Jorge Hessen
Brasília-DF
A interação entre mente e
corpo constitui uma realidade amplamente reconhecida pela ciência e
profundamente esclarecida pela Doutrina Espírita. Pensamentos, emoções e
sentimentos não se restringem ao campo subjetivo: transformam-se em forças
vivas que atuam diretamente sobre o organismo, influenciando a saúde, o
equilíbrio emocional e a qualidade da vida física.
Quando nos entregamos ao
pessimismo, ao ressentimento e ao desamor, acionamos energias mentais tóxicas
que interferem no metabolismo e favorecem o surgimento de enfermidades, ainda
que nosso corpo disponha de mecanismos naturais de defesa. Inversamente, disposições
otimistas e afetuosas geram energias revigorantes, capazes de auxiliar-nos na
recuperação de desajustes orgânicos momentâneos.
Nosso corpo físico é um
verdadeiro laboratório de experiências, constantemente suscetível à
desorganização ou à recomposição, conforme as vibrações emitidas pelo nosso
estado mental.
Nossa mente funciona como
centro de comando da estrutura fisiológica, transmitindo ordens contínuas a
todos os sistemas. Nossas emoções desencadeiam descargas hormonais — como a
adrenalina — enquanto substâncias como endorfinas e encefalinas, liberadas sob
estímulos positivos, promovem bem-estar e alívio da dor. Assim, as reações
químicas do organismo obedecem, em grande parte, às diretrizes do nosso
pensamento.
Allan Kardec já advertia
para essa profunda interdependência ao afirmar que a alma exerce ação constante
sobre o corpo, reagindo este aos estados íntimos do Espírito[¹]. Tal princípio
explica por que a saúde não depende apenas de fatores genéticos ou ambientais,
mas também da qualidade dos pensamentos e dos hábitos mentais cultivados ao
longo da existência.
Observações médicas
contemporâneas corroboram essa realidade. Em entrevista concedida à revista IstoÉ,
em maio de 2009, a médica legista Jan Garavaglia, então chefe do Departamento
de Medicina Legal da Flórida (EUA), afirmou que grande parte das mortes poderia
ser evitada, pois decorre de causas simples e preveníveis[²]. Segundo a
especialista, o corpo humano revela, após a morte, a história do modo como a
pessoa viveu — e, muitas vezes, como poderia ter evitado a própria
desencarnação prematura.
Casos por ela relatados
ilustram essa constatação: indivíduos vitimados por hipertensão arterial não
tratada ou por inflamações graves decorrentes de hábitos alimentares
inadequados. Tais episódios demonstram que a negligência com a saúde e o
descuido contínuo com o corpo físico expõem o organismo a riscos evitáveis.
Embora seja impossível
escapar da morte, é perfeitamente possível evitarmos que ela chegue antes do
tempo previsto. A vida resulta de escolhas cotidianas: alimentação equilibrada,
atividade física regular, moderação nos excessos, prudência no trânsito e atenção
aos sinais do próprio corpo. Essas decisões, somadas à herança genética e às
circunstâncias existenciais, influenciam diretamente a duração e a qualidade da
experiência reencarnatória.
À luz da Doutrina Espírita,
a negligência deliberada com a saúde configura uma forma de suicídio indireto
ou inconsciente. Emmanuel esclarece esse ponto ao afirmar que o ser humano é
responsável pelo desgaste prematuro das forças físicas quando se entrega aos
excessos, respondendo espiritualmente pela inutilização voluntária do corpo que
lhe foi confiado[³].
Esse processo de
autodestruição lenta não afeta apenas o corpo físico, mas repercute nos centros
vitais do perispírito, produzindo desequilíbrios que acompanham o Espírito após
a desencarnação. O tempo médio de vida corporal é estabelecido antes da reencarnação,
mas não constitui um determinismo absoluto. O livre-arbítrio permite ajustes
dentro dos limites do planejamento espiritual.
Allan Kardec
esclarece essa questão com notável precisão ao ensinar que o instante da morte
é fatal apenas quando chega, mas que o homem pode apressá-lo ou adiá-lo pelo
seu modo de viver[⁴].
Emmanuel complementa esse
entendimento ao destacar que, com exceção do suicídio, ninguém desencarna fora
do tempo previsto pelas leis divinas, embora cada criatura permaneça
responsável pelo uso que faz da vida física[⁵].
Importa lembrar que nem
toda desencarnação precoce está vinculada a processos expiatórios. Há Espíritos
elevados que retornam à matéria por breves períodos, cumprindo missões
específicas de esclarecimento, exemplificação e semeadura de valores morais, antes
de regressarem ao plano espiritual.
Diante dessas reflexões,
a Doutrina Espírita convida à disciplina mental como fundamento da saúde
integral.
Educar pensamentos,
orientar impulsos, conter abusos e desenvolver valores morais não são apenas
deveres espirituais, mas atitudes concretas de preservação da vida. Quando essa
arte de viver é compreendida e praticada, o ser humano constrói hábitos de equilíbrio,
previdência e responsabilidade, garantindo não apenas o próprio bem-estar, mas
também a harmonia e a segurança da coletividade.
Notas bibliográficas:
1. KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de
Janeiro: FEB, questão 146.
2. GARAVAGLIA,
Jan. Entrevista à revista IstoÉ, maio de 2009. Tema: causas
evitáveis de morte e análise médico-legal.
3. EMMANUEL.
O Consolador. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Rio de Janeiro:
FEB, questão 94.
4. KARDEC,
Allan. O Céu e o Inferno. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de
Janeiro: FEB, 1ª parte, cap. V.
5. EMMANUEL.
Pensamento e Vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Rio de
Janeiro: FEB, cap. 3.
