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  • 14 de jan. de 2026

    A DOR ALHEIA E O JULGAMENTO MORAL À BASE DA IGNÓBIL HIPOCRISIA

     


    Jorge Hessen

    Brasília

     

    O exemplo da compatriota Isabel Veloso suplanta a narrativa simplificada do heroísmo diante da desencarnação. À luz da Doutrina dos Espíritos, sua vivência evidencia um equívoco ético recorrente: a transformação do sofrimento alheio em objeto de julgamento moral e exposição pública.

    Muitos apontaram-na como impostora.

    A respeito da dor de Isabel, o Espiritismo ensina que provas e expiações constituem experiências estritamente individuais, vinculadas ao processo íntimo de progresso do Espírito, não sendo passíveis de avaliação externa.

    O Codificador adverte que “não compete a ninguém julgar os desígnios de Deus, nem apreciar o valor das provas que Ele impõe”(1), afastando qualquer pretensão humana de interpretar a dor do outro.

    Nesse sentido, a vigilância moral exercida sobre a doença da Isabel revela-se incompatível com a ética espírita. Kardec é categórico ao afirmar que “a indulgência jamais se ocupa dos maus atos de outrem, a menos que seja para prestar um serviço; nunca os divulga, antes os atenua, se possível” (2). Exigir silêncio, resignação proativa ou estoicismo moral de quem sofre significa desconhecer tanto a psicologia humana quanto os princípios doutrinários.

    Obviamente o sofrimento não suspende a condição humana, nem converte a dor em obrigação de santidade. O próprio Kardec esclarece que o Espiritismo não idealiza criaturas moralmente perfeitas, mas reconhece Espíritos em processo evolutivo, “lutando ainda contra as próprias imperfeições” (3). Confundir resignação com anulação da individualidade constitui erro conceitual grave, pois “a verdadeira virtude não está na aparência; ela é sempre simples, modesta e dissimulada” (4).

    Assim, mais do que um testemunho de resistência física, a trajetória de Isabel Veloso configura uma advertência moral relevante: o dever espírita diante do sofrimento alheio não é interpretar, corrigir ou julgar, mas exercer a caridade autêntica, definida por Kardec como “benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições alheias, perdão das ofensas” (5).

    Que os críticos arrependidos morosos ponderem mais de agora em diante.

     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

    1          KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires. 132. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2019. cap. V, item 3, p. 99.

    2          Idem, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires. 132. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2019. cap. X, item 16, p. 170.

    3          Idem, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 48. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2020. Primeira Parte, cap. I, p. 21.

    4          Idem, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires. 132. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2019. cap. XVII, item 8, p. 262.