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  • 14 de jan. de 2026

    As estruturas federativas espíritas no Brasil - diante de um movimento doutrinário capenga



    Jorge Hessen

    Brasília

     As dinâmicas federativas no movimento espírita brasileiro, especialmente aquelas intensificadas e reformuladas na era da internet, revelam-se progressivamente antiquadas, ineficazes e supérfluas.

    Há muitos anos temos lembrado que tais  estruturas, concebidas em um contexto histórico de desunião,  escassez de informação e limites de comunicação, perderam sua função original diante do amplo acesso contemporâneo às fontes primárias ou secundárias da Doutrina Espírita.

    Portanto, à luz da Codificação Kardeciana, impõe-se uma análise crítica quanto à necessidade e legitimidade doutrinária dessas instâncias “hierárquicas”. Aliás,  Kardec foi explícito ao rejeitar qualquer modelo hierárquico ou centralizador no Espiritismo. Vejamos: em Obras Póstumas, ao tratar do projeto de organização do movimento espírita, afirma: “O Espiritismo não tem nem chefes, nem hierarquia; não impõe crenças, não cria cargos nem confere títulos.” (1)

    Sabemos de casa “espírita” que pratica a denunciada e traidora mediunidade psicográfica com dados plagiados nas redes sociais — as chamadas “Cartas Consoladoras” que costumo chamar de Cartas Desoladoras —  que, para obter a consagração geral do movimento Espírita , se apoia na aprovação de suposto “diretor” da FEB.

    Que autoridade moral e doutrinária tem um diretor da FEB ou de qualquer federativa para chancelar “prática mediúnica”?

    Tal declaração invalida, em sua essência, qualquer pretensão de organismos federativos que se coloquem como instâncias superiores de coordenação, orientação, supervisão ou validação doutrinária.

    A Doutrina Espírita não se estrutura sobre relações de poder, mas sobre a autoridade moral do argumento racional. Na Revista Espírita, Kardec reforça que o Espiritismo não deve assumir feições institucionais hegemônicas: Até porque “o Espiritismo não deve constituir uma autoridade; ele deve ser uma convicção.” (2)

    A convicção, segundo o método kardeciano, nasce do estudo, da observação e da razão crítica — não da adesão a resoluções administrativas, diretrizes federativas ou consensos decorrentes de debates artificiais. Qualquer tentativa de uniformização doutrinária por meio institucional contradiz o caráter essencialmente livre e progressivo do Espiritismo.

    No Livro dos Médiuns, Kardec estabelece um dos princípios centrais da epistemologia espírita: “A fé espírita deve apoiar-se na razão, e não na autoridade.” (3)

    Esse enunciado exclui, de modo categórico, a legitimidade de intermediários institucionais que se proponham a substituir o estudo direto das obras fundamentais por interpretações “oficiais” ou discursos autorizados. O espírita não é discípulo de homens ou de instituições, mas da razão esclarecida pelo ensino dos Espíritos.

    Ainda no mesmo capítulo do Livro dos Médiuns, Kardec adverte contra qualquer noção de infalibilidade pessoal ou coletiva: “Não há, no Espiritismo, nenhum homem cuja opinião seja soberana.” (4)

    Portanto, quando federações ou conselhos passam a agir como árbitros do que é ou não “doutrinariamente aceitável”, abandonam o terreno do Espiritismo e ingressam no campo da ortodoxia religiosa, modelo expressamente rejeitado por Kardec.

    O Codificador anteviu os perigos da cristalização institucional da Doutrina ao alertar: “Se o Espiritismo tivesse de se apoiar em homens, em instituições ou em formas fixas, estaria perdido.” (5)

    Reenfatizamos que, na era digital, em que o acesso às obras originais é imediato e o intercâmbio de ideias ocorre sem mediação, as estruturas federativas não apenas se tornam desnecessárias, como também frequentemente empobrecem o debate, sacralizam palestrantes e médiuns, engessam o pensamento crítico e afastam o Espiritismo de seu caráter científico-moral e filosófico.

    Portanto, à luz da Codificação Espírita, conclui-se que o Espiritismo não necessita de federações para existir, sobreviver ou progredir. Seu verdadeiro fundamento reside no livre exame, na fidelidade às obras básicas e na responsabilidade moral da consciência individual.

    Estruturas administrativas herdadas de um cenário de desuniões, portanto, num contexto histórico sobrepujado, não apenas carecem de respaldo doutrinário, como podem representar obstáculos ao progresso intelectual e moral do movimento espírita, presentemente bastante capenga.


    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

    1          KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019, p. 356.

    2          IDEM, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Abril de 1866. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018, p. 123.

    3          IDEM, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2020, Introdução, item II, p. 19.

    4          IDEM, Allan. O Livro dos Médiuns. Cap. XX, item 230. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2020, p. 286.

    5          IDEM, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Dezembro de 1863. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB