Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Quando o controle das
palavras substitui o debate de ideias, a liberdade começa a sucumbir no abismo
da irracionalidade.
Há um fenômeno
contemporâneo que merece nossa atenção: a transformação da linguagem em
instrumento de controle social. Sob o pretexto de promover virtudes,
determinadas correntes ideológicas procuram estabelecer não apenas o que
devemos dizer, mas também o que podemos pensar, questionar ou contestar. Quando
a discordância passa a ser tratada como delito moral, o debate racional cede
espaço à intimidação.
A linguagem evolui
naturalmente, e algumas mudanças vocabulares são legítimas e necessárias. O
problema surge quando a atualização dos termos deixa de ser uma escolha
fundamentada e se converte em imposição, acompanhada de constrangimento
público, censura e tentativas de silenciar opiniões divergentes. Nesse
ambiente, a argumentação perde espaço para a patrulha ideológica.
Antonio Gramsci
desenvolveu o conceito de hegemonia para analisar como a direção cultural e
intelectual contribui para a manutenção do poder. Sua reflexão permite
compreender a importância das instituições, da educação e dos meios de
comunicação na formação do consenso social (GRAMSCI, 2000). Isso não significa,
porém, que toda mudança cultural obedeça a um plano centralizado. Significa que
devemos examinar criticamente quem produz as narrativas dominantes, como elas
se difundem e quais consequências acarretam.
O perigo está em
substituir a investigação pela palavra de ordem, a lógica pela emoção
manipulada e a liberdade de consciência pela submissão ao pensamento
predominante. Quando o indivíduo teme expressar uma dúvida para não ser
estigmatizado, instala-se uma forma de autocensura. A sociedade pode conservar
suas instituições formais e, ainda assim, empobrecer intelectualmente, porque
seus cidadãos passam a repetir fórmulas em vez de examinar argumentos.
É nesse contexto que
podemos falar na soberania da irracionalidade: não como ausência
absoluta de inteligência, mas como a prevalência da pressão coletiva sobre a
reflexão independente. A palavra torna-se instrumento de enquadramento, e o
medo da reprovação pública substitui a busca honesta da verdade.
A Doutrina Espírita
oferece um contraponto vigoroso a essa tendência. Em O Livro dos Espíritos,
questão 837, Allan Kardec adverte que constranger alguém a agir contra a
própria consciência favorece a hipocrisia. Na questão 841, os Espíritos ensinam
que a convicção deve ser alcançada pela brandura e pela persuasão, jamais pela
força (KARDEC, 2013).
Isso não significa
licença para ofender, discriminar ou desprezar o próximo. A liberdade de
expressão exige responsabilidade, assim como a caridade exige respeito.
Entretanto, respeitar pessoas não significa abdicar do direito de examinar
criticamente suas ideias. A tolerância não pode ser monopólio de quem exige
concordância.
O Espiritismo, por seu
compromisso com a razão e o livre exame, não deve submeter-se a modismos, sejam
de esquerda ou de direita. Sua fidelidade é à verdade examinada, à consciência
responsável e à lei moral. Em A Gênese, Kardec (2013) reafirma o caráter
progressivo da Doutrina, aberta à verdade demonstrada e à correção de eventuais
equívocos.
Precisamos, portanto,
recuperar a coragem de pensar, perguntar e discordar sem hostilidade, mas
também sem submissão. Uma sociedade verdadeiramente livre não protege ideias
contra o questionamento: protege o direito de questioná-las.
Quando o medo determina
as palavras e a pressão coletiva substitui a razão, a liberdade já apodreceu.
Defender o livre pensamento é resistir à soberania da irracionalidade.
Por isso, costumo inventar um neologismo entre risos com meus amigos, dizendo que, por vezes, coexisto com 'sub-irmãos'. É como examinar os degraus desiguais de uma fraternidade e tentar decifrar a intrincada árvore genealógica que nos une.
Referências Bibliográficas:
GRAMSCI, Antonio. Cadernos
do cárcere. v. 2: Os intelectuais. O princípio educativo. Jornalismo. 2.
ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
KARDEC, Allan. A
gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF:
FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O livro
dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: FEB, 2013.
