Jorge Hessen
Brasíllia-DF
A despeito dos métodos
aplicados no Censo do IBGE, com certeza, o Espiritismo tem crescido e alcançado
cada vez mais pessoas pelas vias virtuais. No entanto, algumas práticas atuais
merecem reflexão à luz da lógica kardeciana. Entre elas, destacam-se os exuberantes
e grandes eventos realizados para multidões, muitas vezes organizados como
verdadeiros espetáculos e com cobrança de ingressos elevados, em nome do
Espiritismo.
O Espiritismo é uma
doutrina de caráter racional, filosófico e moral, baseada no estudo, na
observação e no uso da sensatez. Ele não se apoia em emoções coletivas
nem em encenações [no púlpito] para convencer. Ao contrário,
convida cada pessoa a refletir, analisar e formar sua própria convicção (1). Grifei
Há décadas venho denunciando os
congressões “espíritas” pagos.
Em eventos gigantescos, é
comum que a emoção se sobreponha ao entendimento. A linguagem precisa ser
simplificada, o tempo é curto e o aprofundamento se perde. O resultado pode ser
um impacto momentâneo, mas sem aprendizado duradouro. A Doutrina Espírita,
porém, ensina que o verdadeiro conhecimento se constrói com estudo contínuo e
reflexão, não com oba-oba do entusiasmo passageiro.
Outro ponto inquietante é
a cobrança de ingressos. Embora existam custos para organizar atividades
(não desconhecemos esse fato), o Espiritismo ensina que sua divulgação deve ser
feita com desinteresse material. Quando a lógica do evento passa a depender de
bilheteria, público e benesse material, surge o risco de adaptar a mensagem
para agradar, em vez de esclarecer (2).
Também merece atenção a
valorização excessiva de determinados ídolos quase santificados. O
Espiritismo não incentiva o culto a palestrantes, médiuns ou quaisquer outros
líderes. Kardec alerta que as ideias devem estar acima das pessoas, pois nenhum
ser humano é dono da verdade ou autoridade absoluta em assuntos espirituais
(3).
A divulgação do
Espiritismo não está ligada à quantidade de pessoas reunidas, mas à qualidade
do entendimento alcançado. Pequenos grupos dedicados ao estudo sério e à
vivência moral contribuem mais para a doutrina do que grandes plateias tocadas
apenas pela emoção do momento.
Dessa forma, é importante
lembrar que o Espiritismo não foi criado para ser palco de espetacularização
de oradores ungidos nem produto comercial. Sua proposta é simples e
profunda: esclarecer consciências, promover o progresso moral e estimular o
pensamento livre e responsável.
Reflitamos sobre isso
Referências bibliográficas:
1
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução, item VIII.
2
Idem, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XXVI, item 7.
3
Idem , Allan. O Livro dos Médiuns. Segunda Parte, cap. XXIII, itens 303–307.
