22 outubro 2026

Entre a bandeira vermelha e a liberdade: a advertência de Léon Denis




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A pretensão de transformar a humanidade mediante revoluções ideológicas, submetendo o indivíduo à vontade das massas, constitui uma das mais inquietantes contradições da história política. Promete-se liberdade, mas frequentemente se exige submissão; anuncia-se fraternidade, enquanto se alimenta o antagonismo entre “classes”.

O psiquiatra forense norte-americano Lyle H. Rossiter Jr., em The Liberal Mind (2006), associa determinadas manifestações do radicalismo esquerdista a mecanismos psicossociais de dependência, regressão emocional e hostilidade à autonomia individual.

Rossiter possui experiência declarada superior a quarenta anos na psiquiatria e atuação em mais de 2.700 processos civis e criminais. Entretanto, esses números referem-se à sua atividade profissional, com 2.700 militantes de esquerda. Sua interpretação é uma tese político-psicológica, não sendo, obviamente, como qualquer pesquisa psiquiátrica, um diagnóstico universalmente convencional.

O fanatismo político pode envolver rigidez cognitiva, intolerância à divergência e identificação excessiva com grupos. Contudo, tais manifestações logicamente não são exclusivas da “esquerda” e não autorizam classificar adversários políticos como mentalmente enfermos.

Léon Denis, em Socialismo e Espiritismo (1924), oferece uma reflexão particularmente esclarecedora. No capítulo I, reconhece a legitimidade das reivindicações operárias, mas reprova os métodos revolucionários violentos. No capítulo VII, declara expressamente: “Sou evolucionista e não revolucionário.”

É indispensável reconhecer que Denis se identificava com um utópico“socialismo” espiritualista, orientado pela justiça e pela solidariedade. Rejeitava, entretanto, o funesto socialismo materialista que fomentava o ódio e a violência.

No capítulo V, Denis sustenta que nenhuma reorganização institucional produzirá resultados duradouros sem o aperfeiçoamento moral dos indivíduos. Sua crítica alcança precisamente a ilusão de corrigir a sociedade exclusivamente pela transformação das estruturas econômicas.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, questão 793, vincula a verdadeira civilização ao progresso moral. Na questão 806, esclarece-se que as desigualdades sociais são produzidas pelos homens, não por Deus.

Emmanuel, em Pensamento e Vida, e André Luiz, em Nos Domínios da Mediunidade, oferecem reflexões espiritualistas sobre a responsabilidade dos pensamentos e das atitudes. Essas contribuições não comprovam nem negam as hipóteses clínicas de Rossiter, mas reforçam a necessidade da vigilância moral.

A “bandeira vermelha”, quando convertida em símbolo de intolerância e imposição ideológica, não transforma consciências: apenas substitui antigos mecanismos de dominação por novos discursos de poder. O mesmo princípio condena qualquer extremismo autoritário, independentemente de sua coloração partidária.

Não haverá regeneração verdadeira enquanto o orgulho, o egoísmo e a violência comandarem as relações humanas. A justiça social é indispensável, mas não florescerá pela destruição da liberdade individual.

O Espiritismo propõe um ideário mais profundo: a educação da consciência, a fraternidade efetiva e a reforma moral. Sem isso, toda promessa de construir um mundo novo poderá conservar, sob novas bandeiras, os velhos vícios da humanidade.

 

Referências Bibliográficas:

DENIS, Léon. Socialismo e Espiritismo. 1924. Capítulos I, V e VII.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris: E. Dentu, 1857. Questões 793 e 806.

ROSSITER JR., Lyle H. The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness. St. Charles: Free World Books, 2006.

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB 2000

XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB 1999