Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Em abril de 1996, na
Catedral de Saint Patrick, na Quinta Avenida em Nova York, realizou-se um
seminário com o objetivo de debater a Ressurreição do Cristo. A repercussão do
evento foi tamanha que veículos de imprensa de alcance global, como as revistas
Newsweek e Time, dedicaram extensas reportagens à rediscussão do
fenômeno ocorrido há dois milênios.
Embora existam mais de
quatro mil papiros que documentam os fatos da época apostólica e a própria
existência histórica de Jesus, parcelas da academia e da teologia racionalista
buscam reduzir tais acontecimentos a meros distúrbios psíquicos. Para o teólogo
Gerd Lüdemann, por exemplo, as aparições do Cristo pós-crucificação não
passariam de visões subjetivas de Pedro, fruto do abatimento emocional e do
remorso por tê-Lo negado. Na mesma linha, o jornalista Kenneth Woodward
argumentou que a aparição de Jesus a quinhentos seguidores tratou-se de um
"arrebatamento coletivo", no qual a psicologia moderna enxerga apenas
experiências psíquicas indutoras de zelo missionário.
Essa resistência em
aceitar os fatos em sua dimensão transcendente decorre do desconhecimento das
leis naturais que regem os fenômenos mediúnicos de materialização, ectoplasmia
e levitação. Conforme assinala Kardec (2013, p. 87), a mediunidade não constitui
uma derrogação das leis divinas, mas sim a manifestação de forças naturais
ainda incompreendidas pela ciência materialista:
O Espiritismo vem provar
que os fatos qualificados de sobrenaturais estão submetidos a leis; que eles
não saem, pois, da ordem dos fatos naturais e que só há de sobrenatural a
ignorância em que se estava das suas causas. (KARDEC, 2013, p. 87).
Lamentavelmente, a
insipiência da teologia tradicional no tocante aos fenômenos espirituais é
resultado direto das decisões político-dogmáticas ocorridas ao longo da
história da Igreja. O marco inicial dessa separação deu-se no Concílio de
Niceia, em 325 d.C., quando o imperador Constantino combateu as teses de Ário
de Alexandria — bispo que questionava a divindade absoluta de Jesus —, impondo
o dogma da Santíssima Trindade.
Nesse contexto de
transição, dominantes da Patrística, como Basílio de Cesareia e Gregório de
Nazianzo, impuseram a veneração aos santos e a paulatina interdição das
práticas mediúnicas — as quais constituíam o elemento dinâmico e consolador das
comunidades cristãs primitivas, como a Igreja de Antioquia. O afastamento das
propostas originais do Evangelho aprofundou-se em 381 d.C., quando o imperador
Teodósio I oficializou o cristianismo como religião do Estado, e atingiu seu
ápice em 553 d.C., durante o II Concílio de Constantinopla, no qual os estudos
e premissas sobre a preexistência da alma e a reencarnação foram banidos dos
dogmas oficiais.
Ao abordar a trajetória
do Cristianismo e as interpolações promovidas pelos interesses temporais,
Emmanuel analisa o obscurecimento das verdades cristãs: O Cristianismo, ao se
tornar a religião oficial do Estado romano, trocou a simplicidade da fé e o
amor fraternal pelas pompas do poder temporal e pelos dogmas sufocantes,
afastando os homens da essência das lições do Mestre. (XAVIER, 2016, p. 142).
Nesse longo interregno de
mil e oitocentos anos, inúmeros pensadores e reformadores tiveram de ofertar a
própria vida em defesa da liberdade de consciência e do pensamento livre,
abrindo caminho para o advento da Renascença e das luzes do Iluminismo.
Superando as ambiguidades
narrativas dos Evangelhos — como as divergências observadas entre Mateus, Lucas
e Marcos quanto às primeiras aparições de Jesus —, o Espiritismo oferece uma
chave de leitura racional e contemporânea para os textos sagrados. Não se faz
necessário apelar ao milagre ou à quebra das leis da física para compreender a
sobrevivência do Mestre após a crucificação; compreende-se, sim, a manifestação
de Seu corpo espiritual ou perispírito.
Ao analisar o papel da
Doutrina Espírita na transformação do pensamento filosófico e religioso, Léon
Denis (2019, p. 45) destaca a reconciliação entre a razão e a fé:
O Espiritismo não traz
uma religião nova; traz a confirmação e a explicação lógica dos princípios
ensinados por Jesus, restituindo-lhes o sentido moral e libertando-os das teias
do dogma e da superstição. (DENIS, 2019, p. 45).
Sob essa perspectiva, o
Cristo emerge de forma menos mitológica e mais humana, libertado das amarras
dos editos inquisitoriais, dos atos sacramentais e das controvérsias
dogmáticas. A Doutrina Espírita demonstra que o ser humano é detentor de
potencialidades latentes em sua própria natureza e que a mediunidade é uma
faculdade orgânica e moral, pilar de nossa comunicação com o plano invisível e
marco de nossa destinação transcendental.
Referências
- DENIS, Léon. Depois da Morte:
exposição da doutrina dos espíritos. 26. ed. Brasília: FEB, 2019.
- KARDEC, Allan. A Gênese: os
milagres e as predições segundo o espiritismo. 53. ed. Brasília: FEB,
2013.
- XAVIER, Francisco Cândido. A
Caminho da Luz: história da civilização à luz do espiritismo. Pelo
Espírito Emmanuel. 38. ed. Brasília: FEB, 2016.
