29 outubro 2026

A revolução cultural e a soberania da irracionalidade




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quando o controle das palavras substitui o debate de ideias, a liberdade começa a sucumbir no abismo da irracionalidade.

Há um fenômeno contemporâneo que merece nossa atenção: a transformação da linguagem em instrumento de controle social. Sob o pretexto de promover virtudes, determinadas correntes ideológicas procuram estabelecer não apenas o que devemos dizer, mas também o que podemos pensar, questionar ou contestar. Quando a discordância passa a ser tratada como delito moral, o debate racional cede espaço à intimidação.

A linguagem evolui naturalmente, e algumas mudanças vocabulares são legítimas e necessárias. O problema surge quando a atualização dos termos deixa de ser uma escolha fundamentada e se converte em imposição, acompanhada de constrangimento público, censura e tentativas de silenciar opiniões divergentes. Nesse ambiente, a argumentação perde espaço para a patrulha ideológica.

Antonio Gramsci desenvolveu o conceito de hegemonia para analisar como a direção cultural e intelectual contribui para a manutenção do poder. Sua reflexão permite compreender a importância das instituições, da educação e dos meios de comunicação na formação do consenso social (GRAMSCI, 2000). Isso não significa, porém, que toda mudança cultural obedeça a um plano centralizado. Significa que devemos examinar criticamente quem produz as narrativas dominantes, como elas se difundem e quais consequências acarretam.

O perigo está em substituir a investigação pela palavra de ordem, a lógica pela emoção manipulada e a liberdade de consciência pela submissão ao pensamento predominante. Quando o indivíduo teme expressar uma dúvida para não ser estigmatizado, instala-se uma forma de autocensura. A sociedade pode conservar suas instituições formais e, ainda assim, empobrecer intelectualmente, porque seus cidadãos passam a repetir fórmulas em vez de examinar argumentos.

É nesse contexto que podemos falar na soberania da irracionalidade: não como ausência absoluta de inteligência, mas como a prevalência da pressão coletiva sobre a reflexão independente. A palavra torna-se instrumento de enquadramento, e o medo da reprovação pública substitui a busca honesta da verdade.

A Doutrina Espírita oferece um contraponto vigoroso a essa tendência. Em O Livro dos Espíritos, questão 837, Allan Kardec adverte que constranger alguém a agir contra a própria consciência favorece a hipocrisia. Na questão 841, os Espíritos ensinam que a convicção deve ser alcançada pela brandura e pela persuasão, jamais pela força (KARDEC, 2013).

Isso não significa licença para ofender, discriminar ou desprezar o próximo. A liberdade de expressão exige responsabilidade, assim como a caridade exige respeito. Entretanto, respeitar pessoas não significa abdicar do direito de examinar criticamente suas ideias. A tolerância não pode ser monopólio de quem exige concordância.

O Espiritismo, por seu compromisso com a razão e o livre exame, não deve submeter-se a modismos, sejam de esquerda ou de direita. Sua fidelidade é à verdade examinada, à consciência responsável e à lei moral. Em A Gênese, Kardec (2013) reafirma o caráter progressivo da Doutrina, aberta à verdade demonstrada e à correção de eventuais equívocos.

Precisamos, portanto, recuperar a coragem de pensar, perguntar e discordar sem hostilidade, mas também sem submissão. Uma sociedade verdadeiramente livre não protege ideias contra o questionamento: protege o direito de questioná-las.

Quando o medo determina as palavras e a pressão coletiva substitui a razão, a liberdade já apodreceu. Defender o livre pensamento é resistir à soberania da irracionalidade.

Por isso, costumo inventar um neologismo entre risos com meus amigos, dizendo que, por vezes, coexisto com 'sub-irmãos'. É como examinar os degraus desiguais de uma fraternidade e tentar decifrar a intrincada árvore genealógica que nos une.

 

Referências Bibliográficas:

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v. 2: Os intelectuais. O princípio educativo. Jornalismo. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: FEB, 2013.