Jorge
Hessen
Brasília
O
exemplo da compatriota Isabel Veloso suplanta a narrativa simplificada do
heroísmo diante da desencarnação. À luz da Doutrina dos Espíritos, sua vivência
evidencia um equívoco ético recorrente: a transformação do sofrimento alheio em
objeto de julgamento moral e exposição pública.
Muitos
apontaram-na como impostora.
A
respeito da dor de Isabel, o Espiritismo ensina que provas e expiações
constituem experiências estritamente individuais, vinculadas ao processo íntimo
de progresso do Espírito, não sendo passíveis de avaliação externa.
O
Codificador adverte que “não compete a ninguém julgar os desígnios de Deus,
nem apreciar o valor das provas que Ele impõe”(1), afastando qualquer
pretensão humana de interpretar a dor do outro.
Nesse
sentido, a vigilância moral exercida sobre a doença da Isabel revela-se
incompatível com a ética espírita. Kardec é categórico ao afirmar que “a
indulgência jamais se ocupa dos maus atos de outrem, a menos que seja para
prestar um serviço; nunca os divulga, antes os atenua, se possível” (2).
Exigir silêncio, resignação proativa ou estoicismo moral de quem sofre
significa desconhecer tanto a psicologia humana quanto os princípios
doutrinários.
Obviamente
o sofrimento não suspende a condição humana, nem converte a dor em obrigação de
santidade. O próprio Kardec esclarece que o Espiritismo não idealiza criaturas
moralmente perfeitas, mas reconhece Espíritos em processo evolutivo, “lutando
ainda contra as próprias imperfeições” (3). Confundir resignação com
anulação da individualidade constitui erro conceitual grave, pois “a
verdadeira virtude não está na aparência; ela é sempre simples, modesta e
dissimulada” (4).
Assim,
mais do que um testemunho de resistência física, a trajetória de Isabel Veloso
configura uma advertência moral relevante: o dever espírita diante do
sofrimento alheio não é interpretar, corrigir ou julgar, mas exercer a caridade
autêntica, definida por Kardec como “benevolência para com todos,
indulgência para as imperfeições alheias, perdão das ofensas” (5).
Que
os críticos arrependidos morosos ponderem mais de agora em diante.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
1
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano
Pires. 132. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2019. cap. V, item 3,
p. 99.
2
Idem, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires.
132. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2019. cap. X, item 16, p.
170.
3
Idem, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 48. ed. Brasília:
Federação Espírita Brasileira, 2020. Primeira Parte, cap. I, p. 21.
4
Idem, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires.
132. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2019. cap. XVII, item 8, p.
262.
