13 janeiro 2026

Entrada franca? Que nada! A industrialização dos Congressos Espíritas no Brasil


 

Jorge Hessen

Brasíllia-DF

 

A despeito dos métodos aplicados no Censo do IBGE, com certeza, o Espiritismo tem crescido e alcançado cada vez mais pessoas pelas vias virtuais. No entanto, algumas práticas atuais merecem reflexão à luz da lógica kardeciana. Entre elas, destacam-se os exuberantes e grandes eventos realizados para multidões, muitas vezes organizados como verdadeiros espetáculos e com cobrança de ingressos elevados, em nome do Espiritismo.

O Espiritismo é uma doutrina de caráter racional, filosófico e moral, baseada no estudo, na observação e no uso da sensatez. Ele não se apoia em emoções coletivas nem em encenações [no púlpito] para convencer. Ao contrário, convida cada pessoa a refletir, analisar e formar sua própria convicção (1). Grifei

Há décadas venho ​denunciando os congressões “espíritas” pagos.

Em eventos gigantescos, é comum que a emoção se sobreponha ao entendimento. A linguagem precisa ser simplificada, o tempo é curto e o aprofundamento se perde. O resultado pode ser um impacto momentâneo, mas sem aprendizado duradouro. A Doutrina Espírita, porém, ensina que o verdadeiro conhecimento se constrói com estudo contínuo e reflexão, não com oba-oba do entusiasmo passageiro.

Outro ponto inquietante é a cobrança de ingressos. Embora existam custos para organizar atividades (não desconhecemos esse fato), o Espiritismo ensina que sua divulgação deve ser feita com desinteresse material. Quando a lógica do evento passa a depender de bilheteria, público e benesse material, surge o risco de adaptar a mensagem para agradar, em vez de esclarecer (2).

Também merece atenção a valorização excessiva de determinados ídolos quase santificados. O Espiritismo não incentiva o culto a palestrantes, médiuns ou quaisquer outros líderes. Kardec alerta que as ideias devem estar acima das pessoas, pois nenhum ser humano é dono da verdade ou autoridade absoluta em assuntos espirituais (3).

A divulgação do Espiritismo não está ligada à quantidade de pessoas reunidas, mas à qualidade do entendimento alcançado. Pequenos grupos dedicados ao estudo sério e à vivência moral contribuem mais para a doutrina do que grandes plateias tocadas apenas pela emoção do momento.

Dessa forma, é importante lembrar que o Espiritismo não foi criado para ser palco de espetacularização de oradores ungidos nem produto comercial. Sua proposta é simples e profunda: esclarecer consciências, promover o progresso moral e estimular o pensamento livre e responsável.

Reflitamos sobre isso

 

Referências bibliográficas:

1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução, item VIII.

2 Idem, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XXVI, item 7.

3 Idem , Allan. O Livro dos Médiuns. Segunda Parte, cap. XXIII, itens 303–307.