05 novembro 2026

Os bandeirantes do Espiritismo: A ideia que antecedeu a codificação




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Antecedentes filosóficos, científicos e fenomênicos da Doutrina Espírita

As grandes ideias não surgem repentinamente. Antes de sua sistematização por Allan Kardec, em 1857, o pensamento espiritualista percorreu séculos de reflexões filosóficas, experiências mediúnicas e investigações sobre a natureza da alma. O Espiritismo, portanto, não nasceu de um acontecimento isolado, mas de um processo histórico que preparou a humanidade para uma compreensão mais ampla da existência.

Na Antiguidade, Sócrates (469–399 a.C.) e Platão (427–347 a.C.) anteciparam princípios fundamentais posteriormente examinados pela Doutrina Espírita. Sócrates defendia a imortalidade da alma e a primazia da virtude; Platão abordava a pré-existência, a sobrevivência e a reencarnação. Allan Kardec reconheceu expressamente ambos como precursores da ideia cristã e do Espiritismo, dedicando-lhes uma seção da introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo (KARDEC, 2013).

Na Idade Moderna, Emanuel Swedenborg (1688–1772), cientista e pensador sueco, relatou experiências visionárias e descrições do mundo espiritual. Embora suas concepções não coincidissem com a futura Codificação, suas narrativas contribuíram para o debate sobre a sobrevivência da consciência após a morte.

Outro antecedente relevante foi Franz Anton Mesmer (1734–1815), que desenvolveu a teoria do magnetismo animal. Embora suas hipóteses sobre o fluido magnético a ciência ocidental contemporânea rejeite, suas experiências abriram espaço para investigações sobre estados alterados de consciência. O marquês de Puységur, seu discípulo, estudou o sonambulismo magnético, fenômeno que posteriormente despertaria interesse nas pesquisas sobre emancipação da alma (CRABTREE, 2019).

No século XIX, Andrew Jackson Davis (1826–1910), nos Estados Unidos, difundiu ideias espiritualistas e relatos de experiências clarividentes. Na França, Jean Reynaud refletiu sobre a pluralidade das existências. Esses pensadores, embora distintos em suas abordagens, integraram o ambiente intelectual que antecedeu o Espiritismo.

Merece destaque Victor Hugo (1802–1885). Durante seu exílio na ilha de Jersey, entre 1853 e 1855, participou de numerosas sessões de mesas girantes, cujos registros foram reunidos sob a denominação O Livro das Mesas. As experiências, documentadas em manuscritos e atas, revelam o interesse do escritor pelos fenômenos de comunicação com entidades invisíveis. Não constituíram uma codificação doutrinária, mas representam importante episódio da história pré-espírita (BOIVIN, s.d.).

Também os acontecimentos de Hydesville, em 1848, associados às irmãs Fox, nos Estados Unidos, e a posterior popularização das mesas girantes na Europa despertaram grande curiosidade pública. Foi nesse contexto que Allan Kardec empreendeu uma investigação metódica dos fenômenos.

A diferença essencial está na contribuição do Codificador: em vez de simplesmente aceitar manifestações extraordinárias, submeteu os ensinamentos atribuídos aos Espíritos à análise racional, à comparação e ao critério da concordância universal, estabelecendo os fundamentos de uma doutrina filosófica, científica e moral.

Assim, reconhecer os precursores não significa confundir suas concepções com o Espiritismo. Significa compreender que a Codificação representou um marco de sistematização de ideias e fenômenos anteriormente dispersos. Como o próprio Kardec assinalou, as grandes verdades encontram precursores que lhes preparam o caminho. A Terceira Revelação não surgiu no vazio: encontrou uma humanidade intelectualmente preparada para ampliar sua compreensão da vida, da morte e da destinação espiritual do ser.

 

Referências bibliográficas

BOIVIN, Patrice. L’écriture des tables: le Livre des Tables. Groupe Hugo, s.d.

CRABTREE, Adam. 1784: The Marquis de Puységur and the psychological turn in the West. Journal of the History of the Behavioral Sciences, v. 55, n. 3, p. 199-215, 2019.

DAVIS, Andrew Jackson. The principles of nature, her divine revelations. New York: S. S. Lyon & W. Fishbough, 1847.

HUGO, Victor. O livro das mesas: as sessões espíritas de Jersey. Tradução de Sandra M. Stroparo. Curitiba: Editora UFPR, 2014.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2013.

MESMER, Franz Anton. Mémoire sur la découverte du magnétisme animal. Genève; Paris, 1779.