22 outubro 2026

O despertar do eu profundo: o self e a centelha divina na consciência humana

 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quem somos, afinal? Somos apenas a personalidade que construímos, os papéis sociais que desempenhamos e as emoções que experimentamos? Ou existe, nas profundezas da consciência, uma dimensão mais abrangente, capaz de orientar nossa existência para o equilíbrio, a sabedoria e o amor?

Façamos uma reflexão sobre essa questão, reconhecendo, em sua perspectiva espiritualista, que o ser humano não se limita às manifestações do ego. Existe uma dimensão profunda da individualidade que podemos denominar “Espírito imortal”, “Self”, “Eu Profundo”, “Eu em Si” ou, simbolicamente, “Guia Interior”.

Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica, compreendia o ego como centro da consciência, enquanto o Self representa a totalidade psíquica, abrangendo elementos conscientes e inconscientes (JUNG, 1968).

O ego organiza nossa identidade cotidiana, nossas escolhas e relações. Não constitui, portanto, um inimigo a ser destruído, mas uma estrutura necessária que precisa amadurecer. O Self, por sua vez, representa uma dimensão mais ampla, integradora e organizadora da personalidade. O desenvolvimento psicológico ocorre quando o ego deixa de se considerar o centro absoluto da existência e estabelece uma relação mais harmoniosa com essa totalidade.

O “Eu em si” pode ser compreendido como uma representação simbólica da sabedoria íntima, acessível mediante introspecção, meditação e visualizações terapêuticas. Nas experiências vivenciais, sua manifestação pode assumir a imagem de um sol, de um mestre, de uma presença acolhedora ou de uma figura luminosa. Tais imagens podem expressar conteúdos significativos da nossa essencialidade. Porquanto o essencial não é a exterioridade da imagem, mas sua contribuição para o autoconhecimento, o equilíbrio emocional e a transformação das atitudes.

Na perspectiva espírita, Léon Denis, em O problema do ser, do destino e da dor, apresenta a consciência como dimensão fundamental da individualidade espiritual, cujo desenvolvimento acompanha a evolução moral do Espírito. Joanna de Ângelis, em Autodescobrimento: uma busca interior, aproxima reflexões da Psicologia Humanista e Transpessoal dos ensinamentos espíritas, valorizando o autoconhecimento como caminho de transformação.

Importa distinguir os conceitos: o Self junguiano constitui uma formulação psicológica, enquanto a centelha divina e a imortalidade da alma pertencem à interpretação filosófico-espiritual. São perspectivas que podem dialogar, sem que sejam academicamente equivalentes.

A gradual fusão do eixo Ego-Eu Profundo constitui iluminar a personalidade para abranger as responsabilidades a fim de alcançar estados extraordinários de consciência. Significa desenvolver a capacidade de observar pensamentos, reconhecer emoções, compreender conflitos e escolher atitudes moralmente mais maduras.

A oração, a meditação, o silêncio reflexivo e as experiências terapêuticas podem favorecer esse processo, desde que acompanhados de discernimento e compromisso com a realidade. Não basta “visualizar” a luz interior: precisamos senti-la com paciência, honestidade, fraternidade e operosidade.

O verdadeiro despertar consciencial manifesta-se quando diminuímos a tirania do ego, ampliamos a compaixão e aprendemos a viver em maior coerência com os valores morais que professamos. Afinal, encontrar o Eu Profundo não é fugir do mundo, mas retornar à vida com maior consciência, responsabilidade e amor.

 

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília: FEB, [s. d.].

FRANCO, Divaldo Pereira. Autodescobrimento: uma busca interior. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 17. ed. Salvador: LEAL, 2013.

JUNG, Carl Gustav. Aion: researches into the phenomenology of the self. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1968. (Collected Works, v. 9, parte 2).

SIMONTON, O. Carl; MATHEWS-SIMONTON, Stephanie; CREIGHTON, James L. Com a vida de novo: uma abordagem de autoajuda para pacientes com câncer. São Paulo: Summus, 1978.