25 outubro 2026

A confusa polarização política que profana a consciência espírita




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Polarização, intolerância e paixões partidárias desafiam a convivência familiar e religiosa. Para o Espiritismo, o antídoto não é a submissão ideológica, mas a vigilância moral, o livre exame e o amor ao próximo.

A sociedade brasileira atravessa um período de acentuada polarização política, cujos efeitos invadem lares, amizades e instituições religiosas. Familiares rompem relações, amigos se afastam e confrades transformam divergências partidárias em incompatibilidades morais. Em muitos casos, a defesa de uma ideia tornou-se mais importante do que a preservação dos vínculos humanos.

Sob a perspectiva espírita, esse fenômeno permite refletir sobre as obsessões coletivas. Em O Livro dos Médiuns, Allan Kardec examina a influência dos Espíritos sobre os encarnados e ressalta a importância do discernimento (KARDEC, 2003). Podemos investigar se ambientes de hostilidade, ressentimento e intolerância favorecem influências espirituais perturbadoras.

Sei que nem toda polarização é obsessão, nem toda divergência política decorre de influência espiritual inferior. As disputas ideológicas também possuem causas históricas, econômicas, culturais, psicológicas e comunicacionais. Não seria rigoroso de  minha parte diagnosticar uma coletividade como obsidiada por suas preferências políticas, tampouco atribuir aos adversários a condição de instrumentos do mal.

O que podemos reconhecer concretamente é que orgulho, fanatismo, desejo de dominação e incapacidade de ouvir o contraditório favorecem comportamentos obsessivos destrutivos. Na interpretação espírita, essas disposições tornam o indivíduo vulnerável a influências espirituais negativas.

As redes sociais agravam o problema ao estimular notícias falsas, hostilidade verbal e grupos fechados em suas próprias convicções. O adversário deixa de ser um cidadão com opiniões divergentes e passa a ser tratado como inimigo. Progressistas, conservadores, liberais e patriotas podem incorrer no mesmo equívoco: pretender monopolizar a virtude, demonizar o oponente e dispensar o próprio grupo do exame crítico.

O Espiritismo é apartidário. Não constitui programa eleitoral, não canoniza governantes nem concede superioridade moral a partidos. Seus princípios podem orientar a consciência política, mas não autorizam a apropriação da Doutrina por projetos de poder. Temos liberdade para escolher representantes e responsabilidade moral de examinar criticamente nossas escolhas.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec define a caridade pela benevolência, pela indulgência e pelo perdão (KARDEC, 2008). Isso não significa tolerar injustiças ou silenciar diante de abusos. Significa combater erros sem transformar quem erra em objeto de ódio. Fraternidade não é conivência, assim como firmeza de princípios não exige hostilidade pessoal.

A questão 886 de O Livro dos Espíritos associa a caridade ao amor ao próximo e à benevolência para com todos (KARDEC, 2007). Esse ensinamento vale especialmente quando discordamos. É fácil demonstrar afeto por quem compartilha nossas opiniões; o verdadeiro teste moral ocorre diante de quem pensa diferentemente.

Na perspectiva reencarnacionista, as relações humanas oferecem oportunidades de aprendizado. A inimizade cultivada, o orgulho alimentado e a reconciliação recusada podem representar experiências de crescimento desperdiçadas.

Governos passam, partidos mudam e ideologias se transformam. Podemos denunciar irregularidades, contestar políticas públicas e defender convicções sem destruir o respeito mútuo.

O antídoto para a intolerância não é a uniformidade ideológica, mas a educação da consciência. Antes de suspeitar da obsessão alheia, examinemos nosso próprio orgulho, ressentimento e agressividade.

Nenhuma bandeira partidária deve ocupar o lugar do Evangelho em nossa consciência. A verdadeira fraternidade não exige que pensemos da mesma forma, mas que reconheçamos no outro um Espírito em evolução, tão necessitado de aprendizado quanto nós.

A vitória eleitoral é passageira; a oportunidade de aprender a amar é muito mais profunda. Saibamos defender ideias sem odiar pessoas, preservar a liberdade sem alimentar o fanatismo e construir a união na pluralidade.

 

Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2003.