Jorge Hessen
Brasília -DF
Questionar é legítimo. Transformar a própria opinião em régua absoluta da verdade é palermice. Há uma curiosa modalidade de “espiritismo” ganhando espaço nas redes sociais: aquela que parece nascer menos do estudo sereno das obras espíritas e mais da necessidade de desqualificar tudo aquilo que não cabe na interpretação particular de seus divulgadores.
Questionar é legítimo. Discordar também. O próprio Allan Kardec jamais recomendou submissão intelectual. Ao contrário, o Espiritismo fundamenta-se no livre exame, na razão e na ausência de fé cega. Mas há uma diferença monumental entre exercer o pensamento crítico e transformar a própria opinião em tribunal da verdade.
Alguns comunicadores, apresentados como “simpatizantes” ou até como espíritas, passaram a tratar as obras de André Luiz, Emmanuel, Manoel Philomeno de Miranda e Ivone do Amaral Pereira com indisfarçável desdém. Rejeitam, por exemplo, descrições da vida espiritual, instituições de acolhimento, mecanismos de assistência aos desencarnados e diferentes experiências no mundo invisível. Tudo aquilo que não coincide com sua interpretação é rapidamente classificado como fantasia, crendice ou invenção.
Mas com que autoridade? Não estamos obrigados a aceitar integralmente nenhuma obra mediúnica. Tampouco precisamos transformar Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco ou Ivone do Amaral Pereira em figuras infalíveis. A própria doutrina espírita não admite infalibilidade humana. O que não podemos fazer é substituir o exame racional pela desqualificação sumária.
Chico Xavier produziu, ao longo de décadas, uma obra psicográfica monumental, examinada por gerações de estudiosos. Emmanuel e André Luiz ofereceram informações que ampliaram, para milhões de leitores, a compreensão sobre a vida espiritual. Divaldo Pereira Franco tornou-se um dos mais conhecidos médiuns e divulgadores espíritas do mundo. Ivone do Amaral Pereira legou obras de extraordinária riqueza espiritual e literária. Manoel Philomeno de Miranda, pela psicografia de Divaldo, aprofundou questões relacionadas à obsessão, ao sofrimento e aos processos de assistência espiritual.
Tudo isso pode e deve ser estudado criticamente. O que não é intelectualmente honesto é fingir que esses autores não existem, ridicularizar seus conteúdos e, simultaneamente, apresentar a própria leitura como se fosse a expressão definitiva do Espiritismo.
Há, nesse comportamento, uma contradição evidente: proclama-se “não sou dono da verdade”, mas o discurso é construído para induzir o público a concluir justamente isso: “sigam-me, porque eu descobri o que os outros não compreenderam”.
A internet amplificou esse fenômeno. O algoritmo premia a contundência, não necessariamente a competência. E a frase provocativa frequentemente conquista mais audiência que o estudo paciente de Kardec.
Nós precisamos, portanto, de uma crítica espírita que seja crítica sem ser iconoclasta; racional sem ser arrogante; independente sem ser presunçosa. O Espiritismo não precisa de novos donos da verdade. Precisa de estudiosos dispostos a confrontar ideias sem transformar divergências em guerras de vaidade.
Kardec ensinou-nos que o verdadeiro espírita se reconhece pela transformação moral e pelo esforço em dominar suas más inclinações. A humildade intelectual também é uma dessas inclinações que precisamos cultivar.
Não somos obrigados a acreditar em tudo. Mas também não temos o direito de chamar de ignorantes aqueles que encontram sentido em informações que ainda não compreendemos.
A dúvida honesta engrandece, tanto quanto a investigação esclarece e, obviamente, a discordância pode educar.
Já a soberba apenas faz barulho. E, no Espiritismo, barulho nunca foi sinônimo de dono da verdade.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: FEB, 2013.
XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Brasília, DF: FEB, 2020.
XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF: FEB, 2019.
FRANCO, Divaldo Pereira. Tormentos da Obsessão. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL, 2001.
PEREIRA, Yvonne do Amaral. Memórias de um Suicida. Pelo Espírito Camilo Cândido Botelho. Brasília, DF: FEB, 2017.
