20 outubro 2026

A extrema “esquerda” contra Allan Kardec: vandalismo e barbárie ideológica em Lyon




A destruição do memorial do codificador do Espiritismo, em Lyon, expõe a contradição entre o discurso de transformação social e o desrespeito à liberdade de consciência.

Jorge Hessen

 Brasília-DF

O que aconteceu em Lyon, na França, em 17 de outubro de 2026, merece veemente repúdio. Em meio a manifestações que degeneraram em violência, saques e incêndios, o memorial dedicado a Allan Kardec foi danificado. A estela que homenageava o educador francês, nascido em Lyon em 1804, terminou reduzida a fragmentos, atingida pelas chamas que marcaram a jornada de vandalismo. Não se trata de mera depredação: é também uma agressão à memória cultural e filosófica.

Os tumultos incluíram o incêndio de um prédio municipal que abrigava o posto de turismo, além de ataques a estabelecimentos comerciais e ao patrimônio urbano. A imprensa francesa descreveu a atuação de grupos violentos, alguns identificados com a extrema esquerda e com os chamados black blocs.

Isso não nos obriga a ignorar o componente ideológico de grupos que transformam protestos sociais em pretexto para a destruição. Quando o radicalismo materialista reduz a sociedade a uma arena de antagonismos e trata instituições, símbolos e patrimônios como alvos de combate, a reivindicação política degenera em intolerância. A violência passa a ser apresentada como instrumento de emancipação, embora produza justamente o contrário: medo, prejuízo coletivo e desprezo pelo pluralismo.

Por que destruir uma homenagem a Allan Kardec? O codificador do Espiritismo não foi um dirigente partidário, nem um propagandista de revoluções violentas. Foi um educador e pensador que sistematizou uma doutrina assentada na imortalidade da alma, na responsabilidade moral, no livre-arbítrio e no aperfeiçoamento intelectual e moral do ser humano.

Na estela de Lyon estava inscrita uma máxima que sintetiza o ideal espírita: “Fora da caridade não há salvação.” Eis a ironia histórica: nas proximidades de um monumento que evocava a fraternidade, a intolerância produziu ruínas. A caridade kardeciana não é sentimentalismo, tampouco submissão política. É princípio ético que exige respeito à dignidade humana, inclusive àquele que pensa de maneira diferente.

Convém, entretanto, não incorrer no mesmo erro que denunciamos. Nem todo “vermelho” é extremista, assim como nem todo manifestante é vândalo. A análise deve alcançar os grupos e as ideias que legitimam ou praticam a violência, sem converter divergência política em condenação coletiva.

O Espiritismo não deve servir de instrumento de partidos, sejam de direita ou de esquerda. Isso não significa neutralidade diante da barbárie. A defesa da liberdade de consciência, do patrimônio histórico e da convivência democrática é um dever moral.

A extrema esquerda que pretende monopolizar a virtude social precisa responder a uma questão elementar: que espécie de justiça se constrói destruindo aquilo que pertence à memória de todos? Não há emancipação na depredação, progresso no obscurantismo ou fraternidade na intolerância.

Allan Kardec merece ser respeitado, estudado, debatido e, se necessário, criticado. O que não merece é ter sua memória esmagada pela violência vermelha de quem confunde divergência com inimigo e destruição com transformação social.

A caridade não incendeia monumentos. A intolerância avermelhada, sim.

 

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