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  • 16.2.26

    ​“Médiuns” enganadores que exploram famílias enlutadas


     


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

     

    O Espiritismo não pode prescindir do critério, da razão e do exame rigoroso dos fenômenos. O Livro dos Médiuns afirma que o primeiro dever do médium sincero é a humildade e que a faculdade mediúnica não constitui privilégio, mas instrumento de serviço.

    A mediunidade autêntica é concessão divina com finalidade moral. Não foi dada para alimentar vaidades nem para criar dependências psicológicas. É recurso de consolo, esclarecimento e caridade. Quando o fenômeno se transforma em show, quando o médium passa a ser o centro das atenções, quando há promessa de resultados garantidos, algo já se deslocou do eixo doutrinário honesto.

    O charlatão (falso médium) revela-se por sinais claros: apego à fama, marketing religioso, personalismo excessivo, ostentação de “poderes”, promessas de cartas “consoladoras”, previsões categóricas e infalíveis. Mais grave ainda é a incoerência moral — o discurso aparentemente “dúlcido” e “elevado” contrastando com atitudes levianas, intimidatórias, manipuladoras ou autoritárias.

    É extremamente  dolorosa  a atuação desses falsos médiuns indigestos que exploram famílias enlutadas por meio de “cartas consoladoras” sempre genéricas e comprovadamente fabricadas (via Internet). Valem-se de informações colhidas em redes sociais para compor mensagens aparentemente personalizadas, utilizando dados públicos para simular autenticidade espiritual. Trata-se de fraude moral gravíssima, porque sequestra e instrumentaliza o sofrimento alheio.

    A melhor defesa contra a mistificação mediúnica é o conhecimento doutrinário. O estudo protege. A fé raciocinada impede que a emoção, especialmente no momento do luto, seja capturada por vis exploradores da credulidade.

    Isso não significa adotar postura persecutória ou cética sistemática. O Espiritismo não ensina desconfiança neurótica, mas discernimento sereno. O verdadeiro médium não se ofende quando é pesquisado; ao contrário, compreende que a análise criteriosa preserva a pureza do trabalho.

    Outro ponto essencial é observar os frutos. A comunicação espiritual séria produz paz, esclarecimento e fortalecimento moral. O falso intercâmbio do além produz dependência, medo, fanatismo e centralização na figura do médium histrião.

    A preservação da fé espírita exige coragem para reconhecer desvios. Não se protege a Doutrina silenciando diante de abusos. A conivência é forma de cumplicidade. O Espiritismo, sendo doutrina de luz, não teme a transparência.

    Identificar um médium charlatão, portanto, não é um gesto de intolerância — é um ato de responsabilidade. É zelar para que a mediunidade permaneça o que deve ser: abençoado instrumento de caridade, jamais ferramenta de exploração malacafentaÉ defender a dor das famílias enlutadas contra a enganação. É honrar o legado de Kardec e dos Benfeitores espirituais, mantendo viva a fé lúcida, ética e moralmente lógica.



    O Espiritismo não é um espetáculo. É proposta de reforma íntima

     


    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    Vivemos a era da vitrine digital. Curtidas, seguidores e visualizações passaram a funcionar como selo de relevância. No entanto, quando essa lógica invade o movimento espírita, cria-se uma distorção preocupante: confundir popularidade com autoridade moral; alcance virtual com elevação espiritual.

    O Espiritismo jamais estabeleceu como critério de valor doutrinário a fama ou a projeção pública. Ao contrário, a Doutrina enfatiza o conteúdo, a coerência e, sobretudo, a transformação moral. Portanto, é pela transformação moral e pelos esforços que se emprega para domar suas más inclinações que se reconhece o verdadeiro espírita.

    O equívoco de base no movimento espírita brasileiro está em importar critérios do mercado para o campo espiritual. Cria-se uma espécie de “hierarquia informal” onde o número de inscritos em redes sociais se torna métrica de autoridade doutrinária. Como se quanto mais famoso, mais evoluído fosse o palestrante. Essa lógica, porém, é estranha ao espírito da Doutrina.

    A mediunidade e a oratória espírita são tarefas de serviço, não instrumentos de autopromoção. Chico Xavier, talvez o maior exemplo contemporâneo de projeção pública dentro do Espiritismo, jamais buscou visibilidade. A fama lhe foi consequência do trabalho, não objetivo. Viveu com simplicidade, recusou privilégios e nunca se colocou como celebridade espiritual.

    Quando eventos passam a priorizar “nomes que dão público”, corremos o risco de transformar o púlpito espírita em teatro ou circo. E o palco ou picadeiro exige performance; já a tribuna espírita exige compromisso moral. São coisas distintas. O primeiro busca aplauso; a segunda busca consciência.

    Isso não significa que ter muitos seguidores seja, por si, algo negativo. A internet é instrumento valioso de divulgação. O problema surge quando o critério de escolha deixa de ser a fidelidade doutrinária e passa a ser a capacidade de atrair público. A popularidade pode acompanhar o mérito — mas não o substitui.

    O Espiritismo não é um espetáculo. É proposta de reforma íntima. Não é carreira, é compromisso. Não é marketing, é testemunho.

    Talvez estejamos diante de um chamado à maturidade do movimento: valorizar mais o conteúdo do que a embalagem; mais a coerência do que a performance; mais a vivência silenciosa do que o brilho momentâneo.

     

    14.2.26

    Um adultério não transforma automaticamente o infiel em autor “indireto” de duplo infanticídio



    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    "Quem de vocês estiver sem pecado, que seja o primeiro a atirar uma pedra" foi dito por Jesus conforme narra João 8:7 para salvar uma mulher acusada de adultério pelos fariseus. Ao confrontar os acusadores com suas próprias falhas, Jesus promoveu a misericórdia sobre o julgamento, levando-os a desistir do apedrejamento.A tragédia recente ocorrida em Itumbiara expõe não apenas a violência de um pai que assassinou os próprios filhos e, em seguida, suicidou-se, mas também uma segunda violência, igualmente cruel: o tribunal implacável das redes sociais. A esposa, flagrada em adultério, foi imediatamente convertida em ré moral coletiva. Contudo, à luz da razão espírita, é preciso separar emoção de justiça, indignação de responsabilidade.

    Não se trata aqui de romantizar o fato, porém, o adultério não é crime no Brasil desde 2005. Embora não seja crime, temos ciência de que a traição quebra deveres de respeito e fidelidade previstos no Código Civil, permitindo ao cônjuge traído buscar reparação por danos morais na justiça, especialmente quando envolve exposição pública ou sofrimento psicológico intenso. 

     A infidelidade é grave falha moral que fere compromissos assumidos e produz dores reais. No Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec recorda que a Lei de Amor e Fidelidade integra o progresso moral da humanidade. Toda quebra de dever gera consequências espirituais (1). Entretanto, consequência não é sinônimo de culpa por crimes alheios.

    O Espiritismo é categórico quanto à responsabilidade individual. No Livro dos Espíritos (questões 843-845), aprendemos que o homem é livre para agir e responsável pelo que faz (2). O homicídio jamais pode ser transferido a terceiros como se fosse resultado mecânico de uma provocação. O assassinato foi decisão do pai. A escolha extrema partiu de sua consciência, ainda que sob violento desequilíbrio emocional. Nenhuma traição conjugal transforma automaticamente alguém em autor indireto de duplo infanticídio.

    A paixão desgovernada é tema recorrente na literatura espírita. Léon Denis ensina que as paixões são forças neutras que, mal dirigidas, convertem-se em abismos. Ciúme, orgulho ferido, sentimento de posse — quando não educados — degeneram em violência (3). O crime, portanto, revela um Espírito incapaz de dominar seus impulsos naquele instante. Isso não elimina sua responsabilidade consciencial, apenas explica o mecanismo íntimo da queda.

    Enquanto isso, a sociedade digital (rede social) aponta o dedo. A mãe, que também perdeu dois filhos, sofre o luto dilacerante acrescido do opróbrio público. Emmanuel adverte que a caridade começa na indulgência para com as imperfeições alheias (4). Julgar com severidade pode satisfazer o instinto de condenação, mas não edifica ninguém. E André Luiz alerta que pensamentos de ódio e revolta criam campos mentais perturbadores, ampliando a dor coletiva (5).

    Há, ainda, uma distorção perigosa: equiparar iniquidades morais a crimes hediondos. A Lei Divina é justa e proporcional. O adultério terá suas consequências na consciência de quem o praticou. O homicídio responderá diante das Leis eternas com gravidade infinitamente maior. Confundir essas esferas é inverter a balança da justiça.

    Podemos refletir aqui três conjunturas, primeiro reconhecer a falta sem negar a responsabilidade individual, segundo amparar as vítimas sem criar bodes expiatórios e terceiro compreender que tragédias humanas são sempre resultado de múltiplos fatores espirituais, jamais de uma única causa simplista.

    Não sabemos quais débitos reencarnatórios estavam em curso naquela família. O Espiritismo nos ensina que os laços familiares são, muitas vezes, reencontros de Espíritos com histórias pretéritas complexas. Contudo, o desconhecimento desses vínculos não autoriza a sociedade a produzir sentenças morais definitivas.

    O Espiritismo não absolve erros, mas também não legitima linchamentos. Ele nos convida à responsabilidade pessoal e à compaixão coletiva. Diante da dor, o espírita cristão verdadeiro não grita condenações — ora, silencia e ampara.

    Talvez o maior aprendizado dessa inominável tragédia não esteja em descobrir culpados secundários, mas em perceber o quanto ainda precisamos educar nossas próprias paixões e nossa própria ira vingativa como se fosse justiça. Porque se o crime foi consumado por uma mão, a crueldade pode ser multiplicada por milhares de vozes iradas.

     

    Referências Bibliográficas:

    1          KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013.

    2          KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

    3          DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

    4          XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Brasília: FEB, 2010.

    5          XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Nos Domínios da Mediunidade. Brasília: FEB, 2013.

    13.2.26

    ​O Corpo Humano como um verdadeiro “ecossistema vivo”

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    A ciência contemporânea demonstra que o corpo humano abriga trilhões de microrganismos que vivem em interação constante com nossas células, formando a chamada microbiota. Essa constatação levou pesquisadores a descreverem o organismo como um verdadeiro “ecossistema vivo”. À luz do Espiritismo, essa realidade biológica adquire significado ainda mais profundo: o corpo físico é instrumento complexo da alma, estruturado sob leis sábias e finalísticas.

    A vida orgânica, segundo os Espíritos, obedece a leis específicas que regem a matéria animada. O corpo, portanto, não é simples reunião casual de células, mas organização harmônica submetida à inteligência divina. (1) A existência de trilhões de microrganismos cooperando para a manutenção da saúde revela um nível de interdependência que confirma a unidade das leis naturais.

    O organismo como “máquina divina” ajustada sob direção espiritual (2). Portanto, o corpo físico é sustentado por energias sutis e cada célula responde a comandos do perispírito. Se cada órgão já é um universo funcional, o conjunto da microbiota amplia essa visão: somos, de fato, um “mundo habitado”, onde múltiplas formas de vida cooperam sob supervisão superior.

    Tal concepção harmoniza-se com a certeza de que o universo inteiro é solidariedade em movimento (3). Nada vive isolado; tudo se encadeia em rede de relações. O corpo humano, entendido como bioma, expressa essa solidariedade microscópica: microrganismos e células humanas convivem em simbiose, beneficiando-se mutuamente.

    A desarmonia — seja por excessos, vícios ou desequilíbrios emocionais — repercute nesse delicado ecossistema, produzindo enfermidades.  Nossas emoções perturbadoras alteram o campo energético predispondo o organismo a disfunções (4). Se pensamentos e sentimentos influenciam o perispírito, e este modela o corpo físico, compreende-se que o equilíbrio moral também repercute sobre a microbiota. O corpo-bioma responde não apenas à alimentação, mas ao clima psíquico que o envolve.

    Não somos apenas um ecossistema biológico, mas um ecossistema bioespiritual. A convivência harmoniosa entre trilhões de microrganismos simboliza a própria lei de cooperação que rege o progresso das almas. Cuidar do corpo, portanto, é dever moral, pois ele é instrumento sagrado da experiência reencarnatória.

    O entendimento do corpo como bioma convida à responsabilidade: equilíbrio alimentar, higiene física e mental, disciplina dos pensamentos e cultivo de sentimentos elevados contribuem para a saúde integral. A biologia confirma a interdependência; o Espiritismo revela-lhe o sentido transcendente.

     

    Referencias Bibliográficas:

    1          KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2019, questões 63–70.

    2          LUIZ, André. Missionários da Luz. Psicografia de Chico Xavier. Rio de Janeiro: FEB, 2018, cap. 12.

    3          DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2017, cap. XX.

    4          ÂNGELIS, Joanna de. Plenitude. Psicografia de Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 2000, cap. 5.

    12.2.26

    ​A transição de gênero e reencarnação - uma reflexão sobre corpo, espírito e responsabilidade moral


    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    A questão da transição de gênero, à luz da reencarnação, exige serenidade, caridade e rigor ético. Sob o olhar esp​Írita não cabem o juízo apressado nem o extremismo moralista. Sabemos que o Espiritismo não tratou explicitamente do tema sobre a mudança cirúrgica de sexo durante a encarnação; todavia, oferece princípios seguros para reflexão: a imortalidade da alma, a reencarnação, o livre-arbítrio e a responsabilidade moral.

    O Codificador  lembra que “os Espíritos não têm sexo, como o entendemos” (1), pois a sexualidade pertence ao organismo físico. O Espírito, em sua essência, é princípio inteligente, que pode reencarnar como homem ou mulher, segundo as necessidades evolutivas. A alternância dos sexos corporais, ao longo das existências, constitui mecanismo pedagógico da Lei Divina, favorecendo o aprendizado do equilíbrio afetivo e moral.

    Entretanto, se o Espírito é assexuado, o corpo físico não o é. André Luiz destaca que o veículo carnal resulta de complexo planejamento espiritual, envolvendo fatores genéticos, compromissos pretéritos e necessidades expiatórias ou educativas (2). O corpo não é mero invólucro descartável: é instrumento de trabalho concedido por comodato pela Providência Divina para determinado programa reencarnatório. Emmanuel destaca que o corpo “é empréstimo sagrado” (3), confiado ao Espírito para seu progresso. Não se trata de propriedade absoluta do encarnado, mas de concessão (cessão)  divina vinculada a responsabilidades.

    A sensação de não identificação com o sexo biológico pode refletir conflitos psíquicos profundos, lembranças de experiências de vidas passadas ou provas específicas da atual existência. Léon Denis observa que o Espírito traz, muitas vezes, “impressões e tendências adquiridas em vidas anteriores” (4) , que podem repercutir na presente organização psíquica. Tais situações reclamam acolhimento fraterno, acompanhamento psicológico e espiritual, jamais escárnio ou exclusão.

    Todavia, a Doutrina Espírita também ensina a importância da aceitação consciente das provas escolhidas. Kardec esclarece que, antes de reencarnar, o Espírito pode escolher as experiências que julga necessárias ao seu adiantamento (5). Se assim é, a condição biológica integra, em princípio, um contexto educativo mais amplo. Modificá-la deliberadamente por meio de intervenção cirúrgica suscita reflexão moral: estaria o indivíduo abreviando aprendizado previsto? Ou estaria exercendo o livre-arbítrio dentro dos limites da lei humana, assumindo as consequências espirituais do ato?

    O Espiritismo não impõe códigos civis nem substitui a consciência individual. Reconhece o livre-arbítrio, mas adverte quanto à lei de causa e efeito. Toda ação gera consequências, não como punição, mas como mecanismo de equilíbrio. A prudência recomenda que decisões irreversíveis sobre o corpo sejam amadurecidas à luz da razão, da ciência e da espiritualidade, evitando impulsos momentâneos ou pressões ideológicas.

    A caridade deve presidir qualquer posicionamento espírita. Emmanuel lembra que “a maior caridade que podemos fazer pela Doutrina é divulgá-la” (6) — e divulgá-la significa vivê-la com misericórdia. Isso implica acolher pessoas em sofrimento, independentemente de suas escolhas, sem transformar o centro espírita em tribunal moral.

    Conclui-se que a transição de gênero não encontra, na Codificação, respaldo explícito nem condenação direta. O que há são princípios. O corpo é instrumento sagrado; o Espírito é imortal e assexuado; o livre-arbítrio é real, mas vinculado à responsabilidade. Se o Espírito não se identifica com o corpo em que renasceu, a Doutrina convida à reflexão profunda e à aceitação consciente das provas, sem violência contra si mesmo nem contra os outros. A decisão última pertence à consciência individual, que responderá perante a própria lei divina inscrita em si mesma.

    Entre o julgamento e a permissividade irrefletida, o caminho espírita permanece o da ponderação, da ciência aliada à fé raciocinada e, sobretudo, da benevolência, indulgência e perdão das ofensas, isto é, caridade.


    Referências Bibliográficas:

    1.     KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questão 200. Rio de Janeiro: FEB.

    2.     XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB.

    3.     XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB.

    4.     DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB.

    5.     KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 258–273. Rio de Janeiro: FEB.

    6.     XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB