14 agosto 2012

DESONESTIDADE E ESPIRITISMO NÃO SE COADUNAM

O termo desonestidade é empregado para descrever os atos velhacos, a corrupção, a falta de probidade, a ausência de integridade, o mentir ou ser deliberadamente falaz. O mau caráter é adverso ao decoro; é indecente; é desonrado; é escandaloso e assim vai...
A propósito, será que realmente somos honestos? Não somos mentirosos? Contemporizamos com a rapina, com as fraudes, a sonegação de impostos, a falcatrua. A rigor, ser incorruptível requer disciplina. Ser honesto demanda disciplina moral e ética, fadiga para abater más tendências, diligência por não se consentir desabar na perdição das trapaças.
A desonestidade remete à fantasia instantânea de levar vantagem inescrupulosa, contudo certamente ficaremos a mercê da inevitável cobrança da consciência e não há como enganá-la. A consciência não se corrompe; nela estão assentadas as Leis de Deus, é ela que nos espicaça e traz a realidade das circunstâncias e atos que praticamos quando agindo de má fé, utilizando-nos da infeliz lei do proveito insensato.
Quando alguma pessoa nos indaga se somos incorruptíveis, normalmente a indignação nos invade a mente, só em ajuizar que alguém hesite de que somos honestos. Muitas vezes nos pronunciamos honrados, mas será que verdadeiramente o somos a todo instante ou é só de fachada essa virtude?
Se raspamos ou amassamos involuntariamente um automóvel no estacionamento, cujo dono não está presente, tendemos fugir do local, em vez de colocarmos um aviso do incidente, deixando nosso telefone num bilhete para contato. Quantos são os que não obedecem a ordem de uma fila dos bancos, cinemas, hospitais etc, e arquitetam  meios escusos para ocupar o local reservado aos que chegaram antes?
Habituamos aquilatar negativamente assaltantes vigaristas, homicidas, encarcerados de penitenciária de forma geral. Todavia, será que fora das prisões há superávit de gente honesta? Quantas vezes compramos produtos de origem duvidosa para sonegarmos impostos? Quantas vezes devolvemos o troco que o caixa do supermercado nos deu a mais? Quantos mecânicos de automóveis, técnicos de geladeiras, de televisão, máquinas de lavar, de computadores, mentem para cobrar mais caro?
Quantas vezes estacionamos na vaga de idoso ou deficiente sem sermos um idoso ou deficiente? Quantos usam de sua autoridade para anular multas de trânsito? Quantos bebem alcoólicos e assumem a direção de veículo nas estradas? Não assombra que administradores se apropriem das verbas publicas, e que empresários demitam para terem máximo lucro.
Segundo estatísticas consagradas, o Brasil é um dos países campeões mundiais em corrupção, fazendo associação a determinados países africanos diminutos. Que tipo de ambição exorbitante e estúpida está na base da deficiência de caráter capaz de olvidar todos os escrúpulos para com a consciência e arremessar-se tão sagazmente no cofre do Estado? Não somos o primeiro, o único ou o último a anunciar esse séquito de vícios, contudo a mídia, frequentemente, noticia e expõe tais fatos francamente execráveis e com grande repercussão negativa.
Algumas vezes pronunciamos da tribuna que o verdadeiro espírita é honesto em tudo que faz. Se for presidente de uma casa espírita, precisa apresentar as movimentações financeiras aos frequentadores. É indispensável haver transparência na prestação de contas, mensalmente, com os contribuintes da casa espírita. Cremos que é simples obrigação afixar, no “quadro de avisos” ao público, a comprovação da correta aplicação dos recursos recebidos. Os dirigentes que assim procedem veem patenteadas a credibilidade da instituição que administram e a pureza de suas intenções.
Quando os dirigentes são omissos e não prestam contas, é evidente que ficamos atônitos e envergonhados, principalmente quando sabemos, pela imprensa, que algumas instituições "filantrópicas" desviam recursos, emitem recibos forjados de falsas doações, deixam de pagar impostos etc...
É imperdoável haver instituições que recebem, à guisa de doações, roupas, calçados, alimentos, eletrodomésticos etc, e os administrantes se apropriem delas. É irredimível existir instituições que aceitem doações, até de objetos valiosos, e seus diretores se apropriem das melhores peças antes de os exporem em bazares ditos "beneficentes".
A prudência continua sendo a nossa melhor conselheira. Por questão de consciência ética, sabemos que um autêntico espírita tem que ser fiel aos princípios que a Doutrina dos Espíritos impõe e ter noção de que honestidade é prática obrigatória para todo ser humano, sobretudo para um cristão. Ou será que devemos reivindicar pedestais nos panteões terrenos por executarmos dignamente aquilo o que é nossa obrigação fazer? É imperiosa a quebra de valores invertidos, com o banho de ética, com a recuperação da honestidade.
Na condição de espíritas cristãos, sabemos que, para a consubstanciação da "Pátria do Evangelho", será imperativa uma renovação mental e comportamental urgente no País. Se quisermos viver um panorama social harmônico, devemos nos empenhar para promover uma reforma ética generalizada, entronizando a força da integridade moral.

Jorge Hessen
http://jorgehessen.net

08 agosto 2012

BEBER ALCOÓLICOS É UM FLAGELO SOCIAL

BEBER ALCOÓLICOS É  UM FLAGELO SOCIAL

Se analisarmos atentamente os flagelos da sociedade, na base dos “homicídios”, quase sempre estão ocorrências atreladas ao consumo de álcool. Os tribunais estão abarrotados de processos em face dos delitos oriundos do consumo de alcoólicos. As penitenciárias estão superlotadas por questões vinculadas ao consumo de bebidas alcoólicas. Muitas famílias estão aniquiladas, desestruturadas por causa dos alcoólicos de vários arranjos (destilados ou fermentados), a saber, tequila, vodca, rum, cachaça, gim, cerveja, vinho.
Os alcoólicos não matam a sede, não aquecem no frio, não relaxam músculos. Revoguemos esses e outros mitos de que os alcoólicos podem ser bebidos com moderação – isso quase sempre não é verdade. Sob o escudo das desculpas esfarrapadas, um espantoso número de pessoas tem absolvido a devassidão do consumo de bebidas alcoólicas em suas práticas usuais. Muitos são os paranoicos de plantão que se abeiram da insensatez para afiançar que até mesmo o Cristo bebeu vinho. Nada mais hediondo que essa forma leviana de rebaixar o Mestre até as alamedas de imoralidade e morbidez em que estagiam os viciados.
Beber é histórica e culturalmente considerado um hábito social “inofensivo”, um prazer, uma curtição. Tudo muito irônico, até no escárnio das piadas sobre os bêbados. A rigor, o alcoolismo é uma enfermidade grave e crônica que, como qualquer dependência, não tem cura, porém tem tratamento. Desde 2003, os cientistas já afirmavam ter descoberto um gene importante para a explicação dos inúmeros efeitos do álcool no cérebro, e esperavam poder produzir um medicamento que desativasse alguns dos efeitos de prazer ligados à ingestão do álcool, e talvez tentar combater o alcoolismo com remédio. Não deu certo!
O vício, seja revestido de que caráter for, e onde for e por quem for cometido, nunca deixará de ser um ato nefasto, carecendo ser eliminado a fim de que se reerga o sujeito a ele jugulado, para conseguir seus apropriados caminhos de renovação e exultação.
Nessas vias em que o vício se oferece como coisa admitida, existem os que fazem questão de se despontar impassíveis a quaisquer advertências do bom senso, sinalizando com o livre-arbítrio, enquanto outros perpetram deboches dos que pregam virtudes, provocando-os com a ridícula exposição de suas moléstias, tão logo acabam de ouvir ou de ler qualquer admoestação ponderada.
Ingerir alcoólicos apenas para manter companhias sociais, ou para que tragam excitações artificiais para a desinibição ou para o que for, poderá denotar longo período de destrambelhamento e de agonias nos imperiosos desagravos do corpo e da mente, em função dessas autodestruições que se vão perpetrando à sombra de muitas falácias que encachaçam os ouvidos com citações de efeito, bem arranjadas, mas que não impetram apaziguar a consciência, onde agitam as Sublimes Leis.
Num contexto social permissivo, o vício da ingestão de alcoólicos torna-se expressão de "status", atestando a decadência de um período histórico que passa lento e doído. Vale ressaltar que ao reencarnarmos trazemos conosco os remanescentes de nossas faltas como raízes congênitas dos males que nós mesmos plantamos. O Espiritismo também relata e adverte sobre a influência espiritual oculta, ou seja, o meio espiritual que respiramos pode contribuir para o surgimento de um determinado vício. O viciado em álcool quase sempre tem a seu lado entidades inferiores que o induzem à bebida, nele exercendo grande domínio e dele usufruindo as mesmas sensações etílicas.
Há o mito de que a nefasta maconha leva os jovens a outras drogas. Mas é o álcool que faz esse papel. E a própria família incentiva o consumo. O “álcool gera uma doença de longa evolução (dez anos em média) e o abuso entre jovens os leva a drogas maiores – uma delas é o ecstasy, encontrado em dois tipos de pastilha: a MAP (meta-anfetamina) e a MDMA (metil-dietil-MA), esta com propriedades alucinógenas. O adolescente se expõe hoje muito mais ao álcool. Está se formando uma geração de dependência de álcool. Além dos riscos à saúde, há os perigos de dirigir embriagado, da violência e de traumatismos decorrentes do abuso de álcool.
Sabemos que tudo se inicia no primeiro gole. Depois vem a necessidade do segundo, do terceiro e o alcoolismo se instala em nossas vidas. A sede, o sabor, a oportunidade social, as comemorações, a obrigatoriedade em aceitar um drinque oferecido por um “amigo”, são as muitas desculpas nas quais nos apoiamos para ingerir as doses que, mais tarde, serão letais. Precisamos estar atentos para não cometer exageros, abusos, e não resvalar por esse “hábito social”, que pode terminar por nos condicionar a ele e nos transformar num trapo de gente, num farrapo humano. Ressalte-se que os limites entre o uso "social" e a dependência nem sempre são claros.
Allan Kardec indagou à Espiritualidade se o homem poderia, pelos seus próprios esforços, vencer suas inclinações más. Os Espíritos, de maneira objetiva,  responderam afirmativamente, explicando que  o que falta nos homens [sobretudo nos viciados] é a força de vontade e a legítima fé em Deus.
Jorge Hessen

11 julho 2012

SER ESPÍRITA É ERIGIR A PAZ EDIFICANTE, ORGANIZANDO O CENÁRIO DA NOVA ERA.


O mundo passa por decisivo momento de transição, com sofrimentos e inquietações atingindo-nos a todos. Infelizmente, as antevisões flagelantes fazem parte de pensamentos apocalípticos. Alguns confrades forçam argumentos ante os fenômenos calamitosos como se estivéssemos no derradeiro instante da vida planetária. Evoca-se com ênfase o famigerado calendário Maia; porém, importa dizer que “há muitos séculos as humanidades prosseguem de maneira uniforme a sua marcha ascendente através do espaço e do tempo.” (1)
É inquietante o aparecimento de facções, seitas e cultos que se multiplicam mundo afora pressagiando flagelos sob o impacto de neurotizante expectativa irrequieta de uma "nova era". Além disso, o argumento do fim dos tempos é uma peculiaridade de alguns médiuns distraídos, que propagam catástrofes naturais como se fossem a ira de Deus.
Há nessas ocasiões pessoas maníacas que abandonam emprego e família, à espera do "grande final" e alguns criam seitas delirantes. Só na França "há cerca de 200 seitas, com 300 mil adeptos". No Japão, inquietos "gurus" vaticinam o final do mundo (2). Nos Estados Unidos, pasmem! 55 milhões de americanos creem que falta pouco para o "mundo acabar".
Nessas cruciais ocasiões de transição planetária, notemos que o advento do mundo de regeneração não se dará nem se finalizará em precário período. É aventureiro datar, precisar, fixar uma estação em que tal processo será complementado. Não se pode esquecer que “os distúrbios parciais do globo ocorrem em todas as épocas, e se produzem ainda, porque se ligam à sua constituição, mas esses não são os sinais dos tempos.” (3)
É inegável que atravessamos um pique elevado de duras provações. De 2007 até 2011 ocorreram comoções colossais na crosta terrestre. Foram terremotos, tornados, ondas gigantes na Ásia (tsunamis), os fenômenos La niña e El niño, ciclones extratropicais, recordes de tempestades, enchentes (nunca se viu tanta chuva), aquecimento global, frio descomunal. “A Fome é outra tragédia que já abarca 1 bilhão e duzentos milhões de pessoas em todo o planeta” (4). A exploração da energia nuclear ainda não é assunto do total controle humano. O desmatamento insano, a poluição do ar, o vigor da expansão do tráfico e consumo de drogas, a banalização do comportamento sexual, estimulado pela revista, jornal, televisão, cinema, teatro, videocassete, TV a cabo, computador etc, que escapam à racionalidade do homem.
Há igualmente nesse contexto um preocupante vaticínio sobre a drástica redução da reserva de água potável para daqui a quatro décadas na Terra. Acerca disso, sabemos que algumas potências econômicas querem internacionalizar a Amazônia, por uma simples razão: cerca de 35% de precipitação de chuva no Planeta ocorre naquela área, levando a região a possuir a maior reserva hídrica terrestre. A propósito, sabemos que muitos especialistas preveem conflitos mundiais, tendo como causa a corrida pela posse e controle do líquido vital.
Paradoxalmente, pregamos a paz produzindo os canhões assassinos; cobiçamos resolver os problemas sociais ativando a edificação dos presídios e bordéis. "Esse progresso é o da razão sem a fé, onde os homens se perdem em luta inglória e sem-fim”. (5) A atual situação de violência, maldade, injustiça, opressão dos poderosos sobre os fracos, tanto em nível de pessoas, como instituições e países, certamente terá que ceder lugar a uma nova era de paz, harmonia, fraternidade e solidariedade.
"Época de lutas amargas, desde os primeiros anos do século XX, a guerra se aninhou com caráter permanente em quase todas as regiões do planeta. A Liga das Nações, o Tratado de Versalhes, bem como todos os pactos de segurança da paz, não têm sido senão fenômenos da própria guerra, que somente terminarão com o apogeu dessas lutas fratricidas, no processo de seleção final das expressões espirituais da vida terrestre.” (6). O século recentemente findo foi, sem dúvida, o século mais sangrento de todos. Já ocorreram após a Segunda Guerra Mundial 160 conflitos bélicos, com 40 milhões de mortos. Se contabilizarmos desde 1914, estes números sobem para 401 guerras e 187 milhões de mortos, aproximadamente.
É notória a eficácia avassalante do avanço científico. Os ensaios da genética, das clonagens, das células-tronco, da cibernética, das conquistas espaciais, do império dos raios lasers, das fibras óticas, dos supercondutores, dos microchips, da nanotecnologia. Nunca tivemos tanta capacidade de proporcionar bem estar, casa, educação e alimento a todos, embora nunca tenhamos tido tantos desabrigados, famintos e, principalmente, carentes de educação. Amargamos os contrastes da hegemonia tecnológica, ao mesmo tempo em somos abatidos diante da falta de comida, da dengue hemorrágica, da febre amarela, da tuberculose, da AIDS e de todos os tipos de entorpecentes.
Os Benfeitores lembram que o “ocaso não demora e, sob a saliência de suas sombras espessas, não nos esqueçamos de Jesus, cuja misericórdia sem fim constituirá o fulgor imortal da aurora futura, feita de paz, de fraternidade e de redenção.” (7). Para amenizar a “noite que não tarda”, recordemos o que o Mestre ensinou: “Então, perguntar-lhe-ão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? - Quando foi que te vimos sem teto e te hospedamos; ou despido e te vestimos? - E quando foi que te soubemos doente ou preso e fomos visitar-te? - O Rei lhes responderá: Em verdade vos digo, todas as vezes que isso fizestes a um destes mais pequeninos dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes.”(8)
Nas próximas reencarnações, se ainda quisermos encontrar aqui estoques razoáveis de água potável, ar puro, terra fértil, menos lixo e um clima estável, precisaremos atuar imediatamente, sem perda de tempo. Apesar dos pesares, não faltam as vozes otimistas que apregoam um porvir renovado sob a luz de uma nova era. É verdade! Paralelamente a todo esse caos, jamais se viu, em todos os tempos, tantas pessoas boas e pacíficas se mobilizarem em prol de programas assistenciais aos irmãos menos afortunados, trabalhando voluntariamente por um mundo melhor e mais justo, e com total desprendimento e espírito cristão.
Para descontentamento dos arautos do “quanto pior, melhor!”, felizmente, tudo está se transformando em passo acelerado atualmente, trazendo mais conforto e melhor qualidade de vida ao habitante da Terra. A dor física está, relativamente, sob controle; a longevidade ampliada; a automação da vida material está cada vez maior, em face da tecnologia fascinante, especialmente na área da comunicação e informática.
O Mestre advertiu: “Tenho-vos dito isto para que em mim tenhais paz: no mundo, tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.”(9). Cremos que ser espírita é constituir-se em núcleo de ação edificante através do qual principia a Nova Era.
“Fala-se no mundo de hoje, qual se o mundo estivesse reduzido à casa em ruínas. O espírita é chamado à função da viga robusta, suscetível de mostrar que nem tudo se perdeu. Há quem diga que a Humanidade jaz em processo de desagregação. O espírita é convidado a guardar-se por célula sadia, capaz de abrir caminho à recuperação do organismo social. O espírita, onde surja a destruição, converte-se em apelo ao refazimento; onde estoure a indisciplina, faz-se esteio da ordem e, onde lavre o pessimismo, ergue-se, de imediato, por mensagem de esperança.” (10).
Em face do exposto, por mais difícil que seja o processo de seleção final dos valores morais da sociedade, não podemos olvidar jamais  que Jesus é o Senhor da Vida. Os Seus mandamentos não passaram e jamais passarão. Nessa esperança, compreendamos que em Suas mãos assentam-se os destinos da Terra.
Jorge Hessen
http://jorgehessen.net


Referências bibliográficas:
(1)           Kardec, Allan. Revista Espírita, junho de 1869
(2)           Revista, "Isto É", de 4 de agosto de 1999
(3)           Kardec, Allan. R.E.  abril/1866 – “Regeneração da Humanidade” (Paris, resumo das comunicações dadas pelos srs. M... e T... em sonambulismo.)
(4)           Publicado no Jornal Correio Braziliense edição de 17 de setembro de 2009
(5)           Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, Ditada pelo Espírito Emmanuel, RJ: Ed FEB, 2001, perg 199.
(6)           Xavier, Francisco Cândido. A Caminho da Luz, RJ: Ed FEB 1987.
(7)           Xavier, Francisco Cândido A Caminho da Luz– ditado pelo espírito Emmanuel, 22ª edição História da Civilização à Luz do Espiritismo (Psicografado no período de 17 de agosto a 21 de setembro de 1938) RJ: Ed FEB 2001
(8)           Mateus, 25:37 a 40
(9)           JESUS JOÃO, 16:33
(10)         Xavier. Francisco Cândido. Livro da esperança, ditado pelo Espírito Emmanuel, Uberaba/MG: Ed CEC, 1964

05 julho 2012

O ESPIRITISMO ANTE O CENSO 2010 – RETRATO DE UM PANORAMA QUE CLAMA POR MUDANÇAS DE RUMO

 O Censo 2010 do IBGE evidencia um crescimento de 65% em 10 anos do número de espíritas com maior salário e instrução (são quase 4 milhões de espíritas e 700 mil possuem rendimento acima de 5 salários mínimos). O incremento de adeptos com maior salário e instrução pode nos levar a deduzir que após a desencarnação do Chico Xavier o desígnio de divulgação doutrinária foi e ainda é aristocrático, ou seja, há distanciamento dos confrades que estão em dificuldade material, mormente na região nordeste, norte e centro-oeste (excluindo-se Brasília, maior renda per capta do país).
O IBGE demonstra que entre os espíritas, 98,6% são alfabetizados. Os adeptos da Doutrina possuem as maiores proporções de pessoas com nível superior completo (31,5%) e taxa de alfabetização (98,6%), além das menores percentagens de indivíduos sem instrução (1,8%) e com ensino fundamental incompleto (15,0%). Os dados são reflexos de uma programação doutrinária que opta pela leitura e tem a aquisição de cultura como um de seus focos.
Mas a rigor, o fato de haver um monte de espíritas com curso superior não quer dizer muita coisa. A liderança do movimento espírita não deveria priorizar ou consentir ambiente de proeminência para os que se blasonam com seus títulos de doutor, de mestres e intelectuais extravagantes, até porque agindo assim expulsariam do movimento personagens quais Leon Denis, que não tinha diploma de doutor (foi um caixeiro viajante), de Chico Xavier, que só fez o curso primário (foi apenas um escriturário) e pasmem! do próprio Cristo, que não esteve na Universidade (era simples carpinteiro). Pois é! Ambos não encontrariam acolhimento nos eventos espetacularizados  nos anfiteatros, centros de convenções e nalguns centrões espíritas destinados à nata social.
O Censo 2010 aguçou nossa curiosidade ao dar conta de que há mais de 40 milhões de evangélicos, em sua maioria absoluta componentes da população periférica, mais pobres e de baixa instrução. Imaginamos que essa massa provavelmente se tornou evangélica devido às agruras da pobreza, da discriminação, da falta de acesso à qualidade de vida (educação, saúde, lazer etc.). Deduzimos que a proposta doutrinária dos evangélicos (em que pese a inconveniência da cobrança de dízimos dos pobres) tornou-se interessante via disponível de alívio e conforto da vida dura, e importante porta viável para a melhoria de suas condições de humanidade e cidadania. E isso é um respeitável serviço de inclusão e melhoria social desse segmento religioso.
Por que a proposta espírita não consegue se aproximar dessa massa humilde? Respondem alguns que a Doutrina dos Espíritos não defende proselitismos, não assegura o “céu beatífico”, nem a “salvação” etc. Obviamente, esses argumentos não respondem à questão. Talvez pudéssemos inferir que paire um sistema de difusão doutrinária alarmante e excludente. Contudo, a despeito de tudo e de todos, queira a elite ou não, a culminância da programação espírita, no plano terreno, deverá ser a concretização da transformação social, e será impossível essa transformação sem uma efetiva aproximação da população sofrida e pobre.
A considerar as diretrizes doutrinárias que incentivam e mantêm a formação da fidalguia (intelectuais e abastados) o Censo 2010 demonstrou uma situação inusitada: talvez haja algum preconceito entre nós, espíritas, no que tange a questão racial e que desfavorecem as massas. Essa ocorrência pode ser constatada num dado estatístico no mínimo indiscreto: do “segmento populacional que se declarou espírita, quase 70% eram brancos, percentual bem mais elevado que a participação do grupo de outra cor ou de outra raça no conjunto da população.”(1)
Outro detalhe: a difusão da mensagem espírita não se dá precipuamente pela TV nem pelo rádio, mas através dos livros, jornais, revistas, folhetos e Internet. Assim, a capacidade de ler se torna um requisito para a prática doutrinária.
Mas será que os confrades espíritas – assalariados, desempregados ou pobres – conseguem ter acesso a essa literatura? Como?... Sabemos que os livros espíritas, via de regra, são caros. Quantos espíritas carentes podem ter Internet em casa? Quantos podem ingressar nos rotineiros e aristocráticos “congressos espíritas”? Aliás, congressos que se assemelham a meros “encontros” para recreações embaladas pelas palestras quase sempre proferidas por ilustres segmentos da fina flor da sociedade. A rigor, ignoramos que há  efetivação de congressos espíritas destinados a debates e estudos atinados a propósito dos graves problemas sociais e das enxertias de ideias, práticas e conceitos absurdos contidos nos livros “psicografados”, supostamente espíritas, que hipnotizam impiedosamente os incautos confrades tangidos pelo misticismo.
Quando os Mentores realçam a necessidade da revivescência do Evangelho na sua “primitiva pureza”, constatamos que não se consegue abarcar o sentido “PIMITIVA PUREZA”. Não há dúvida de que o Espiritismo só se justificará na Terra se alcançar a base da sociedade – o “povão”, como se diz. É indispensável que o pratiquemos junto com as massas mais humildes, social e intelectualmente falando, e deles nos aproximemos. É imperioso destruir qualquer ranço que tanja hierarquias mesquinhas, discriminações, proeminências individuais, mordomias, regalias, primazias ou mercantilagens dos shows de oratórias doutrinárias.
Esperemos que no próximo Censo, em 2020, tenhamos um quadro demonstrativo mais interessante. É um delito de Lesa Codificação  um Espiritismo sem Jesus e sem Kardec para todos, com todos e ao alcance de todos. Quiçá nem tudo esteja perdido. Cremos que o “Projeto de Interiorização – Espiritismo para os simples” se consolidará. (2)
Lemos recentemente o excelente artigo intitulado “União com fidelidade, simplicidade e fraternidade”, do César Perri, Vice-Presidente da FEB. O texto expõe argumentos esperançosos e inspira-nos para o pensamento de Emmanuel: “unidade do espírito pelo vínculo da paz”. (3) Consigna o documento que “entre os desafios atuais para a união dos espíritas (...) há necessidade de revisão de algumas estratégias e posturas, para se ampliar a difusão do Espiritismo em todas as faixas etárias e sociais. (...) entendemos que o acolhimento dos simples [espíritas desempregados, iletrados, pobres] no ambiente das reuniões espíritas é tarefa de primordial importância nos tempos em que vivemos.”(4) Para o Presidente em exercício da Casa Máter, “a realização de eventos federativos e de divulgação devem ter como parâmetros o que é simples e viável para a maioria das instituições e dos espíritas.”(5)
As federativas estaduais jazem a passos demasiadamente vagarosos e não alcançam “o que é simples e viável para a maioria das instituições e dos espíritas”, (6) por isso urge seja acelerado o desenvolvimento de mais projetos sociais no âmbito dos chamados órgãos unificacionistas do País. À semelhança do Movimento Cristão, dos tempos apostólicos, a Doutrina dos Espíritos precisa se fazer robusta nos Centros Espíritas simples, situados nos lugarejos de infortúnio, nos assentamentos, nas favelas, nos bairros miseráveis, nas periferias urbanas esquecidas. Por essa fortíssima razão, que sejam Jesus e Kardec não apenas acreditados ou experimentados, anunciados ou despontados à nossa fé, mas intensamente vividos, padecidos, pranteados e concretizados em nossas próprias vidas. “Sem essa base, é difícil forjar o caráter espírita-cristão que o mundo conturbado espera de nós pela unificação.” (7)

Jorge Hessen
http://jorgehessen.net



Referências bibliográficas:
(1)           Disponível acesso em 02-07-2012
(2)           disponível em: acesso em 01-07-2012
(3)           Xavier, Francisco C. Fonte Viva, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 49, pg.116
(4)           Carvalho, Antonio C. Perri. Artigo “União com fidelidade, simplicidade e fraternidade” publicado em Reformador, abril, ano 2011 pags. 29,30 e 31
(5)           idem pags. 29,30 e 31
(6)           idem pags. 29,30 e 31
(7)           Bezerra de Menezes, trechos da mensagem “Unificação”, Psic. F. C. Xavier – Reformador, dez/1975 - FONTE: CEI - Conselho Espírita Internacional.