 1864).

Aqui está a distinção essencial: combater a miséria não significa impor igualdade absoluta de resultados; reconhecer a propriedade não significa legitimar egoísmo, exploração ou indiferença social. A ética espírita exige justiça, solidariedade e responsabilidade, sem transformar a coletividade em instrumento de anulação da liberdade individual.

Léon Denis, em Socialismo e Espiritismo, também examina criticamente o materialismo e a luta de classes, sem reduzir toda preocupação social a uma única fórmula política (DENIS, s.d.). E Emmanuel, em sua reflexão moral, insiste no aperfeiçoamento do indivíduo como caminho para a renovação coletiva. A transformação social duradoura não dispensa a transformação das consciências.

Isso não autoriza, entretanto, a conclusão simplista de que todo espírita de esquerda seja incompatível com Kardec, assim como não torna todo espírita de direita fiel à Doutrina. Pessoas de diferentes orientações políticas podem compartilhar valores de justiça e fraternidade. O problema começa quando se selecionam frases, se omitem passagens e se atribui ao Codificador aquilo que ele expressamente contestou.

O Espiritismo não é propriedade de facções. Tampouco deve servir de escudo para o capitalismo sem responsabilidade social ou para projetos coletivistas (comunismo) que subordinem a liberdade humana a uma engenharia ideológica. A crítica precisa valer para todos.

Kardec não nos legou uma legenda partidária. Legou-nos uma doutrina que valoriza a razão, a liberdade, a responsabilidade moral e a fraternidade. Antes de afirmar que o Codificador tinha “um pé no comunismo”, convém ler suas obras — de preferência, integralmente.

Quando a ideologia vem primeiro, as fontes tornam-se inconvenientes. Para o estudioso espírita, porém, a fidelidade documental deve vir antes da conveniência política.

 

Referências  Bibliográficas:

DENIS, Léon. Socialismo e Espiritismo. Cap. IV. [S.l.: s.n.], [s.d.].

KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Outubro de 1861. Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses. Paris, 1861.

KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Fevereiro de 1863. Sermões contra o Espiritismo. Paris, 1863.

KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862. Paris, 1862.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XVI, item 8: Desigualdade das riquezas. Paris, 1864.