06 março 2012

POR EFEITO DA CORROSÃO MORAL

 Fato, no mínimo excepcional, aconteceu recentemente, quando o capitão Francesco Schettino, comandante do navio Costa Concórdia, naufragado entre os rochedos da ilha de Giglio, na Itália, abandonou o transatlântico com quatro mil vidas a bordo. A intervenção imperativa do Capitão Gregorio de Falco, da Capitania dos Portos de Livorno – “Vada a bordo, cazzo!” – culminou por fazer de Falco um herói nacional e certamente deve estar acachapando a consciência do poltrão Schettino.
No entanto, de Falco cumpriu simplesmente o seu dever. Por isso, Raffaella, sua esposa, abdicou o título de “herói” do esposo. Para ela “é preocupante que pessoas como meu marido, que simplesmente fazem o seu dever todos os dias, tornem-se de súbito heróis neste país.”.(1)
Não devemos reivindicar pedestais nos panteões terrenos por executarmos bem aquilo o que é nossa obrigação fazer. O que esperar dos médicos servidores dos hospitais públicos se não outra coisa que estejam em seus postos e tratem os pacientes com dignidade? Dos funcionários públicos, almeja-se que não abracem a corrupção nas suas funções. Dos senadores, deputados, vereadores, governadores, prefeitos, que trabalhem em nome da população.
Segundo estatísticas oficiais, o Brasil é um dos países campeões mundiais em corrupção, fazendo associação a determinados países africanos diminutos. Que tipo de cobiça descomedida e estúpida está na base da deficiência de caráter capaz de olvidar todos os escrúpulos para com consciência e arremessar-se tão sagazmente no erário do Estado? Urge sacralizar o bem público, pois todos nós somos responsáveis por ele. Se assim o fizermos, não há por que nos alarmar. “Assombro, como diz Raffaella, é chegarmos a ponto de tratar o correto como excepcional, como se a regra fosse prevaricar, omitir, corromper, não fazer.”.(2)
É urgente a invalidação do padrão da improbidade. É imperiosa a quebra de valores invertidos, com o banho de ética, com a recuperação da honestidade. Não só com os homens públicos, porque a corrupção é uma via de mão dupla. Quem se corrompe não se perverte sozinho, mas através de alguém. São caminhos que estão muito contaminados em todos os lugares, nos partidos políticos, na sociedade como um todo, que precisam, verdadeiramente, ser mexidos ou recuperados.
O calão "jeitinho brasileiro", ou levar vantagem a despeito de tudo e de todos, irrompe-se como um desígnio institucionalizado, que se potencializa e se generaliza no contexto da organização social. Não sou o primeiro, o único, ou o último a divulgar esse cortejo de vícios, contudo a mídia, frequentemente, anuncia e expõe tais fatos, francamente abomináveis e com grande repercussão negativa.
Com os escândalos divulgados pela imprensa, constata-se um entrelaçamento crescente e preocupante da administração pública com as atividades delituosas, mediante um sistêmico processo de pressões, chantagens, tráfico de influência, intimidações e corrupções, com a prática do suborno e da propina, dentre outras tramóias morais insonháveis.
Há decomposição moral na política, na polícia, na justiça, na administração pública, na educação, nas diversões públicas, na família, na economia, no âmbito do “Direito”, nos medicamentos, nos discursos/argumentos pseudocientíficos, nas instituições religiosas. Se quisermos viver um cenário social harmônico, devemos nos empenhar para promover uma reforma ética generalizada. É imprescindível a adoção de novos hábitos. Basta de procurar levar vantagem, de fugir dos próprios deveres! Vamos, definitivamente, dar um “chega prá lá” nas mentiras, nas fraudes e na sonegação fiscal. Que se restabeleçam os valores da Ética Cristã e que se revitalize o mundo da honestidade.
"A violência urbana é reflexo natural dos que administram dos gabinetes luxuosos e desviam os valores que pertencem ao povo; a impunidade ensombra a Justiça e instiga novos desmandos. A massa, em geral, se espelha nos personagens eminentes da vida pública e procura, nas ressonâncias no comportamento destes, as próprias justificativas para seus deslizes deliberados.
Na condição de espíritas cristãos sabemos que, para a concepção da "República da Ética Cristã", será necessária uma renovação mental e comportamental, já em curso por força das circunstâncias, mas que pode ser acelerada pela disseminação dos saberes que valorizam a honestidade, a dignidade da vida humana, a natureza e principalmente a nossa realidade espiritual.
Quanto aos pervertidos morais, só carecem inspirar nossa mais intensa comiseração. Certamente não têm plena consciência do equívoco que cometem. Se soubessem das consequências, ainda que com grande chance de escapar da justiça terrena (obviamente não terão análogo fadário em analogia à Justiça divina), agiriam de forma inversa. Até porque, invariavelmente, na atual ou na próxima encarnação, e notadamente no intervalo entre as existências físicas (erraticidade), enfrentarão as árduas consequências de seus atos delinquentes.

Jorge Hessen
http://jorgehessen.net

Referências:
(1)       Disponível em http://www.istoe.com.br/assuntos/editorial/detalhe/187515_OS+HEROIS+E+O+COTIDIANO acesso em 07/03/2012

(2)       idem

03 março 2012

GUERRAS E RUMORES DE GUERRAS

 No dia 25 de maio de 1982, o Skyhawk, um caça-bombardeiro da Força Aérea Argentina, pilotado por Mariano Velasco, investiu contra uma embarcação militar inglesa deixando um saldo de 19 mortos. Dois dias após, o também Skyhawk pilotado por Velasco foi abatido no Estreito de São Carlos, arquipélago no Atlântico Sul, por Neil Wilkinson, artilheiro antiaéreo no navio de combate HMS Intrepid da Inglaterra. O argentino sobreviveu ao saltar de pára-quedas poucos minutos após ser atingido.
Quase três décadas após o fim do confronto entre Argentina e Grã-Bretanha pelas ilhas Malvinas(1), os dois ex-inimigos de guerra viveram um encontro emocionante. "Meglio tardi che mai." Como diz o provérbio italiano ("Antes tarde do que nunca"), Mariano Velasco recebeu em sua casa na província de Córdoba, para um magnificente banquete, o veterano artilheiro inglês Neil Wilkinson. Atualmente, são amigos e se correspondem com certa frequência por e-mail, Facebook ou Skype.
O episódio inevitavelmente nos remete para reflexões sobre a guerra. Qual a base lógica que justifica uma guerra? Os Benfeitores do Além admoestam que a guerra é a “predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e satisfação das paixões”.(2) No transcurso da guerra, predominou entre Velasco e Wilkinson a índole selvagem sobre a espiritual. Hoje, 30 anos depois, a situação é inversa entre os dois ex-combatentes inimigos do front de batalha. Infelizmente, o “caso Velasco / Wilkinson” é uma raríssima exceção, pois nem sempre esse é o desfecho entre ex-inimigos de guerra.
Combates militares existem há mais de 5 mil anos, desde os primitivos embates entre os Mesopotâmios, entre gregos e persas, entre Atenas e Esparta, entre Roma e Cartago. Mais recente ocorreram a Primeira e Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Coreia, do Vietnã, do Golfo, e entre Israelitas e Palestinos. Os recentes conflitos armados entre a Coreia do Sul e a do Norte e os ataques ao Afeganistão, após os atentados terroristas suicidas a Washington e Nova York, em 11 de setembro de 2001.
Desde eras remotas o império dos maus de ordinário reprime a força dos bons, porque os bons se fazem fracos. “Os maus são intrigantes e audaciosos; os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, haverão de preponderar”.(3) "Épocas de lutas amargas, desde os primeiros anos do século XX, a guerra se aninhou com caráter permanente em quase todas as regiões do planeta. A Liga das Nações, o Tratado de Versalhes, bem como todos os pactos de segurança da paz, não têm sido senão fenômenos da própria guerra, que somente terminarão com o apogeu dessas lutas fratricidas, no processo de seleção final das expressões espirituais da vida terrestre.".(4)
O Século XX, recentemente findo, foi o século mais sangrento de todos os anteriores. Após a Segunda Guerra Mundial, já ocorreram 160 conflitos bélicos, resultando em 40 milhões de mortos. Se contabilizarmos os resultados dessas paixões primitivas desde 1914, estes números sobem para 401 guerras e 187 milhões de mortos, numa projeção bem superficial.
Os Estados Unidos da América detêm o maior poder bélico do planeta. Seus orçamentos em armamentos ultrapassam os US $ 320 bilhões. Rússia e China gastam US $ 48 bilhões cada; França consome US $ 38 bilhões; Reino Unido desgasta US $ 35 bilhões; Coreia do Norte gasta US $ 4,7 bilhões; Índia consome US $ 13 bilhões; Paquistão gasta US $ 2,5 bilhões; Coreia do Sul gasta US $ 12 bilhões e, por fim, Israel detona US $ 9,4 bilhões. Juntas, essas nações gastam mais de meio trilhão de dólares com artefatos para exterminar a vida.
O que poderíamos alcançar de valor para a melhoria de vida na Terra com esse montante de dinheiro? A lista é ampla... Entretanto, os líderes dos países acima, assim como os seus partidários, não ambicionam o engrandecimento do orbe e de seus habitantes.
Há milênios entronizamos o debate sobre a razão humana, e permanecemos na guerra da destruição quais irracionais; exaltamos as mais elevadas demonstrações de inteligência, porém engendramos todo o conhecimento para o massacres humanos impiedosos; exaltamos a paz, fabricando os canhões homicidas e as ogivas de destruição em massa; sugerimos soluções para os problemas sociais, intensificando a construção das cadeias e dos prostíbulos. “Esse progresso é o da razão sem a fé, em que os homens se perdem na luta inglória e sem-fim.”(5)
Por felicidade, “à medida que o homem progride, ela se torna menos frequente, porque lhe evita as causas e, quando é necessária, sabe aliá-la à humanidade.”.(6) Cremos que a guerra desaparecerá um dia da face da Terra, “quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus; então todos os povos serão irmãos.”(7)
Jesus nos deixou, há dois milênios, a grande lição do amor, a fim de que chegássemos ao estágio de perfeita harmonia entre os homens. O Príncipe da Paz ensinou: "Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei".(8) Deste modo, não ouviremos mais falar de guerras e nem rumores de guerra.
Jorge Hessen
http://jorge hessen

Referências bibliográficas:
(1)    Falklands (para os britânicos)
(2)    Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2000 Perg. 742
(3)    idem Perg. 932
(4)    Xavier, Francisco Cândido. A Caminho da Luz, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB 1987
(5)    Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB , 1999, Perg 199
(6)    Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2000 Perg. 742
(7)    idem Perg. 743

29 fevereiro 2012

NASCIDO EM TARSO, RENASCIDO NAS VIAS DE DAMASCO

Saulo nasceu entre os anos 5 e 10 d.C.(1) em Tarso, província de Mersin, na zona meridional da Turquia central. Era descendente de uma respeitável e rica família de judeus da Diáspora.(2) Seu nome representava um tributo a Saul, primeiro rei judeu, consistindo, porém, a palavra Saulo na tradução para o grego. Possuía a cidadania romana, o que lhe conferia uma situação legal privilegiada. Sua formação rabínica foi iniciada aos 14 anos de idade, em Jerusalém, sob um costume rígido por efeito das normas dos fariseus e exercitado a ter o orgulho racial, condição peculiar aos judeus da antiguidade. É importante pronunciar, porém, que sua inteligência espiritual foi moldada sob os toques da instrução de Gamaliel, um dos maiores catedráticos nos anais do Judaísmo.
Imbuído de extrema retidão para com a sua fé, acuava os primeiros discípulos de Jesus na região de Jerusalém. Certa ocasião, sentindo-se gravemente insultado por Estevão, na Casa do Caminho, deu início à violenta perseguição aos cristãos, culminando com a lapidação e extermínio do próprio Estevão(3), irmão de sua noiva Abigail.
Durante planificada viagem para encalço de Ananias, homem que influenciou as idéias da noiva, Saulo, no auge dos 25 anos de idade, teve uma clarividência do Mestre envolto em intensa luz. Aquele fenômeno ocorrido na via que conduzia a Damasco deixou-lhe cego; todavia foi socorrido pelo azado Ananias que lhe recuperou a visão. A partir daí, é impressionante a conversão de Saulo. Ele teve que modificar o conceito que fazia sobre o Cristo e inverter a opinião sobre a supremacia do judaísmo.
Os primeiros cristãos tinham como preceito de fé e prática os estudos das regras do Torá (Pentateuco de Moisés), normalmente na versão grega (Septuaginta) ou a tradução aramaica (Targum). Indignado com aquela conjuntura, Saulo asseverou que recebeu as "Boas Novas" por uma revelação pessoal de Jesus Cristo, razão pela qual se entendia independente da comunidade de Jerusalém, conquanto alegasse sua concordância com a essência do conteúdo das lições.
Os ensinamentos paulinos são fortemente desiguais dos princípios originais de Jesus, anotados pelos evangelistas. Alguns analistas garantem que o Apóstolo de Tarso sintetizou o judaísmo, o gnosticismo(4) e o misticismo(5) para um Cristianismo como uma religião com um “salvador” cósmico.
O Espírito Emmanuel afirma que “no trabalho de redação dos Evangelhos, que constituem o portentoso alicerce do Cristianismo, verificavam-se, algumas dificuldades para que se lhes desse o precioso caráter universalista. Todos os Apóstolos do Mestre haviam saído do teatro humilde de seus gloriosos ensinamentos; mas, se esses pescadores valorosos eram elevados Espíritos em missão, estavam muito longe da situação de espiritualidade do Mestre, sofrendo as influências do meio a que foram conduzidos.”(6)
É fato! Basta verificar o seguinte: Mateus escreveu para convencer os judeus que Jesus era o Messias que estava por vir, desta forma enfatizou o Antigo Testamento e as profecias a respeito desse ungido; Marcos, sobrinho de Barnabé e “filho” adotado de Pedro, escreveu para evangelizar, mormente os romanos, relatou somente quatro das parábolas de Jesus, enfatizando especialmente as atuações de Jesus; Lucas (não conheceu Jesus pessoalmente) escreveu para os gentios, enfatizando a misericórdia de Deus através da “salvação”, sobretudo para os pobres e humildes de coração, e João (sobrinho da Mãe de Jesus) escreveu num contexto mais vasto a propósito da missão do Mestre.
Depois do martírio do Gólgota, discípulos e apóstolos do Mestre, de modo geral, começaram a contemporizar com a autoridade do judaísmo. Emmanuel explana que “quase todos os núcleos organizados, da doutrina, pretenderam guardar feição aristocrática, em face das novas igrejas e associações que se fundavam nos mais diversos pontos do mundo.”.(7) Em razão dessa anomalia doutrinária, Jesus resolveu convidar “o espírito luminoso e enérgico de Saulo de Tarso ao exercício do seu ministério.”. (8) Essa determinação foi uma ocorrência das mais expressivas na história do Cristianismo. As atitudes, atuações e missivas de Paulo consubstanciaram-se em decisivo componente de universalização da Doutrina Cristã.
Paulo transformou as crenças religiosas e a filosofia de toda a região da bacia do Mediterrâneo (Sul da Europa, Norte da África, zona mais ocidental da Ásia, Oriente Próximo). Nas viagens missionárias percorreu cerca de 16.000 km, a pé ou de navio. Foram quatro grandes excursões apostólicas: 1ª Viagem (46-48 d.C.); 2ª Viagem (49-52 d.C.); 3ª Viagem (53-57 d.C.); 4ª Viagem (59-62 d.C.), sendo que na última viajou a Roma como prisioneiro, para ser julgado, e nunca mais retornou para a Judéia.
Com ênfase proferiu o Missionário dos Gentios, “fiz muitas viagens - Sofri perigos nos rios e mares, ameaças dos ladrões, riscos por parte dos meus irmãos de raça, perigos por parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos por parte dos falsos irmãos.”.(9) De cidade em cidade, de igreja em igreja, o convertido de Damasco, com o seu admirável prestígio, falou do Mestre, inflamando os corações. “A princípio, estabeleceu-se entre ele e os demais Apóstolos uma penosa situação de incompreensibilidade, mas sua influência providencial teve por fim evitar uma aristocracia injustificável dentro da comunidade cristã, nos seus tempos inesquecíveis de simplicidade e pureza.”.(10)
Curiosamente, o uso do nome Paulo surge pela primeira vez quando ele começou sua primeira jornada missionária. Em “Atos”(11), o Evangelista dos Gentios aparece, juntamente com Barnabé e João Marcos, conversando com Sérgio Paulus, um oficial romano em Chipre que foi convertido por ele. Paulus era um sobrenome romano e alguns argumentam que Paulo o adotou como seu primeiro nome. Há os que consideram admissível a homenagem a Sérgio Paulus, mas, provavelmente a mudança pode estar relacionada ao desejo do apóstolo em se distanciar da história do rei Saul.
Paulo, ao levar o Cristianismo a outros povos, não exigia a circuncisão desses novos cristãos. Diante disso, os discípulos de Jerusalém se reuniram em torno de Tiago para fazer valer a obrigatoriedade da circuncisão. O apóstolo de Tarso foi a Jerusalém para discutir o assunto. Em sua epístola, declara que foi neste encontro que Pedro, Tiago e João aceitaram a sua missão junto aos gentios.(12) Apesar do acordo encontrado na reunião de Jerusalém, o Convertido de Damasco confrontou publicamente Pedro, no que ficou conhecido como "Incidente em Antioquia", por causa da relutância do ex-pescador em realizar suas refeições com os cristãos gentios em Antioquia.
Escrevendo posteriormente sobre o incidente, relata: “Se tu [Pedro], sendo judeu, vives como gentio, e não como judeu, como obrigas os gentios a viver como os judeus?”.(13) Barnabé, que até aquele momento era companheiro de viagem de Paulo, ficou do lado de Pedro. Conquanto abandonado, Paulo não desistia, e foi um constante formador de missionários(as) e de equipes missionárias itinerantes. As suas cartas e Atos citam os nomes de 63 missionários(as).
Na sua ética, não permitiu o mercantilismo do Cristianismo. Pregou o Evangelho gratuitamente(14) e justificou essa atitude: “Pregamos o Evangelho a vocês, trabalhando de dia e de noite, a fim de não sermos de peso para ninguém”.(15) Até porque “tudo posso naquele que me fortalece”.(16)
Paulo partiu para Jerusalém em 57 com uma coleta de dinheiro que realizou para atender as vítimas da grande fome que ocorreu na Judéia. Viajou para a Casa do Caminho para entregar a ajuda financeira da igreja de Antioquia, igreja essa que já era um centro importante para os fiéis após a dispersão dos discípulos de Jesus que se seguiu ao martírio de Estevão, e foi aí em Antioquia que os seguidores de Jesus foram, pela primeira vez, chamados de cristãos, por sugestão de Lucas.
Paulo foi implacável contra a circuncisão, contra as restrições alimentares e contra os requerimentos da Tora(17), e isto provocou o rompimento final com os judeus. Foi notadamente acossado pelos judeus, que o consideravam um grande infiel. Na sua derradeira ida a Jerusalém, o filho de Tarso causou um alvoroço ao aparecer no Templo, e somente escapou da morte por ter sido preso. Ele foi então mantido encarcerado por quase 2 anos em Cesareia até que um novo governador reabrisse seu processo em 59 d.C. Paulo foi acusado de traição, por isso recorreu a César, alegando seu direito, como cidadão romano, de ser levado a um tribunal apropriado e de se defender das acusações.
Foi enviado para a capital do Império Romano por volta do ano 60; passou mais 2 anos em prisão domiciliar. No caminho para Roma, Paulo sofreu um naufrágio em "Melite" (Malta). Apesar de não ter sido o introdutor do Cristianismo em Roma, pois já havia cristãos na capital do Império, quando aí chegou teve um desempenho importante na formação da Igreja na capital de César.
O noivo de Abigail, em face dos seus sobre-humanos testemunhos, desabafou: “eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim.”.(18) “Dos judeus recebi cinco chicotadas menos uma. Fui flagelado três vezes; uma vez fui apedrejado; três vezes naufraguei; passei um dia e uma noite em alto mar...”(19). Pressagiou ao discípulo Timóteo: “Meu sangue está para ser derramado, chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé...”.(20).
Paulo foi decapitado na Via Apia, em Roma, pela soldadesca romana nos primeiros meses do ano 67, durante a perseguição do insano imperador Nero. Nessa conjuntura, o Apóstolo dos Gentios transportava a experiência de 59 anos de idade, sendo que 30 deles dedicados a intensa vida missionária, dos quais cerca de seis anos amargou prisões, açoites, apedrejamentos e, por fim, o fio da espada amaldiçoada do famigerado soldado de César.
Descreve Emmanuel(21) que no momento da desencarnação, Paulo sentia a angústia das derradeiras repercussões físicas; mas, em poucos minutos, experimentou alívio reparador. Tomado de surpresa, foi recebido por Ananias, que o transportou a Jerusalém, e ali, foi orar a Jesus para ofertar-lhe o agradecimento. Ananias e Paulo reuniram-se no cimo do Calvário e aí cantaram hinos de esperanças e de luz. Lembrando os erros do passado amarguroso, Paulo de Tarso ajoelhou-se e elevou a Jesus fervorosa súplica.
Desenhou-se então, na tela do Infinito, um quadro de beleza singular e surgiu na amplidão do espaço uma senda luminosa e três vultos que se aproximaram radiantes. O Mestre estava ao centro, conservando Estevão à direita e Abigail ao lado do coração. O Mestre sorriu, indulgente e carinhoso, e falou:
- Sim, Paulo, sê feliz! Vem, agora, a meus braços, pois é da vontade de meu Pai que os verdugos e os mártires se reúnam, para sempre, no meu reino!...
E assim unidos, ditosos, os fiéis trabalhadores do Evangelho da redenção seguiram as pegadas do Cristo, em demanda às esferas da Verdade e da Luz...




Referências bibliográficas:

(1) Alguns afirmam ano 8 d.C.
(2) Dispersão
(3) Nome grego sugerido por Pedro a Jeziel , que se tornou o primeiro mártir do Cristianismo.
(4) Conjunto de correntes filosófico-religiosas sincréticas que chegaram a mimetizar-se com o Cristianismo primitivo
(5) Busca da comunhão com a identidade, com, consciente ou consciência de uma derradeira realidade, divindade, verdade espiritual, ou Deus através da experiência direta ou intuitiva
(6) Xavier, Francisco Cândido. A Caminho da Luz, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1977
(7) idem
(8) idem
(9) 2Cor 11,26
(10) _______, Francisco Cândido. A Caminho da Luz, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1977
(11) Atos 13:6-13
(12) Essa primeira magna reunião cristã foi muito importante para o início do cristianismo, porque teve como principal objetivo discutir a incompatibilidade da doutrina nascente com as regras antigas da Sinagoga. Foi o marco do desligamento do Cristianismo do judaísmo e confirmou o ingresso dos não-judeus na cristandade.
(13) Gálatas 2:11-14
(14) 1Cor 9,18
(15) 1Ts 2,9
(16) Filipenses 4,13
(17) O Cristianismo baseado na tradução grega Septuaginta também conhece a Torá como Pentateuco, que constitui os  cinco primeiros livros do Velho Testamento.
(18) Gálatas 2,20
(19) 2Cor 11,24-25
(20) 2Timóteo 4,6-7
21) Xavier, Francisco Cândido. Paulo e Estevão, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1990



26 fevereiro 2012

NÃO HÁ EFEITO SEM CAUSA, LOGO, DEUS EXISTE!


Deus é a Inteligência Suprema, Causa Primária de tudo
Todos nós trazemos na consciência um importante e gigantesco espaço reservado para Deus. Há porém, pessoas que imaginam poder expulsá-Lo de suas vidas. Ao enumerar pensadores de ampla influência na sociedade, encontramos uma confraria de intelectuais, arautos do mote anti-Deus, qual Karl Marx, para quem a religião era o ópio do povo; Sigmund Freud que considerava a fé uma manifestação de infantilismo, Friedrich Nietzsche que teve a ousadia de decretar a “morte” de Deus.
Atualmente existem outros que permanecem recusando a existência do Criador, a exemplo do biólogo Richard Dawkins, que escreveu o livro “Deus, um delírio”. Nessa esteira ateia, o Diretor do Projeto Genoma, Francis Collins escreveu o livro “A linguagem de Deus”. A Ciência sempre negou o Deus “teológico” porque Ele seria um tipo de protótipo correspondente exclusivamente à criatura humana, a ponto de tê-la criado à sua imagem e semelhança, o que, por si, não recomenda nada este Criador. O homem teria sido feito a partir de um modelo cheio de defeitos desde os morais até os físicos.
Em 1921, inquirido pelo rabino H. Goldstein, de New York, se acreditava em Deus, Albert Einstein redargüiu: "Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens".(1)
No final do Século XIX, Kelvin, expoente e considerado o “Pai” da Termodinâmica(2), foi categórico em sua declaração: Acabou, Chegamos ao zênite! a ciência já sabe como estudar o movimento, a eletricidade e o magnetismo; não há nada além desses universos físicos. Entretanto, poucos anos depois desvendaram o átomo, o elétron e, já no começo do século XX, Albert Einstein instituiu a Teoria da Relatividade.(3) A cada desvendar científico sobre o ilimitado macro e micro cosmo assinala-se a certeza de que a vida universal oferece enigmas maiores e mais profundos sobre sua verdadeira essência, transtornando a hegemônica e materialista inteligência científica.
Como nem todo pesquisador é ateu, materialista e presunçoso, importa fazer referência a um livro de expressiva importância científica – “A Partícula de Deus” – publicado nos Estados Unidos pelo físico Leon Lederman, Prêmio Nobel em 1988, em que defende a tese de que Deus existe e está na origem de todas as coisas. O desempenho de investigação do físico holandês, Willem B. Drees, autor de “Além do Big Bang – Cosmologia Quântica e Deus”, demonstra com clareza que há um empenho crescente pela inquirição científica, fundamentado na certeza da existência de Deus.
Marcos Eberlin, presidente da Sociedade Internacional de Espectrometria de Massas e membro da Academia Brasileira de Ciências(4), sustenta a Teoria do Design Inteligente. Assegura que adota uma metodologia científica robusta capaz de detectar sinais de inteligência na vida e no universo. Para ele, Deus é uma mente inteligente (causa primeira da vida) e consciente, único agente conhecido, necessário e suficiente para a vida e o Cosmo. Ou seja, o design detectado no universo e na vida não é aparente ou ilusório, mas real e inteligente. O físico americano Paul Davies, no seu livro intitulado Deus e a Nova Física, afirma, categoricamente, que o Universo foi desenhado por uma inteligente consciência cósmica.
Eberlin assume que a Vida é fenômeno de Deus, sobretudo ao nível molecular, em que constatamos ainda mais claramente as assinaturas da mente inteligente e consciente do Grande Regente (Deus), que orquestrou os diversos códigos e a informação zipada, encriptada e compartimentalizada do DNA, tipo hard-disk. A arquitetura top-down algorítmica da vida, sua lógica é estonteante e hiperotimizada.
A descoberta da "partícula de Deus" poderia completar os elementos essenciais do chamado Modelo Clássico da física, derivado da labuta de Albert Einstein e seus herdeiros no começo do século 20, e que abriu caminho para a "nova física". Nessa direção quase transcendental da física, os cientistas já conseguiram até mesmo capturar átomos de antimatéria por mais de 16 minutos. A antimatéria é um dos grandes mistérios ainda não completamente explicados pelas teorias modernas da física.
Um átomo se compõe de diversas partículas elementares (o elétron, o próton, o nêutron e outras mais), algumas leves e outras pesadas. A existência de méson (uma partícula intermediária) entre as leves (léptons) e as pesadas (hadrons), segundo se diz, tem a finalidade exatamente de estruturar o átomo. O méson (é um bóson) tem um comando para que possa atuar em sua devida função. Para Yukawa, descobridor do méson, este seria o elo entre a vida material do átomo e o seu respectivo estruturador.(5)
O bóson de Higgs, ou “Partícula de Deus”, supostamente garante massa a todas as demais; seria teoricamente a última fronteira não resolvida pela física. Explicaria como os átomos ganharam massa, dando origem à matéria. Para alguns aventureiros, se ficasse comprovada a existência do famigerado Bóson de Higgs, a teoria do “Deus criador” ruiria por terra, já que ficaria evidenciado que não haveria a necessidade de nenhum agente espiritual divino para a formação do mundo.
É atitude aparvalhada e destituída de sensatez a caça da partícula “Deus” nos confins da matéria e no interior do “Campo Higgs”. Ora, Deus não é episódio! Deus é Origem das coisas. Deus É! Puramente É!... Deus se revela em suas obras, como a de um pintor no seu quadro, elucida Allan Kardec, ilustrando que “as obras de Deus não são o próprio Deus, como o quadro não é o pintor que o concebeu e executou.”.(6)
No século XIX, o ínclito Mestre de Lyon indagou aos Espíritos: "Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?”(7) Os Sábios do Além responderam: “Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá".(8)
Incontestavelmente, não há efeito sem causa, e para todo efeito inteligente tem que haver uma causa inteligente; como tal, a matéria não poderia existir sem que houvesse a Inteligência Suprema que atuasse sobre a energia cósmica amorfa e a modulasse, formando suas partículas desde as mais elementares às mais complexas, inclusive, as que permitem transformá-las em seres biológicos. Da megaestrutura dos astros à infra-estrutura subatômica, tudo está mergulhado na substância viva da mente de Deus.
Carl Gustav Jung, num programa de televisão americana, disse que não acreditava em Deus porque sabia que Ele existia!!! Voltaire afirmou que não acreditava nos deuses criados pelos homens, mas sim no Deus Criador do homem. Sócrates nomeava Deus como "A razão perfeita", e o seu educando Platão O designava por "Idéia do bem". "Sendo Deus a essência divina por excelência, unicamente os Espíritos que atingiram o mais alto grau de desmaterialização o podem perceber".(9)
Com a ciência poderemos até mesmo adentrar na intimidade da estrutura atômica, fotografar a célula e extasiar-nos ante a genética. Entretanto, não alcançaremos, sem prejuízos psíquicos e emocionais, deslocar a idéia de Deus em um milímetro de rota. Deus representa claridade de um Sol que ilumina a Inteligência humana, e sem esse Astro Rei portentoso nas vias do conhecimento terreno, perderíamos contato com a magnífica construção da sabedoria.
Jorge Hessen

Referências Bibliográficas:
(1)           Citado em Golgher, I. O Universo Físico e humano e Albert Einstein, B.H: Oficina de Livros, 1991, p. 304.
(2)           Genericamente, calor significa "energia" em trânsito, e dinâmica se relaciona com "movimento". Por isso, em essência, a Termodinâmica estuda o movimento da energia e como a energia cria movimento.
(3)           Muitos historiadores e físicos atribuem a criação da famosa fórmula que explica a relação entre massa e energia ao físico italiano Olinto De Pretto, que, segundo especulações, desenvolveu a fórmula dois anos antes que Albert Einstein, e que teria previsto o seu uso para fins bélicos e catastróficos, como o desenvolvimento de bombas atômicas. Apesar disso, foi Einstein o primeiro a dar corpo à teoria, juntando os diversos fatos até então desconexos e os interpretando corretamente.
(4)           Professor do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico e autor de mais de 300 artigos científicos com mais de três mil citações. Realizou pós-doutorado na Purdue University, Estados Unidos
(5)           Hideki Yukawa Especializado em física atômica e familiarizado com as ferramentas quânticas, propôs em 1935 uma original teoria que explicava a natureza das forças nucleares fortes, fazendo uso de uma partícula, o méson, cuja massa se situa entre os valores do próton e elétron, uma teoria análoga à vigente em eletrodinâmica quântica, que explicava a interação entre cargas elétricas por meio de intercâmbio de fótons. acreditava em Deus, era reencarnacionista e admitia a vida espiritual fora da matéria.
(6)           Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1994, Questão 16
(7)           Questão 4
(8)           idem
(9)           Kardec, Allan. A Gênese, Rio de Janeiro: Ed Feb, 2001, Cap. II - A Providência, item 34.