Jorge Hessen
Brasília
-DF
Quem somos, afinal? Somos
apenas a personalidade que construímos, os papéis sociais que desempenhamos e
as emoções que experimentamos? Ou existe, nas profundezas da consciência, uma
dimensão mais abrangente, capaz de orientar nossa existência para o equilíbrio,
a sabedoria e o amor?
Façamos uma reflexão
sobre essa questão, reconhecendo, em sua perspectiva espiritualista, que o ser
humano não se limita às manifestações do ego. Existe uma dimensão profunda da
individualidade que podemos denominar “Espírito imortal”, “Self”, “Eu
Profundo”, “Eu em Si” ou, simbolicamente, “Guia Interior”.
Carl Gustav Jung,
fundador da Psicologia Analítica, compreendia o ego como centro da consciência,
enquanto o Self representa a totalidade psíquica, abrangendo elementos
conscientes e inconscientes (JUNG, 1968).
O ego organiza nossa
identidade cotidiana, nossas escolhas e relações. Não constitui, portanto, um
inimigo a ser destruído, mas uma estrutura necessária que precisa amadurecer. O
Self, por sua vez, representa uma dimensão mais ampla, integradora e
organizadora da personalidade. O desenvolvimento psicológico ocorre quando o
ego deixa de se considerar o centro absoluto da existência e estabelece uma
relação mais harmoniosa com essa totalidade.
O “Eu em si” pode
ser compreendido como uma representação simbólica da sabedoria íntima, acessível
mediante introspecção, meditação e visualizações terapêuticas. Nas
experiências vivenciais, sua manifestação pode assumir a imagem de um sol, de
um mestre, de uma presença acolhedora ou de uma figura luminosa. Tais imagens podem
expressar conteúdos significativos da nossa essencialidade. Porquanto o
essencial não é a exterioridade da imagem, mas sua contribuição para o
autoconhecimento, o equilíbrio emocional e a transformação das atitudes.
Na perspectiva espírita,
Léon Denis, em O problema do ser, do destino e da dor, apresenta a consciência
como dimensão fundamental da individualidade espiritual, cujo desenvolvimento
acompanha a evolução moral do Espírito. Joanna de Ângelis, em
Autodescobrimento: uma busca interior, aproxima reflexões da Psicologia
Humanista e Transpessoal dos ensinamentos espíritas, valorizando o
autoconhecimento como caminho de transformação.
Importa distinguir os
conceitos: o Self junguiano constitui uma formulação psicológica,
enquanto a centelha divina e a imortalidade da alma pertencem à
interpretação filosófico-espiritual. São perspectivas que podem dialogar,
sem que sejam academicamente equivalentes.
A gradual fusão do eixo Ego-Eu
Profundo constitui iluminar a personalidade para abranger as
responsabilidades a fim de alcançar estados extraordinários de consciência.
Significa desenvolver a capacidade de observar pensamentos, reconhecer emoções,
compreender conflitos e escolher atitudes moralmente mais maduras.
A oração, a meditação, o
silêncio reflexivo e as experiências terapêuticas podem favorecer esse
processo, desde que acompanhados de discernimento e compromisso com a
realidade. Não basta “visualizar” a luz interior: precisamos senti-la com
paciência, honestidade, fraternidade e operosidade.
O verdadeiro despertar
consciencial manifesta-se quando diminuímos a tirania do ego, ampliamos a
compaixão e aprendemos a viver em maior coerência com os valores morais que
professamos. Afinal, encontrar o Eu Profundo não é fugir do mundo, mas
retornar à vida com maior consciência, responsabilidade e amor.
Referências Bibliográficas:
DENIS, Léon. O problema
do ser, do destino e da dor. Brasília: FEB, [s. d.].
FRANCO, Divaldo Pereira.
Autodescobrimento: uma busca interior. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 17. ed.
Salvador: LEAL, 2013.
JUNG, Carl Gustav. Aion:
researches into the phenomenology of the self. 2. ed. Princeton: Princeton
University Press, 1968. (Collected Works, v. 9, parte 2).
SIMONTON, O. Carl;
MATHEWS-SIMONTON, Stephanie; CREIGHTON, James L. Com a vida de novo: uma
abordagem de autoajuda para pacientes com câncer. São Paulo: Summus, 1978.
