17 maio 2011

A URBANIDADE NECESSÁRIA




Marcus Vinicius de Azevedo Braga
Articulista Espírita- Brasília-DF

Para o convívio em qualquer campo de serviço e estudo é preciso urbanidade. Aprendemos isso na escola. Esse respeito mútuo, essa caridade no falar expressa em cortesia é fundamental para o relacionamento humano, para a harmonia dentre  as diversas matrizes de opinião, naturais do espírito encarnado.
Kardec, o mestre lionês, diante dos grandes embates intelectuais, com a sua amestria, manteve a urbanidade, como no trecho a seguir de “O que é o espiritismo”:
 “Isso seria um meio de perder a disputa um pouco mais depressa, porque a violência é o argumento daqueles que nada de bom têm a dizer. “
           A discordância é salutar. Os argumentos constroem conhecimento. Mas o sarcasmo e a ofensa são um campo sombrio, que não agrega idéias, gerando somente a mágoa e a discussão.  Assim vemos esse lamentável episódio da história do espiritismo pátrio, onde o nosso amigo e articulista de longa data, Jorge Hessen, viu suas argumentações solidamente construídas sobre a industrialização dos eventos espíritas contraposta por xingamentos e ataques pessoais de um expositor espírita, XYZ, por meio de uma mensagem eletrônica amplamente divulgada entre pessoas do movimento,  e que no texto se utiliza de uma distorção das idéias do Jorge, levando o leitor a  que não leu os seus artigos a pensar que esse empreende ataques pessoais a figuras famosas do Movimento espírita, quando o que se questiona é o paradigma adotado em mega-eventos, de mega-palestrantes, de mega-preços, voltados para um micro-público.
André Luis já se posicionava sobre essa temática em CONDUTA ESPÍRITA:
        Nas reuniões doutrinárias, jamais angariar donativos por meio de coletas, peditórios ou vendas de tômbolas,  vista dos inconvenientes que apresentam, de vez que tais expedientes podem ser tomados à conta de pagamento por benefícios.
A pureza da prática da Doutrina Espírita deve ser preservada a todo custo.

Em uma mercantilização que figura na bíblia, nos vendilhões do templo, nas indulgências da Idade Média e que assume roupagens diversas. Vivemos o ano do Chico, dos filmes, dos programas, onde viramos polo de luta entre emissoras de TV e entre políticos em campanha. Tudo isso nos tomou de assalto e mais do que casas espíritas cheias, ganhamos evidência e notoriedade.
Causa tristeza essa deprimente situação de idéias combatidas a pedradas, pois ignora tudo o que o codificador nos deixou no conhecimento espírita. Ignora a democracia, os avanços de nossa época no campo social. Falta a urbanidade de quem tem argumentos...
Cada vez mais nos tornamos espíritas igrejistas, importando de outras denominações práticas que juramos combater-a politicagem, a mercantilização, o personalismo, hierarquias. Ainda na sabedoria de André Luis, Op. Cit.
              Agir de tal modo a não permitir, mesmo indiretamente, atos que signifiquem profissionalismo religioso, quer no campo da mediunidade, quer na direção de instituições, na redação de livros e periódicos, em traduções e revisões, excursões e visitas, pregações e outras quaisquer tarefas.
           

Não queremos espíritas-párocos, não queremos vaticanos, não queremos representações parlamentares, não queremos ser a torcida do flamengo. Queremos a reforma íntima, a materialização do reino do cordeiro na Terra e a construção do homem de bem. Não queremos repetir os modelos que a história já provou que são falhos. O Trecho da mensagem do Confrade XYZ corrobora esse pensamento, que os textos de Jorge Hessen questiona:
“O segmento evangélico, numa checagem que eu fiz em 2009, investia, mensalmente, uma quantia de 150 milhões de reais, em televisão e rádio, no Brasil. Vou repetir: 150 MILHÕES DE REAIS por mês, não são 150 mil não. Imagine quanto estão investindo este ano de 2011.


O que faríamos com 150 milhões de reais no espiritismo? Uma Rede de TV ou a prática do bem? Se queremos abandonar os meios em função dos fins, partamos para um vale tudo na luta por novos adeptos. Lembre-mos o codificador em “O que é o espiritismo”:
A.K. . Por que eu desejaria fazer de vós um prosélito se vós mesmo isso não o desejais? Eu não forço nenhuma convicção. Quando encontro pessoas sinceramente desejosas de se instruírem e que me dão a honra de solicitar-me esclarecimentos, é para mim um prazer, e um dever, responder-lhes no limite dos meus conhecimentos. Quanto aos antagonistas que, como vós, têm convicções firmadas, eu não faço uma tentativa para os desviar, já que encontro bastante pessoas bem dispostas, sem perder meu tempo com as que não o são. A convicção virá, cedo ou tarde, pela força das coisas, e os mais incrédulos serão arrastados pela torrente. Alguns partidários a mais, ou a menos, no momento, não pesam na balança. Por isso, não vereis jamais zangar-me para conduzir às nossas idéias aqueles que têm tão boas razões como vós para delas se distanciarem.
O que Jorge aponta nos seus textos são esses desvios, essa troca da qualidade pela quantidade, essa visão salvacionista de que só o espiritismo é a solução, ignorando a idéia de salvação kardequiana. A visão de que pela divulgação da doutrina, faremos tudo, pelo sonho de um mundo espírita. O espiritismo é o futuro das religiões e não a religião do futuro!  Quem ler os textos de Jorge Hessen sobre o assunto entenderá a profundidade e a importância de suas análises sobre essa atual temática. Quisera que a questão se resumisse a um articulista insensato de Brasília falando mal de personalidades espíritas. Trata-se dos rumos da nossa prática espírita, o que fazemos com esse tesouro! Agora, se queremos apenas grandes eventos, sem problema. Quando chegarmos no céu, quer dizer, no plano espiritual, procuraremos alguém com uma prancheta com a anotação de nossa presença nesses eventos, a contabilizar a nossa salvação.
 
 
Marcus Vinicius 

13 maio 2011

PURITANOS OU VENDILHÕES? EIS A GRAVE QUESTÃO!



Assistimos pelo youtube uma entrevista de um médium espírita e ficamos estupidificados com as suas declarações. Primeiro, pela maneira presunçosa de como foram tratados os confrades que se posicionam contra a INDUSTRIALIZAÇÃO DE EVENTOS “ESPÍRITAS”; depois, pela forma desdenhosa de como se referiu aos espíritas de baixo salários e os desempregados (pobres), dizendo que na instituição que dirige são realizadas semanal e “gratuitamente” 4 (quatro) reuniões públicas doutrinárias, 8 (oito) reuniões mediúnicas, 8 (oito) módulos de estudos espíritas, além de outros trabalhos de grande relevância doutrinária. Todavia, muitos espíritas simplesinho (pobres) não participam, porque não querem. Contudo, referindo-se ao evento que será realizado no hotel luxuoso sob sua coordenação, afirmou que quem não pode pagar também não pode frequentar. Sabe por quê? Porque os eventos são negociados através de “pacotes fechados” entre a instituição que dirige e os hotéis promotores. O médium esqueceu-se de que a lídima divulgação não exclui pessoas, não impõe condições, não faz peditórios, justamente para fugirmos dos equívocos cometidos por outras religiões e credos.

Martinho Lutero dizia que “não são as boas obras que tornam o homem bom, o homem bom é que faz as boas obras.”(1) O sistema elitista e o assistencialismo cego assemelham-se à dança em torno do bezerro dourado a que se entregou o povo hebreu, quando a caminho do paraíso prometido.


Durante a entrevista, o médium procurou relativizar a advertência de Jesus – “dai de graça o que de graça recebeste”. Para ele, o que importa é dar um ar de grandiosidade à divulgação espírita, como se a importância da mensagem espírita estivesse atrelada às exterioridades, a títulos, aos locais elegantes onde ela é pronunciada.


A mediunidade com Jesus não se relativiza. O "dai de graça ao que de graça recebemos" não pode ser deformado. O Espiritismo é a disseminação da palavra de consolo tal como Jesus nos ensinou, tal como Ele pregava, tal como Kardec esperava, tal como Chico Xavier exemplificou, para todos e ao alcance de todos. O entrevistado enfatizou a palavra “colaboração” para justificar o pagamento das taxas de ingresso, alegando que, se o interessado declarar que é pobre, não é restringido o seu acesso por causa do fator financeiro. Sabemos que isso não é verdade! Ou pelo menos é meia verdade. (Ora! Será que um espírita desempregado precisará apresentar atestado de pobreza?).

E, para justificar seus arrazoados na entrevista, sempre em intransigente defesa do comércio dos eventos “espíritas”, classificou de puritanos(?!...) os que discordam da cobrança de taxas para os eventos destinados à divulgação do Espiritismo. Mas , os “puritanos”, não podemos nos intimidar com os sofismas das sombras. Devemos caminhar de olhos voltados para as coisas do firmamento, e mãos operosas na Terra, lembrando que menos pesa na consciência o epíteto de puritanos do que de vendilhões das coisas santas!

O Cristianismo primitivo, pela simplicidade dos primeiros núcleos cristãos, foi conquistando integralmente a sociedade de sua época, mas, com o passar dos séculos, desgastou-se doutrinariamente. Conspurcou-se por imposição dos interesses políticos, institucionais e principalmente financeiros (industrialização da cruz).


É bastante preocupante e gravíssimo o ideal dos festivais de ofertas de pacotes para tour doutrinários. Para quem desconhece o fato, informamos (de graça) que há encontros “espíritas” realizados em instalações de luxuosos hotéis 5 estrelas ao “irrisório” preço de R$. 1.600,00 (em média). Se colocarmos na ponta do lápis a arrecadação final, considerando a participação de 300 pessoas (por baixo), chegaremos ao montante de quase meio milhão de reais. Isso apenas para um evento de três dias.

Fomos instados a procurar pela Internet outros eventos “espíritas” para 2011. Encontramos congressos, seminários, fóruns, cursos espíritas, simpósios de profissionais “espíritas” etc, todos eles com fichas de inscrição caracterizadas por ENTRADAS NÃO GRATUITAS.


É evidente que essas práticas, em nome de Kardec, têm fragilizado as bases da Doutrina dos Espíritos, provocando rachaduras no edifício doutrinário. Há desmesurada distância entre aqueles simples bancos e cadeiras de madeira do Grupo Espírita da Prece de Uberaba e os soberbos hotéis que servem de tablado para espetáculos de oradores que, absortos em suas insânias dinásticas, veiculam temas decorados apoiados nas suas memórias privilegiadas.


Na imprudência, disfarçada por envernizada prática assistencialista, pregam "Espiritismo" com rebuscadíssimos verbos e palavras, e ainda contam as moedas douradas arrecadadas, de mãos unidas com "Mamon". As extravagantes taxas cobradas nesses eventos evidenciam uma grave metástase doutrinária, com fulminantes consequências para o futuro do Espiritismo na Pátria do Evangelho.


Nem é necessário fazermos um esforço descomunal para identificar o abismo existente entre o "Espiritismo" e o "movimento espírita". É lamentável que o movimento doutrinário atual esteja navegando nas mesmas águas que transferiram o cristianismo primitivo das casas de simples pescadores, lavadeiras, operários, para a suntuosidade dos hotéis, centros de convenções e outros grandes edifícios religiosos.

Os defensores da não gratuidade dos eventos espíritas escudam-se na alegação de que há confrades que frequentam o centro espírita anos a fio e nem perguntam como contribuir com a conta de luz ou com os gastos com o papel higiênico e ficam esperando receber sem nada retribuir. Proclamam o argumento de que a comunidade espírita é o segundo maior PIB entre os religiosos (de acordo com o IBGE), perdendo apenas para os judeus, e os espíritas não gostam de colocar a mão no próprio bolso para a obra espírita. Será esse o real motivo para a cobrança dos eventos doutrinários?


Infelizmente, o Espiritismo das origens, tal como Chico pregava, parece não mais fazer sentido, mormente para os mais afamados representantes do movimento. Assistimos ao sepultamento da simplicidade da Terceira Revelação no jazigo dourado da espetacularização da oratória, dos aplausos provindos da massa entusiasta e inconsciente, das ovações delirantes, dos elogios soberbos e extravagantes. Por essas e outras razões disse o Mestre: “ouça quem tem ouvidos de ouvir e veja quem tem olhos de ver”.(2)


Chico Xavier advertia há 30 anos "é preciso fugir da tendência à ‘elitização’ no seio do movimento espírita (...) o Espiritismo veio para o povo. É indispensável que o estudemos junto com as massas mais humildes, social e intelectualmente falando, e delas nos aproximemos (...). Se não nos precavermos, daqui a pouco estaremos em nossas Casas Espíritas, apenas, falando e explicando o Evangelho de Cristo às pessoas laureadas por títulos acadêmicos ou intelectuais (...).”(3)

Quando escrevemos o artigo “INDUSTRIALIZAÇÃO DE EVENTOS ESPÍRITAS "GRANDIOSOS", o ex-reitor da Universidade Federal de Juiz de Fora, e escritor espírita, José Passini, afirmou: “Seu artigo, Jorge Hessen, deveria ser eternizado em placa de bronze e distribuído às instituições espíritas. Você acertou em cheio no monstro que desgraçadamente cresce em nosso meio.”(4) Talvez a espiritualidade, consciente dos despropósitos dos eventos pagos esteja de alguma forma nos alertando para um tempo de profundas mudanças. Que seja assim!


Jorge Hessen
http://jorgehessen.net

Referências:
(1) Disponível no site http://pensador.uol.com.br/frase/NTg0MzY0/.acesso em 11/05/2011
(2) Lucas 8:8
(3) Entrevista concedida ao Dr. Jarbas Leone Varanda e publicada no jornal uberabense O Triângulo Espírita, de 20 de março de 1977, e publicada no Livro intitulado Encontro no Tempo, org. Hércio M.C. Arantes, Editora IDE/SP/1979.
(4) Disponível em http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com/.../jose-passini-apoia-nossos-argumentos.html, acesso em 11-05-2011

06 maio 2011

PURITANISMO OU COERÊNCIA DOUTRINÁRIA?





(*) Editorial da Revista Eletrônica O Consolador

Ano 4 -
N° 155 - 25 de Abril de 2010


Ninguém de bom senso, em nosso meio, negará a importância dos congressos espíritas para a vitalidade do movimento espírita, a permuta de experiências e o congraçamento entre pessoas que enfrentam nas suas cidades dificuldades e problemas semelhantes.
Anos atrás a imprensa espírita registrou uma interessante polêmica acerca de um dos pontos relacionados com a realização dos congressos: seu custo financeiro. Nos lugares onde eles se desenvolvem, as chamadas taxas de participação ou inscrição têm sido cada vez mais altas, fato que, segundo a opinião de muitos, impediria a participação nesses eventos dos companheiros menos aquinhoados. Os congressos restringir-se-iam então a um pequeno grupo com condições de adquirir passagens de avião, hospedar-se em hotéis caros e, ainda, pagar taxas cada vez mais elevadas.
A polêmica instalou-se e logo apareceram as vozes dos que defendem o modelo que vem sendo adotado, alegando que os custos financeiros para a organização desses eventos são muito altos e que cabe aos espíritas, somente aos espíritas, o dever de custeá-los. Se o fato impede a participação dos companheiros de menores posses – dizem eles –, o problema não decorre do montante desses gastos, mas, sim, do poder aquisitivo da população brasileira, porquanto a maioria dos brasileiros vive efetivamente com rendimentos bem diminutos.
Entendemos que ambas as proposições têm fundamento, mas é inegável a marginalização de confrades valorosos que, devido à impossibilidade de arcar com tais despesas, ficam e continuarão a ficar excluídos dos congressos espíritas, como os que têm sido realizados ultimamente por diversas federativas estaduais e mesmo pela FEB.
Qual seria, então, a solução?
Em primeiro lugar, seria interessante examinar o modelo adotado historicamente pelas chamadas Semanas Espíritas e pelos encontros estaduais de jovens espíritas, algo que marcou época nos anos 60 do século passado, especialmente no Sudeste do Brasil.
As acomodações em alojamentos improvisados em escolas públicas ou nas próprias residências dos espíritas, o transporte em ônibus fretado por grupos de participantes e uma maior simplicidade na organização dos encontros, aliados a campanhas promocionais em que nas diferentes cidades abrangidas pelo evento se buscavam recursos para custear parte dos gastos, eis ideias que poderiam, com toda a certeza, permitir a presença nos congressos de pessoas de reduzidas posses mas que, como participantes do trabalho efetivo realizado nos Centros Espíritas, muito têm a oferecer ao debate dos temas propostos.
O local poderia também ser mais singelo. Em vez de um centro de convenções que, além de caro, abriga poucas pessoas, por que não um ginásio de esportes bem equipado, como se vê, de ordinário, nas apresentações dos grandes artistas do país?
A entrada deveria franqueada ao público, sem cobrança alguma, aceitando-se evidentemente a contribuição financeira daqueles que, podendo fazê-lo, somariam ao fundo comum obtido nas campanhas seus próprios recursos.
Num ginásio de esportes, com capacidade para quatro, cinco mil pessoas, haveria sempre espaço para que o público simpatizante pudesse comparecer e também usufruir os ensinamentos transmitidos por nossos oradores.
A mensagem espírita veio, como sabemos, para todas as pessoas. Mas, como ela chegará a um maior número, se é tão difícil e oneroso participar dos seus eventos mais significativos?
Outro ponto que já se discutiu muito no passado, e continua atual, refere-se à seleção dos temas. Tem-se notado em alguns congressos uma preocupação excessiva com a imagem externa do movimento espírita, a única explicação capaz de justificar o nível de sofisticação de certas programações que chegam às vezes ao absurdo, parecendo até, em determinados casos, que não se trata de um congresso espírita, tal o distanciamento entre os assuntos programados e a realidade em que vivem o povo e as Casas espíritas.
Os temas deveriam ser levantados a partir dos Centros Espíritas, de suas carências e necessidades. Obviamente, deve haver lugar e tempo para tudo, mas não podemos dirigir os esforços de um congresso de grande porte para os interesses de um diminuto grupo, de uma pequena elite, única capaz de compreender a terminologia e os conceitos exarados em determinadas conferências, enquanto a maioria da população brasileira segue sem saber ao certo o que é Espiritismo e quais as suas diferenças em relação à Umbanda e às religiões africanistas.

 
 

JOSE PASSINI COMENTA SOBRE INDUSTRIALIZAÇÃO DE EVENTOS ESPÍRITAS "GRANDIOSOS”

CARO JORGE HESSEN

Concordo plenamente com o que você diz.
O Espiritismo chegou até aqui, íntegro, sem nada disso que se faz atualmente. Sinto não ter a minha assinatura esse oportuno e excelente trabalho sobre INDUSTRIALIZAÇÃO DE EVENTOS ESPÍRITAS "GRANDIOSOS”
É um alertamento que ficará na história.
Avante, prossigamos!

Abraço,

José Passini


INDUSTRIALIZAÇÃO DE EVENTOS ESPÍRITAS "GRANDIOSOS”
Allan Kardec escreveu na RE de novembro de 1858, que "jamais devemos dar satisfação aos amantes de escândalos. Entretanto, há polêmica e polêmica. Há uma ante a qual jamais recuaremos — é a discussão séria dos princípios que professamos. " É isto o que chamamos polêmica útil, pois o será sempre que ocorrer entre gente séria, que se respeita bastante para não perder as conveniências. Podemos pensar de modo diverso sem diminuirmos a estima recíproca.
Que os dirigentes espíritas, sobretudo os comprometidos com órgãos “unificadores”, compreendam e sintam que o Espiritismo veio para o povo e com ele dialogar, conforme lembrava Chico Xavier. Devemos primar pela simplicidade doutrinária e evitar tudo aquilo que lembre castas, discriminações, evidências individuais, privilégios injustificáveis, imunidades, prioridades, industrialização dos eventos doutrinários.
Os eventos devem ser realizados, gratuitamente, para que todos, sem exceção, tenham acesso a eles. Os Congressos, Encontros, Simpósios, etc., precisam ser estruturados com vistas a uma programação aberta a todos e de interesse do Espiritismo, e não para servirem de ribalta aos intelectuais com titulação acadêmica, como um "passaporte" para traduzirem "melhor" os conceitos kardecianos. Não há como “compreender o Espiritismo sem Jesus e sem Kardec para todos, com todos e ao alcance de todos, a fim de que o projeto da Terceira Revelação alcance os fins a que se propõe.” (1)
"A presença do elitismo nas atividades doutrinárias (...) vai expondo-nos a dogmatização dos conceitos espíritas na forma do Espiritismo para pobres, para ricos, para intelectuais, para incultos.” (2) Infelizmente, alguns se perdem nos labirintos das promoções de shows de elitismo nos chamados “Congressos”. Patrocinam eventos para espíritas endinheirados, e, sem qualquer inquietação espiritual, sem quaisquer escrúpulos, cobram altas taxas dos interessados, momento em que a idéia tão almejada de “unificação” se perde no tempo. Conhecemos Federativa que chega a desembolsar R$. 90.000,00 (noventa mil reais); isso mesmo! 90 mil, para promover evento destinado a 3, 4, 5.000 (cinco mil) pessoas. A pergunta que não quer calar é: será que o Espiritismo necessita desses eventos "grandiosos"? Cobrar taxa em eventos espíritas é incorrer nos mesmíssimos e seculares erros da Igreja, que, ainda, hoje, cobra todo tipo de serviço que presta à sociedade. É a elitização da cultura doutrinária.
Sobre isso, Divaldo Franco elucida na Revista O Espírita, edição de 1992, o seguinte: “é lentamente que os vícios penetram nos organismos individuais e coletivos da sociedade. A cobrança desta e daquela natureza, repetindo velhos erros das religiões ortodoxas do passado, caracteriza-se ambição injustificável, induzindo-nos a erros que se podem agravar e de difícil erradicação futura. Temos responsabilidade com a Casa Espírita, deveres para com ela, para com o próximo e, entre esses deveres, o da divulgação ressalta como uma das mais belas expressões da caridade que podemos fazer ao Espiritismo, conforme conceitua Emmanuel, através da mediunidade abençoada de Chico Xavier. Nos eventos essencialmente espíritas, deveremos nós, os militantes na doutrina, assumir as responsabilidades, evitando criar constrangimentos naqueles que, de uma ou de outra maneira, necessitem de beneficiar-se para, em assimilando a doutrina, libertarem-se do jogo das paixões, encontrando a verdade. O dar de graça, conforme de graça nos chega, é determinação evangélica que não pode ser esquecida, e qualquer tentativa de elitização da cultura doutrinária, a detrimento da generalização do ensino a todas as criaturas, é um desvio intolerável em nosso comportamento espírita.” (3)
As Federativas Espíritas devem envidar todos os esforços para que não haja a necessidade de qualquer cobrança de taxa de inscrição dos participantes de Congressos, exceto em casos extremos (o que não é desejável obviamente), procurando fazer frente aos custos do evento. Para esse mister devem buscar viabilizar, previamente, os recursos financeiros através de cotização espontânea de confrades bem aquinhoados. Realizar promoções, doutrinariamente, recomendáveis para angariar fundos. Os dirigentes devem preservar o Espiritismo contra os programas marginais, atraentes e, aparentemente, fraternistas, que nos desviam da rota legítima para as falsas veredas em que fulguram nomes pomposos e siglas variadas.
A Doutrina Espírita é o convite à liberdade de pensamento, tem movimento próprio, por isso, urge deixar fluir naturalmente, seguindo-lhe a direção que repousa, invariavelmente, nas mãos do Cristo. Chico Xavier já advertia, em 1977, que "É preciso fugir da tendência à ‘elitização’ no seio do movimento espírita (...) o Espiritismo veio para o povo. É indispensável que o estudemos junto com as massas mais humildes, social e intelectualmente falando, e deles nos aproximarmos (...). Se não nos precavermos, daqui a pouco, estaremos em nossas Casas Espíritas, apenas, falando e explicando o Evangelho de Cristo às pessoas laureadas por títulos acadêmicos ou intelectuais (...).” (4)

Não reprovamos os Congressos, Simpósios, Seminários, encontros necessários à divulgação e à troca de experiências, mas, a Doutrina Espírita não pode se trancar nas salas de convenções luxuosas, não se enclausurar nos anfiteatros acadêmicos e nem se escravizar a grupos fechados. À semelhança do Cristianismo, dos tempos apostólicos, o Espiritismo é dos Centros Espíritas simples, localizados nos morros, nas favelas, nos subúrbios, nas periferias e cidades satélites de Brasília; e não nos venham com a retórica vazia de que estamos propondo, neste artigo, alguma coisa que lembre um tipo de “elitismo às avessas”. Graças a Deus (!), há muitos Centros Espíritas bem dirigidos em vários municípios do País. Por causa desses Núcleos Espíritas e médiuns humildes, o Espiritismo haverá de se manter simples e coerente, no Brasil e, quiçá, no Mundo, conforme os Benfeitores do Senhor o entregaram a Allan Kardec. Assim, esperamos!

Jorge Hessen
http://jorgehessen.net/
jorgehessen@gmail.com

Fontes:
(1) Cf. Entrevista concedida ao Dr. Jarbas Leone Varanda e publicada no jornal uberabense O Triângulo Espírita, de 20 de março de 1977, e publicada no Livro intitulado Encontro no Tempo, org. Hércio M.C. Arantes, Editora IDE/SP/1979
(2) Editorial da Revista O Espírita, ano 11 numero 57-jan/mar/90.
(3) Revista O Espírita/DF, ano 1992- Página “Tribuna Espírita” –Divaldo Responde- pag. 16
(4) Entrevista concedida ao Dr. Jarbas Leone Varanda e publicada no jornal uberabense O Triângulo Espírita, de 20 de março de 1977, e publicada no Livro intitulado Encontro no Tempo, org. Hércio M.C. Arantes, Editora IDE/SP/1979.

Leia mais: http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com/2010/03/industrializacao-de-eventos-espiritas.html#ixzz0ifSyC3NJ




O ESPIRITISMO PRECISA VOLTAR À SUA ORIGEM - A SIMPLICIDADE

A Doutrina Espírita, como princípio de uma Nova Ordem mundial, no campo dos projetos espirituais, é inexpugnável em qualquer quadrante do Orbe. Porém, lamentavelmente, o movimento Espírita é muito fracionado. Cada qual quer fazer um "espiritismo particular". Muitas lideranças doutrinárias complicam conteúdos que deveriam ser simples. Coincidentemente, o Cristianismo, durante os três primeiros séculos, era, absurdamente, diferente do Cristianismo oficializado pelo Estado Romano, no Século V. O brilho translúcido, nascido na Galiléia, aos poucos, foi esmaecendo, até culminar nas densas brumas medievais. O que observamos, no movimento Espírita atual, é a reedição da desfiguração do projeto inicial, de 1857. Os comprometidos com o princípio unificacionista brasileiro precisam manter cautela para não perderem o foco do Projeto Espírita Codificado por Allan Kardec, engendrando motivos à separatividade entre os adeptos da doutrina. Recordemos que a alma do Cristianismo puro estava estuante nas cidades de Nazaré, Jericó, Cafarnaum, Betsaida, dentre outras, e era diferente daquele Cristianismo das querelas e intrigas de Jerusalém.

O Espiritismo está sendo invadido pelo joio, extremamente prejudicial à realidade que a doutrina encerra, uma vez que vários pretensos seguidores/dirigentes introduzem perigosos modismos à prática Espírita, com inócuas terapias desobsessivas e, como se não bastasse, por mera vaidade, ostentam a insana idéia de superioridade sobre Kardec, alegando que o Codificar está ultrapassado. Será crível que Kardec imaginou esse tipo de movimento Espírita? Ah! Que falta nos fazem os baluartes da simplicidade kardeciana, Bezerra, Eurípedes, Zilda Gama, Frederico Junior, Sayão, Bitencourt Sampaio, Guillon Ribeiro, Manoel Quintão!

Estamos convencidos de que o Espiritismo sonhado por Kardec era o mesmo Espiritismo que Chico Xavier exemplificou por mais de setenta anos, ou seja, o Espiritismo do Centro Espírita simples, muitas vezes iluminado à luz de lampião; da visita aos necessitados, da distribuição do pão, da "sopa fraterna", da água fluidificada, do Evangelho no Lar. Sim! O grande desafio da Terceira Revelação deve ser o crescimento, sem perder a simplicidade que a caracteriza como revelação.

O evangelho é a frondosa árvore fornecedora dos frutos do amor. Urge entronizar a força da mensagem de Jesus, sem receio dos "kardequiólogos de plantão", os chamados "intelectuais" de nossas fileiras, sem medo das críticas dos espíritas de "gabinete", dos patrulheiros ideológicos que pretendem assumir ou assenhorear as rédeas do movimento Espírita na Pátria do Cruzeiro do Sul.

O movimento Espírita não deveria se organizar à maneira dos movimentos sociais de hoje, sob pena de incentivar hierarquização com recaídas na pretensão vaticanista de infalibilidade. O que os Espíritas precisam é atentar, com mais critério, para os fundamentos doutrinários que nos impele à íntima reforma moral. Nessa tarefa, individual, intransferível e impostergável, está a nossa melhor e obrigatória colaboração para com o avanço moral do Planeta em que vivemos, pois, moralizando-se cada unidade, moraliza-se o conjunto.

Um grande exemplo de espírita anti-burocrático foi Chico Xavier, considerado ultrapassado por muitos pretensos cientificistas ressurgidos das cinzas, do Século XIX, que tiveram, em Torterolli, a enfadonha liderança. Atualmente, jactam-se quais pretensos inovadores, porém, não conseguem acrescentar, sequer, uma palavra nova à Codificação. É urgente, pois, que preservemos o Espiritismo tal qual nos entregaram os Mensageiros do amor, bebendo-lhe a água pura, sem macular-lhe a cristalina fonte. A maior frustração do "Convertido de Damasco" se deu, exatamente, no Aerópago de Atenas, quando os intelectóides, de então, o dispensaram, alegando que haveriam de ouvi-lo em outra oportunidade.

O Espiritismo desejável é aquele das origens, o que nos faz lembrar Jesus, ou seja, o Espiritismo Consolador prometido, o Espiritismo em sua feição pura e simples, o Espiritismo do povo (que hoje não pode pagar taxas e ingressar nos pomposos Congressos que só aguça vaidades), o Espiritismo dos velhos, o Espiritismo das crianças, o Espiritismo da natureza, o Espiritismo "céu aberto". Que tal?

A rigor, a Doutrina Espírita é o convite à liberdade de pensamento, tem movimento próprio, por isso, urge deixar fluir naturalmente, seguindo-lhe a direção que repousa, invariavelmente, nas mãos do Cristo. Chico Xavier já advertia, em 1977, que "É preciso fugir da tendência à 'elitização' no seio do movimento espírita (...) o Espiritismo veio para o povo. É indispensável que o estudemos junto com as massas mais humildes, social e intelectualmente falando, e deles nos aproximarmos (...). Se não nos precavermos, daqui a pouco, estaremos em nossas Casas Espíritas, apenas, falando e explicando o Evangelho de Cristo às pessoas laureadas por títulos acadêmicos ou intelectuais (...)." (1)

Louvemos os congressos, simpósios, seminários, encontros necessários à divulgação e à troca de experiências, mas nunca nos esqueçamos de que a Doutrina Espírita não se tranca nos salões luxuosos, não se enclausura nos anfiteatros acadêmicos e nem se escraviza a grupos fechados. À semelhança do Cristianismo dos tempos apostólicos, o Espiritismo é dos Centros Espíritas simples, localizados nos morros, nas favelas, nos subúrbios e não nos venham com a retórica vazia de que estamos propondo o "elitismo às avessas"!

Graças a Deus (!), há muitos Centros Espíritas bem dirigidos em vários municípios do País. Graças a esses Espíritas e médiuns humildes, o Espiritismo haverá de se manter simples e coerente, no Brasil e, quiçá, no Mundo, conforme os Benfeitores do Senhor o entregaram a Allan Kardec.

Jorge Hessen
E-Mail: jorgehessen@gmail.com
Site: http://jorgehessen.net
Blog: http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com

FONTES:
(1) Entrevista concedida ao Dr. Jarbas Leone Varanda e publicada no jornal uberabense O Triângulo Espírita, de 20 de março de 1977, e publicada no Livro intitulado Encontro no Tempo, org. Hércio M.C. Arantes, Editora IDE/SP/1979.




CONSIDERAÇÕES SOBRE COBRANÇA DE TAXAS EM EVENTOS ESPÍRITAS(*)

No mês de fevereiro de 1994, o Conselho Federativo Estadual da Federação Espírita do Paraná esteve reunido em Curitiba. Na ocasião, dentre os variados assuntos tratados, veio à baila a questão da cobrança de taxa de inscrição em eventos espíritas, prática que vai se tornando comum no Brasil. O Conselho paranaense, então, após catalogar os tipos de promoções doutrinárias mais comuns no Estado, quais sejam, segundo seu entendimento: conferências, seminários e encontros de estudo, considerou que há situações em que determinada promoção pede uma infra-estrutura diferenciada para acolher os participantes, como, por exemplo, estadia, alimentação, apostilas, aluguéis de recintos, o que, por conseguinte, amplia as exigências, inclusive financeiras.
Diante disso, entendeu por bem o colegiado em delinear a seguinte normativa, que deverá funcionar como regra aos órgãos integrantes do sistema federativo (FEP, seus departamentos e as Uniões Regionais Espíritas), e como sugestão de procedimentos aos Centros Espíritas:
1. Patrocinar, apoiar ou promover eventos fundamentalmente espíritas.

2. Os órgãos ou entidades promotoras do evento devem envidar todos os esforços para que não haja a necessidade de eventual cobrança de taxa de inscrição dos participantes, procurando fazer frente aos custos do evento, notadamente para com aqueles que digam respeito diretamente com a parte doutrinária, propriamente dita. Para tanto, planejar a sua realização na data e no intervalo de tempo certo, dentro das reais necessidades do Movimento Espírita local, desconsiderando as pretensões de realizações sem objetivos bem definidos de difusão ou intempestivas. Estruturar o programa primando pela simplicidade, minimizando os custos, sem perder de vista a sua qualidade, dando-lhe local (cidade e auditório), carga horária e infra-estrutura adequada, porém, somente de acordo com o essencial. Buscar viabilizar previamente os recursos financeiros através de cotização espontânea de confrades. Em não sendo suficiente, e para não onerar demasiadamente alguns poucos, realizar promoções doutrinariamente recomendáveis para angariar fundos, com a participação, preliminarmente, da comunidade espírita, e depois, em ainda persistindo a necessidade, da comunidade não-espírita.

3. Quando o evento pretendido efetivamente exija uma infra-estrutura, sem a qual esse fique impraticável, e, por conseguinte, as disponibilidades para cobertura do seu custo essencial ainda apresentem-se insuficientes, mesmo após praticado todo disposto no item anterior, somente aí, então, lançar mão da fixação de valor a ser cobrado a título de inscrição, tendo como parâmetro máximo a verba faltante, tão-somente, e dando a possibilidade de opção por parte daqueles que desejem ou não usufruir de determinados itens da infra-estrutura, como refeição e alojamento, por exemplo, e jamais fazer dela um instrumento impeditivo de, quem quer que seja, participar do evento doutrinário, propriamente entendido (a palestra, o seminário, etc.).

4. Trabalhar o entendimento dos confrades anfitriões de que, em nome da fraternidade cristã, devem propiciar a hospedagem domiciliar dos participantes do evento, dentro das suas possibilidades, especialmente dos que exijam atendimento diferenciado, tais como acompanhados com filhos pequenos; aqueles em idade mais avançada e/ou com dificuldades de saúde, sob dietas alimentares ou medicamentosas especiais; as senhoras grávidas; os que se pressupõem passarem por dificuldades financeiras, etc.

5. Em se tratando de órgão federativo, não promover evento doutrinário com renda em favor de uma determinada instituição social, primeiro porque tal tipo de evento não deve se prestar a isto e, segundo, lembrar que todas as demais organizações também fazem parte do Movimento Espírita e a Federação não pode agir discricionariamente, já que são todas merecedoras por igual. Promover, se assim entendido por bem, eventos próprios para tal fim, de iniciativa e responsabilidade da Instituição, desde que doutrinariamente embasados. Considerar que os fins não justificam os meios.

Clareando ainda mais o documento, deve-se entender, para os fins que ele se propõe:

* Patrocínio: Custeio de um evento para fins de divulgação doutrinária.
* Apoio: Auxílio financeiro e/ou de outra natureza para determinado evento doutrinário.
* Promoção: Propaganda direta ou indireta de eventos doutrinários.

Com tais medidas, sem a pretensão de se ter esgotado o assunto, a Federação Espírita do Paraná espera que a divulgação doutrinária se dê cada vez em maior profusão, sempre em lídimas bases, das quais, as ações administrativas também fazem parte.


ANEXO 03

OS FINS NÃO JUSTIFICAM OS MEIOS

Existe o conceito equivocado de que os fins justificam os meios, principalmente no que diz respeito à captação de recursos financeiros para manterem-se as várias atividades das Instituições Espíritas.

Com base nesse ponto de vista, centros, grupos ou órgãos espíritas têm lançado mão dos mais variados expedientes para conseguir uma receita financeira que atenda suas necessidades.

Enquanto muitos procedem com bom senso e equilíbrio, estruturando tarefas de acordo com as possibilidades do Centro Espírita, sabendo que os vizinhos e o público em geral não têm compromisso assumido com as nossas tarefas de benemerência, razão pela qual entendem que a manutenção destas diz respeito à própria Instituição, outros, no entanto, extrapolam todo e qualquer limite de senso crítico, contrariando até preceitos legais, como o caso de rifas, bingos, tômbolas e similares; ou, vencido algum empecilho legal, resta o desaconselhamento moral dessas práticas.

Também há aqueles que acabam transformando os recintos das Instituições num verdadeiro mercado, com ininterrupto apelo de comercialização de variados produtos.

Outros, ainda, mais "criativos", não titubeiam em apelar ao público em geral, promovendo, não a sã alegria, mas: Semana da Cerveja, Carnaval da Fraternidade, etc. Tudo em nome do Espiritismo e em "prol" do Movimento Espírita.

Torna-se imperioso insistir no mesmo ponto: a finalidade do Movimento Espírita. Movimento Espírita é o resultado do labor dos homens e Espiritismo é a Doutrina dos Espíritos dirigida aos homens. Logo, o Movimento Espírita deve estar para a divulgação da Doutrina Espírita, como a Codificação está para Allan Kardec. Ou seja, a finalidade precípua é difundir a mensagem espírita, laborando com base na Codificação e segundo os seus princípios.

Tanto é assim que, em nossas organizações, estatutariamente está disciplinado que o objetivo da Instituição é "estudo e prática da Doutrina Espírita, organizada por Allan Kardec."

Sem estudo não haverá prática condizente. Para que o adepto do Espiritismo se integre realmente no espírito da Doutrina, exige-se-lhe aprofundamento intelectual e comportamento moral e social adequados.

Urge estudar a Codificação Espírita, comentá-la, difundi-la e vivenciá-la.

Assim, é necessário critério, zelo e vigilância, para não se proceder equivocadamente.

Djalma Montenegro de Farias, Espírito, bem sintetiza a questão: "O dinheiro que tanto faz falta para a materialização da Caridade, em nosso meio, representa algo, mas não é tudo, porque, se verdadeiramente fosse essencial, as Instituições que guardam importâncias vultosas nas Casas Bancárias dos principais países do mundo, estariam realizando prática abençoada do Evangelho pregado pelo Itinerante Galileu.

Cuidemos zelosamente da propaganda do Espiritismo, vivendo os postulados da fé, honrando o Templo Espírita e iluminando as almas que o buscam esfaimadas de pão espiritual, para não incidirmos no velho erro de que os objetivos nobres de socorro justificam os meios pouco elevados que têm sido utilizados".

Por isso, honrar o Espiritismo, consoante o mesmo autor espiritual "é preservá-lo contra os programas marginais, atraentes e aparentemente fraternistas, mas que nos desviam da rota legítima para as falsas veredas em que fulguram nomes pomposos e siglas variadas".

(* )ANEXOS 02 E 03 CONTIDO NAS DIRETRIZES DOUTRINÁRIAS DA FEDERAÇÃO ESPIRITA DO PARANÁ, Publicado na íntegra no item 48/2009 do site http://jorgehessen.net

Jorge Hessen
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HOMENAGENS AO CENTENÁRIO CHICO XAVIER - UMA NECESSÁRIA REFLEXÃO



Chico deve estar tomado pela indignação, no além-túmulo, em face das festividades que estão sendo planejadas para homenageá-lo. Há programação para uma monumental celebração pelo seu centenário, em 2010. Em Brasília, será cobrado, por "pessoa", R$ 120,00 (cento e vinte reais), no mínimo, para a realização de um Congresso. Em Pedro Leopoldo, pretendem erigir um hiper complexo, com grandes pavilhões, construir museus, departamentos diversos, fontes luminosas, cristalinas passarelas de acrílico com a mais alta tecnologia em luzes, laser e neon. Tudo isso, com dinheiro da venda de livros, doações e dinheiro público, cobrando-se ingresso das pessoas nos eventos espíritas, infelizmente!... Em Uberaba, além dos monumentos, dos bustos, dos museus, nas praças e avenidas haverá shows, congressos, festivais, lançamentos... festa.
Chico sempre foi avesso a essas manifestações, e sempre esteve longe dessa idolatria. Dos mais de quatrocentos livros psicografados, todos foram doados, sem quaisquer ônus, para que as editoras e fundações pudessem disseminar a palavra dos mensageiros. Porém, vender livros, atualmente, é um ramo altamente lucrativo, que, infelizmente, tem financiado construções faraônicas, tem custeado viagens e caravanas de doutrinação, e visitas ao exterior, sempre com hospedagens nos mais luxuosos hotéis, é óbvio!!!.
Em Belo Horizonte, estão construindo, ao lado de uma favela, a "Casa de Chico", uma gigantesca e moderna edificação, um verdadeiro palácio arquitetônico, no que serão gastos milhões e milhões de reais, arrecadados da venda exorbitante das obras doadas, um golpe mortal à doutrina do Consolador!
Para homenagear Chico Xavier, deveríamos nos empenhar em minorar o sofrimento dos desvalidos. Ao invés de gastarmos essa dinheirama toda com tamanha soberba, deveríamos aplicá-la em hospitais que estivessem necessitando de mais recursos, em asilos, orfanatos, escolas profissionalizantes, e/ou em inúmeras formas de se exercer a caridade.
A cobrança de taxas para ingresso nos eventos espíritas, sejam eles realizados em qualquer lugar do mundo, é algo absolutamente trágico. Os eventos modestos e produtivos sempre são subestimados e substituídos por congressos, simpósios ou conferências retumbantes, pelo patético prazer de ostentar. Na falta de argumentos que justifiquem o alto preço fixado, são exaltados os títulos e "status" dos ilustres convidados, numa inaceitável elitização da mensagem espírita, que deve ser, por excelência, simples.
Não desconhecemos que todas e quaisquer promoções têm seu custo, sobretudo financeiro. Por isso, os organizadores desses eventos devem, antecipadamente, envidar todos os esforços, no sentido de estudar a viabilidade de eles serem realizados, sem que haja a necessidade de se cobrar taxas para o ingresso dos interessados. Ora, para suportar despesas, é necessário reduzir custos, obviamente, e, em face disso, exige-se um planejamento minucioso, não somente dos gastos, mas quanto ao programa a ser apresentado, à data que dará início ao evento e à sua periodização, com vistas às legítimas necessidades do Movimento Espírita brasileiro, lembrando que o evento deve primar pela simplicidade, sem desconsiderar a sua qualidade, adequando sua logística de acordo com o essencial, e nada mais que isso.
Para esse desiderato, importa captar os recursos com boa antecedência, sobretudo, através do rateio espontâneo entre os companheiros interessados na empreitada. Nada impede que realizem promoções, doutrinariamente corretas, para angariar fundos financeiros, com a participação das instituições espíritas bem dirigidas. Contudo, em nome da difusão doutrinária, algumas instituições tangem nos perigosos jogos da vaidade, realizando congressos, cujos elencos reforçam o palco do estrelismo.
Por oportuno, destacamos aqui o editorial do Jornal Mundo Espírita, da Federação Espírita do Paraná, de Junho de 2002, que alerta: "Impensável (...) se é que há, o caso daquela Instituição que queira promover eventos doutrinários pagos, visando fazer caixa para sustento de suas atividades gerais. Essa também estará muito distante dos parâmetros efetivamente espíritas."(1) Nesses Congressos pagos, objetivando a divulgação do Espiritismo, seus coordenadores sempre justificam tal cobrança, alegando que têm necessidade de recursos materiais e financeiros, sem os quais não atingiriam seus propósitos , aliás, objetivos muito ao gosto da fina flor social.
É claro que não podemos nos esquecer de que, se temos liberdade para pensar e agir, desta ou daquela maneira, há mister de nos mantermos fiéis aos ensinos dos Espíritos. A propósito, recorremos a André Luiz, em "Conduta Espírita", que nos recomenda "não angariar donativos em nossas instituições, para não sermos tomados à conta de PAGAMENTOS POR BENEFÍCIOS".(2) (grifamos) É óbvio que os eventos espíritas têm despesas a serem pagas, mas podemos promover a sua materialização pelas inúmeras alternativas de colaboração espontânea dos profitentes na sua execução. Somos a favor de quem possa contribuir para cobrir os custos com alimentação, material gráfico, hospedagem e outras despesas necessárias ao evento. Que fique bem claro o seguinte: quem não tiver condições financeiras para colaborar, que possa, igualmente, participar do evento.
O que não podemos, e nem devemos fazer, é cobrar por aquilo que oferecemos em nome do Espiritismo. Por isso, recorremos, mais uma vez, a André Luiz, em "Conduta Espírita", onde ele diz: "QUEM SABE SUPORTAR AS PRÓPRIAS RESPONSABILIDADES, DÁ TESTEMUNHO DE FÉ"! (grifamos)
Recordamos um editorial da revista "O Espírita", de jan/mar-93: "A FÉ COMEÇA NOS LÁBIOS, OBRIGATORIAMENTE PASSA PELO BOLSO, PARA SE INSTALAR NO CORAÇÃO". (3)
Será que os consagrados líderes e divulgadores espíritas, que percorrem o País, sabem desses festivais de Congressos pagos? Se têm consciência, e nada fazem, são omissos e a omissão é falta grave ante as Leis de Deus. Sendo verdadeira a última hipótese, transparece o resultado natural das confusas lideranças doutrinárias, salvo raras exceções, que a despeito de terem um bom patrimônio teórico, falta-lhes o que sobrava em Chico Xavier: modéstia.
É por essas e outras que muitos eventos "grandiosos" remetem médiuns, escritores e oradores, em número expressivo, ligados à tarefa de divulgação, a se perderem, "sutilmente", no exibicionismo, no estrelismo e na tosca vaidade, quando deveriam experimentar a humildade e o esquecimento de si mesmos , para ensinarem, com segurança, a todos os que neles buscam lições.
Chico deve estar tomado pela indignação, no além-túmulo, e com razão.

Jorge Hessen
E-Mail: jorgehessen@gmail.com
Site: http://jorgehessen.net
FONTES:
(1) Editorial do Jornal Mundo Espírita, da Federação Espírita do Paraná, publicado em Junho de 2002
(2) Vieira ,Waldo. Conduta Espírita, Ditado pelo Espírito André Luiz, RJ: Ed FEB, 2001
(3) Editorial da revista "O Espírita" de Brasília edição de jan/mar-93

03 maio 2011

CONSIDERAÇÕES ESPÍRITAS SOBRE A EPIDÊMICA PRÁTICA PSICO-SOCIAL DO BULLYING

Na chacina de Realengo, na cidade do Rio de Janeiro, meninos e meninas ficaram irmanados num trágico destino. Suas vidas foram prematuramente ceifadas num episódio de insonhável bestialidade. Jornais, redes de TV, revistas, rádios e Internet noticiaram o crime horroroso ocorrido na Escola Municipal Tasso da Silveira. É um episódio para cujas causas não há como permanecermos estáticos na busca de entendimento.
Wellington, embora com a mente arruinada e razão obliterada, fez sua opção de atirar contra jovens estudantes. Na fita gravada, alegou ter sofrido bullying, anos antes, na mesma escola; porém, poderia ter superado o trauma de antanho. Ainda que admitamos sua provável subjugação por seres espirituais perversos, a responsabilidade da decisão recai integralmente sobre  ele.
No entanto, não é muito simples explanar o fato, e  para esse mister,  recorremos aos ditames da Justiça de Deus, visando minimizar ao máximo as dores dos familiares que ainda choram a ausência brutal dos filhinhos. Cabe refletir que não há como concebermos injustiça nos Estatutos do Criador. Sobre os alunos alvejados é perfeitamente plausível que as causas para um desfecho tão assombroso estejam conectadas a ressarcimento de dívida do pretérito, ou decisão voluntária do espírito de sacrifício pessoal, visando auxiliar na construção de um projeto social mais profundo sobre a violência urbana.
Cremos que tanto a psicologia como as outras áreas do saber acadêmico não conseguirão aclarar razões para a trágica ocorrência. Nem é de bom parecer acomodar-nos com anotações racionalizadoras das ciências sociais. Entretanto, podemos nos valer dos conceitos espíritas que nos induzem à certeza de que fatalidade e acaso inexistem nas experiências humanas.
Um fato é inconteste: Wellington protagonizou uma das maiores barbaridades da História. Será que a crueldade humana deriva da carência de senso moral? Dizem os Espíritos que “o senso moral pode não estar desenvolvido no homem cruel, mas não está ausente; porque ele existe, em princípio, em todos os homens; é esse senso moral que os transforma mais tarde em seres bons e humanos. Ele existe no selvagem como o princípio do aroma no botão de uma flor que ainda não se abriu.”(1)
O macabro assunto tem motivado alguns debates sobre a questão da segurança nas escolas. Em cada discussão um tema é citado com insistência: o bullying, que tem sido discutido com pujantes cores por especialistas das áreas do direito, da psicologia, da medicina, da sociologia, da pedagogia e outras. A prática de bullying começou a ser pesquisada há cerca de 10 anos na Europa, quando descobriram que essa forma de violência estava por trás de muitas tentativas de homicídio e suicídio de adolescentes.
O termo bullying é derivado do verbo inglês bully, que significa usar a superioridade física para intimidar alguém. Também adota aspecto de adjetivo, referindo-se a “valentão” e "pit bull". As vítimas são os indivíduos considerados mais fracos e frágeis dessa relação, transformados em objeto de diversão e prazer por meio de “chacotas” maldosas e intimidadoras. É considerada uma questão de saúde pública e de segurança social.
O fenômeno é uma epidemia psico-social e pode ter consequências graves. O que, à primeira vista, pode parecer um simples apelido inofensivo, pode afetar emocional e fisicamente o alvo da ofensa. Crianças e adolescentes que sofrem humilhações racistas, difamatórias ou separatistas podem ter queda do rendimento escolar, somatizar o sofrimento em doenças psicossomáticas e sofrer de algum tipo de trauma que influencie traços da personalidade. Tem sido responsável pelos altos índices de evasão e repetência escolar uma vez que o aluno não vê a escola como local de aprendizado, mas como um ambiente hostil.


Na panorâmica do mundo atual, observamos  jovens que não têm compostura, são violentos e fazem de tudo para conquistar seus objetivos, tripudiando e passando por cima de tudo e de todos, achando que os fins justificam os meios. No século XIX, Allan Kardec levantou a questão da violência urbana e indagou os Espíritos - “como pode dar-se que no seio da mais adiantada civilização se encontrem seres às vezes tão cruéis quanto os selvagens?” Os Benfeitores responderam: “do mesmo modo que numa arvore carregada de bons frutos se encontram frutos estragados. São, se quiseres, selvagens que da civilização só tem a aparência, lobos extraviados em meio de cordeiros. Espíritos de ordem inferior e muito atrasados podem encarnar entre homens adiantados, na expectativa de também se adiantarem; contudo, se a prova for muito pesada, vai predominar a natureza primitiva.”(2)
Os filhos, quando crianças, registram em seu psiquismo todas as atitudes dos pais, tanto as boas quanto as más, manifestadas na intimidade do lar. Por esta razão, os pais devem estar sempre atentos e, incansavelmente, buscando um diálogo franco com os filhos, sobretudo amando-os, independentemente de como se situam na escala evolutiva.
Não há dúvida que há muitos espíritos primários reencarnados na Terra. Por isso os pais devem ter cuidado redobrado com a disciplina dos mesmos, reforçando na intimidade doméstica os exemplos de moralidade. Pais, avós e professores formam os grupos encarregados da educação. Não se pode permitir que esses Espíritos reencarnados sejam entregues simplesmente às mãos de funcionários, ou sob a estranha tutela da televisão, das redes sociais da Internet e de violentos jogos eletrônicos.
Crianças as quais são criadas dentro de padrões de liberalidade excessiva, sem limites, sem noções de responsabilidade, sem disciplina, sem religião e muitas vezes sem amor, serão aquelas com maior tendência aos comportamentos agressivos, tais como o bullying, pois foram mal acostumadas e por isso esperam que todos façam as suas vontades e atendam sempre às suas ordens."A criança livre é a semente do celerado. A própria reencarnação se constitui, em si mesma, restrição considerável à independência absoluta da alma necessitada de expiação e corretivo".(3)
O Espiritismo não nomeia soluções peculiares, refreando ou regulamentando cada atitude, nem dita fórmulas ilusionistas de bom comportamento aos jovens. Elege consentir, em toda sua amplitude, os dispositivos da lei divina, que asseguram a todos o direito de escolha (o livre-arbítrio) e a responsabilidade consequente de seus atos.
Desde os primeiros anos, devemos ensinar a criança a fugir do abismo da liberdade, controlando-lhe as atitudes e concentrando-lhe as posições mentais, pois que essa é a ocasião mais propícia à edificação das bases de uma vida. É urgente salientar que quando os filhos são rebeldes e incorrigíveis, impermeáveis a todos os processos educativos, "os pais, depois de movimentar todos os processos de amor e de energia no trabalho de orientação educativa deles, que sem descontinuidade da dedicação e do sacrifício, esperem a manifestação da Providência Divina para o esclarecimento dos filhos incorrigíveis, compreendendo que essa manifestação deve chegar através de dores e de provas acerbas, de modo a semear-lhes, com êxito, o campo da compreensão e do sentimento." (4)

 Jorge Hessen
http://jorgehessen.net

Fontes de Referências:

(1)Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001, questão 754
(2)idem questão  755
(3)XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995.
(4)idem.