24 outubro 2026

A república não se ajoelha diante da toga: até quando o Brasil suportará a erosão da confiança?




Às vésperas da votação presidencial, o país precisa decidir se aceitará passivamente a deterioração do debate público ou se exigirá, pelas vias democráticas, instituições imparciais, transparentes e submetidas à Constituição.

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há momentos em que a inquietação de uma sociedade deixa de ser mero desconforto político e se transforma em advertência histórica. Quando cidadãos passam a desconfiar das instituições que deveriam protegê-los, quando decisões judiciais provocam controvérsias sobre os limites do poder e quando a manifestação de opiniões é acompanhada pelo receio de represálias, algo essencial à democracia começa a se desgastar: a confiança pública.

É nesse ambiente de tensão que o Brasil chega a mais uma decisão eleitoral. Amanhã, diante das urnas, os cidadãos terão uma responsabilidade que ultrapassa a escolha de um candidato. Está em jogo a qualidade da vida democrática, o respeito às liberdades fundamentais e a capacidade de exigir que todos os Poderes cumpram suas atribuições sem privilégios nem pretensões de supremacia.

O Supremo Tribunal Federal deveria constituir uma das últimas trincheiras de proteção dos direitos fundamentais. Sua autoridade, porém, não pode depender exclusivamente da força de suas decisões, muito menos da reverência automática à toga. A legitimidade da Justiça não decorre da infalibilidade dos magistrados, mas da fidelidade à Constituição, da imparcialidade, da fundamentação jurídica e do respeito ao devido processo legal.

Quando decisões de ministros suscitam questionamentos consistentes sobre imparcialidade, proporcionalidade, competência jurisdicional ou limites institucionais, a resposta não pode ser o silêncio constrangido da sociedade. É necessário esclarecer os fatos, examinar os fundamentos, assegurar o contraditório e apurar eventuais irregularidades pelos mecanismos legais. Questionar o exercício do poder não significa atacar a Justiça; significa exigir que ela honre sua própria finalidade.

A militância político-ideológica, quando comprovadamente incompatível com a imparcialidade exigida da magistratura, constitui problema grave. Juízes não recebem mandato para impor preferências pessoais à sociedade, mas para aplicar o Direito. Tampouco podem transformar a autoridade jurisdicional em instrumento de disputa política. A mesma exigência vale para todos os magistrados, independentemente de suas convicções, de seus interlocutores ou dos interesses eventualmente favorecidos por suas decisões.

Não seria responsável, entretanto, confundir controvérsias, suspeitas e críticas legítimas com provas definitivas de corrupção. Acusações dessa gravidade exigem apuração rigorosa e evidências. O combate aos abusos perde credibilidade quando abandona o rigor que reivindica para si. Não queremos uma Justiça submissa a partidos; queremos uma Justiça que não se submeta a partidos, governos, grupos econômicos ou interesses particulares.

O problema torna-se ainda mais delicado quando a população percebe que os mecanismos de fiscalização parecem insuficientes ou incapazes de oferecer respostas convincentes. Uma República não pode depender da virtude presumida de seus ocupantes. Precisa de controles efetivos, transparência, prestação de contas e responsabilização. Nenhum Poder pode ser juiz exclusivo dos próprios excessos. A independência judicial é indispensável, mas não equivale à imunidade institucional contra críticas, escrutínio ou responsabilização legal.

O copo está cheio. Qual será a gota d’água?

A pergunta não deve convocar à violência, à desobediência irresponsável ou à destruição das instituições. Deve despertar a consciência cívica antes que a frustração se converta em ruptura social. A gota d’água não pode ser pretexto para o caos; precisa ser o ponto de inflexão que impulsione reformas, fiscalização legítima e recuperação da confiança pública.

É precisamente aqui que a perspectiva espírita nos impõe coerência. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, associa o verdadeiro progresso ao aperfeiçoamento moral da humanidade. Essa orientação não nos autoriza a santificar autoridades, idolatrar candidatos ou demonizar adversários. Ao contrário, exige discernimento, exame racional e compromisso com a verdade, inclusive quando ela contraria nossas preferências.

O Espiritismo não deve servir de abrigo para o fanatismo partidário, nem de justificativa para a omissão diante de injustiças. A fraternidade não significa conivência com erros. A tolerância não exige submissão à arbitrariedade. A caridade tampouco nos obriga a abdicar da consciência crítica. Podemos respeitar as pessoas e, simultaneamente, contestar com firmeza suas decisões e condutas públicas.

Amanhã, o voto será um instrumento de escolha política, não uma procuração para conceder poderes ilimitados a quem quer que seja. Nenhum candidato merece cheque em branco. Quem assumir a Presidência deverá respeitar a Constituição, preservar as liberdades civis e reconhecer os limites de suas próprias atribuições. O mesmo compromisso deve ser exigido do Legislativo, do Judiciário e de todas as autoridades públicas.

A mudança de que o Brasil necessita não consiste em substituir uma hegemonia por outra, nem em trocar a submissão a uma corrente ideológica pela submissão à corrente oposta. Consiste em restaurar o equilíbrio republicano, fortalecer os mecanismos de controle, garantir a liberdade de expressão, assegurar a igualdade perante a lei e impedir que o poder público se converta em patrimônio de grupos privilegiados.

Não cabe ao cidadão entregar sua consciência a salvadores da pátria. Cabe-lhe votar com discernimento, acompanhar os eleitos, cobrar transparência, apoiar investigações legítimas e defender reformas por meios constitucionais. A democracia não termina na urna: começa novamente no dia seguinte, quando a população precisa fiscalizar aqueles a quem confiou temporariamente o poder.

O Brasil não precisa de cidadãos aterrorizados, nem de multidões inflamadas pelo ódio. Precisa de cidadãos livres, críticos e moralmente responsáveis. A indignação pode ser legítima; a violência, não. A crítica deve ser firme; a mentira, inadmissível. A autoridade merece respeito institucional, mas não adoração.

Que a gota d’água seja, enfim, o despertar da consciência nacional. Não para incendiar a República, mas para impedir que ela se desgaste pela tolerância aos abusos, pela omissão dos responsáveis e pela transformação da divergência política em guerra permanente.

A toga não está acima da Constituição. O voto não está acima da lei. E nenhum poder está acima do cidadão quando este, pacificamente e dentro da ordem democrática, exige que a República cumpra suas promessas de liberdade, justiça e igualdade.

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira 2000

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2000