Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Polarização, intolerância
e paixões partidárias desafiam a convivência familiar e religiosa. Para o
Espiritismo, o antídoto não é a submissão ideológica, mas a vigilância moral, o
livre exame e o amor ao próximo.
A sociedade brasileira
atravessa um período de acentuada polarização política, cujos efeitos invadem
lares, amizades e instituições religiosas. Familiares rompem relações, amigos
se afastam e confrades transformam divergências partidárias em incompatibilidades
morais. Em muitos casos, a defesa de uma ideia tornou-se mais importante do que
a preservação dos vínculos humanos.
Sob a perspectiva
espírita, esse fenômeno permite refletir sobre as obsessões coletivas. Em O
Livro dos Médiuns, Allan Kardec examina a influência dos Espíritos sobre os
encarnados e ressalta a importância do discernimento (KARDEC, 2003). Podemos
investigar se ambientes de hostilidade, ressentimento e intolerância favorecem
influências espirituais perturbadoras.
Sei que nem toda
polarização é obsessão, nem toda divergência política decorre de influência
espiritual inferior. As disputas ideológicas também possuem causas
históricas, econômicas, culturais, psicológicas e comunicacionais. Não seria
rigoroso de minha parte diagnosticar uma
coletividade como obsidiada por suas preferências políticas, tampouco atribuir
aos adversários a condição de instrumentos do mal.
O que podemos reconhecer
concretamente é que orgulho, fanatismo, desejo de dominação e incapacidade de
ouvir o contraditório favorecem comportamentos obsessivos destrutivos. Na
interpretação espírita, essas disposições tornam o indivíduo vulnerável a
influências espirituais negativas.
As redes sociais agravam
o problema ao estimular notícias falsas, hostilidade verbal e grupos fechados
em suas próprias convicções. O adversário deixa de ser um cidadão com opiniões
divergentes e passa a ser tratado como inimigo. Progressistas, conservadores,
liberais e patriotas podem incorrer no mesmo equívoco: pretender monopolizar
a virtude, demonizar o oponente e dispensar o próprio grupo do exame crítico.
O Espiritismo é
apartidário. Não constitui programa eleitoral, não
canoniza governantes nem concede superioridade moral a partidos. Seus
princípios podem orientar a consciência política, mas não autorizam a
apropriação da Doutrina por projetos de poder. Temos liberdade para escolher
representantes e responsabilidade moral de examinar criticamente nossas
escolhas.
Em O Evangelho segundo
o Espiritismo, Kardec define a caridade pela benevolência, pela indulgência
e pelo perdão (KARDEC, 2008). Isso não significa tolerar injustiças ou
silenciar diante de abusos. Significa combater erros sem transformar quem erra
em objeto de ódio. Fraternidade não é conivência, assim como firmeza de
princípios não exige hostilidade pessoal.
A questão 886 de O
Livro dos Espíritos associa a caridade ao amor ao próximo e à benevolência
para com todos (KARDEC, 2007). Esse ensinamento vale especialmente quando
discordamos. É fácil demonstrar afeto por quem compartilha nossas opiniões; o
verdadeiro teste moral ocorre diante de quem pensa diferentemente.
Na perspectiva
reencarnacionista, as relações humanas oferecem oportunidades de aprendizado. A
inimizade cultivada, o orgulho alimentado e a reconciliação recusada podem
representar experiências de crescimento desperdiçadas.
Governos passam, partidos
mudam e ideologias se transformam. Podemos denunciar irregularidades, contestar
políticas públicas e defender convicções sem destruir o respeito mútuo.
O antídoto para a
intolerância não é a uniformidade ideológica, mas a educação da consciência.
Antes de suspeitar da obsessão alheia, examinemos nosso próprio orgulho,
ressentimento e agressividade.
Nenhuma bandeira
partidária deve ocupar o lugar do Evangelho em nossa consciência.
A verdadeira fraternidade não exige que pensemos da mesma forma, mas que
reconheçamos no outro um Espírito em evolução, tão necessitado de aprendizado
quanto nós.
A vitória eleitoral é
passageira; a oportunidade de aprender a amar é muito mais profunda.
Saibamos defender ideias sem odiar pessoas, preservar a liberdade sem alimentar
o fanatismo e construir a união na pluralidade.
Referências
bibliográficas
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de
Janeiro: FEB, 2008.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2007.
KARDEC, Allan. O Livro
dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2003.
