23 outubro 2026

Entre os dogmas históricos e a razão espírita




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Em abril de 1996, na Catedral de Saint Patrick, na Quinta Avenida em Nova York, realizou-se um seminário com o objetivo de debater a Ressurreição do Cristo. A repercussão do evento foi tamanha que veículos de imprensa de alcance global, como as revistas Newsweek e Time, dedicaram extensas reportagens à rediscussão do fenômeno ocorrido há dois milênios.

Embora existam mais de quatro mil papiros que documentam os fatos da época apostólica e a própria existência histórica de Jesus, parcelas da academia e da teologia racionalista buscam reduzir tais acontecimentos a meros distúrbios psíquicos. Para o teólogo Gerd Lüdemann, por exemplo, as aparições do Cristo pós-crucificação não passariam de visões subjetivas de Pedro, fruto do abatimento emocional e do remorso por tê-Lo negado. Na mesma linha, o jornalista Kenneth Woodward argumentou que a aparição de Jesus a quinhentos seguidores tratou-se de um "arrebatamento coletivo", no qual a psicologia moderna enxerga apenas experiências psíquicas indutoras de zelo missionário.

Essa resistência em aceitar os fatos em sua dimensão transcendente decorre do desconhecimento das leis naturais que regem os fenômenos mediúnicos de materialização, ectoplasmia e levitação. Conforme assinala Kardec (2013, p. 87), a mediunidade não constitui uma derrogação das leis divinas, mas sim a manifestação de forças naturais ainda incompreendidas pela ciência materialista:

O Espiritismo vem provar que os fatos qualificados de sobrenaturais estão submetidos a leis; que eles não saem, pois, da ordem dos fatos naturais e que só há de sobrenatural a ignorância em que se estava das suas causas. (KARDEC, 2013, p. 87).

Lamentavelmente, a insipiência da teologia tradicional no tocante aos fenômenos espirituais é resultado direto das decisões político-dogmáticas ocorridas ao longo da história da Igreja. O marco inicial dessa separação deu-se no Concílio de Niceia, em 325 d.C., quando o imperador Constantino combateu as teses de Ário de Alexandria — bispo que questionava a divindade absoluta de Jesus —, impondo o dogma da Santíssima Trindade.

Nesse contexto de transição, dominantes da Patrística, como Basílio de Cesareia e Gregório de Nazianzo, impuseram a veneração aos santos e a paulatina interdição das práticas mediúnicas — as quais constituíam o elemento dinâmico e consolador das comunidades cristãs primitivas, como a Igreja de Antioquia. O afastamento das propostas originais do Evangelho aprofundou-se em 381 d.C., quando o imperador Teodósio I oficializou o cristianismo como religião do Estado, e atingiu seu ápice em 553 d.C., durante o II Concílio de Constantinopla, no qual os estudos e premissas sobre a preexistência da alma e a reencarnação foram banidos dos dogmas oficiais.

Ao abordar a trajetória do Cristianismo e as interpolações promovidas pelos interesses temporais, Emmanuel analisa o obscurecimento das verdades cristãs: O Cristianismo, ao se tornar a religião oficial do Estado romano, trocou a simplicidade da fé e o amor fraternal pelas pompas do poder temporal e pelos dogmas sufocantes, afastando os homens da essência das lições do Mestre. (XAVIER, 2016, p. 142).

Nesse longo interregno de mil e oitocentos anos, inúmeros pensadores e reformadores tiveram de ofertar a própria vida em defesa da liberdade de consciência e do pensamento livre, abrindo caminho para o advento da Renascença e das luzes do Iluminismo.

Superando as ambiguidades narrativas dos Evangelhos — como as divergências observadas entre Mateus, Lucas e Marcos quanto às primeiras aparições de Jesus —, o Espiritismo oferece uma chave de leitura racional e contemporânea para os textos sagrados. Não se faz necessário apelar ao milagre ou à quebra das leis da física para compreender a sobrevivência do Mestre após a crucificação; compreende-se, sim, a manifestação de Seu corpo espiritual ou perispírito.

Ao analisar o papel da Doutrina Espírita na transformação do pensamento filosófico e religioso, Léon Denis (2019, p. 45) destaca a reconciliação entre a razão e a fé:

O Espiritismo não traz uma religião nova; traz a confirmação e a explicação lógica dos princípios ensinados por Jesus, restituindo-lhes o sentido moral e libertando-os das teias do dogma e da superstição. (DENIS, 2019, p. 45).

Sob essa perspectiva, o Cristo emerge de forma menos mitológica e mais humana, libertado das amarras dos editos inquisitoriais, dos atos sacramentais e das controvérsias dogmáticas. A Doutrina Espírita demonstra que o ser humano é detentor de potencialidades latentes em sua própria natureza e que a mediunidade é uma faculdade orgânica e moral, pilar de nossa comunicação com o plano invisível e marco de nossa destinação transcendental.

 

 

Referências

  • DENIS, Léon. Depois da Morte: exposição da doutrina dos espíritos. 26. ed. Brasília: FEB, 2019.
  • KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. 53. ed. Brasília: FEB, 2013.
  • XAVIER, Francisco Cândido. A Caminho da Luz: história da civilização à luz do espiritismo. Pelo Espírito Emmanuel. 38. ed. Brasília: FEB, 2016.