Jorge Hessen
Brasília-DF
Resumo
Meditamos aqui a relação
entre o Espiritismo e o bizarro fenômeno contemporâneo denominado “politicamente
correto”, especialmente quando este assume características de coerção
moral, censura intelectual e limitação do livre exame.
Fundamentamos nas obras
de Allan Kardec — com destaque para O Livro dos Médiuns e Obras Póstumas — e no
pensamento de Léon Denis, nosso estudo demonstra que a Doutrina Espírita possui
fundamentos epistemológicos e morais incompatíveis com qualquer forma de
imposição ideológica (mormente vermelha)que suprima a liberdade de
consciência.
Conclui-se que, no
Espiritismo, a humildade e a caridade não se confundem com conivência, nem a
tolerância com relativismo moral, sendo a verdade subordinada
exclusivamente à razão e à lei natural (de Deus).
Palavras-chave:
Espiritismo; liberdade de consciência; politicamente correto; crítica doutrinária;
lei natural.
1 Introdução
O Espiritismo constitui-se
como uma doutrina de caráter científico, filosófico e moral, cuja base
metodológica repousa sobre o livre exame, a observação dos fatos e o uso da
razão crítica. Desde sua origem, a proposta doutrinária rejeita o dogmatismo, a
autoridade imposta e a aceitação irrefletida de ideias, ainda que
socialmente predominadoras.
No cenário contemporâneo,
observa-se a difusão de discursos agrupados sob a expressão “politicamente
correto”, os quais, em determinadas circunstâncias, ultrapassam a legítima
preocupação com o respeito humano e passam a operar como mecanismos de
censura simbólica, intimidação moral e restrição ao debate racional.
Diante desse contexto, a
presente reflexão propõe analisar a compatibilidade — ou incompatibilidade —
desse fenômeno com os princípios doutrinários da Doutrina dos Espíritos.
2 O livre exame como
fundamento doutrinário
A liberdade de pensamento
constitui um dos pilares centrais da Doutrina Espírita. Em O Livro dos Médiuns,
Kardec estabelece um princípio epistemológico rigoroso ao afirmar que a
aceitação de ideias deve ser sempre subordinada à análise crítica: “É
preferível rejeitar dez verdades a admitir uma única falsidade.” (KARDEC,
2013, p. 303).
Tal orientação demonstra
que, no Espiritismo, a verdade não é definida pela adesão coletiva, mas pela
coerência racional e moral. Sistemas de pensamento que desencorajam o
questionamento ou punem o dissenso, ainda que sob aparência de virtude,
colocam-se em oposição direta ao método estabelecido por Allan Kardec.
O Codificador adverte,
ainda, quanto aos perigos do entusiasmo acrítico: “O entusiasmo cego é mais
perigoso do que a incredulidade.” (KARDEC, 2013, p. 374).
Essa advertência
aplica-se de modo preciso a contextos ideológicos nos quais determinadas
narrativas são aceitas sem exame, sob pena de reprovação moral ou exclusão
social.
3 Caridade, tolerância e
distinção entre pessoas e ideias
Um equívoco recorrente
nos debates contemporâneos consiste em confundir caridade com renúncia ao
discernimento moral. A Doutrina dos Espíritos, entretanto, distingue claramente
a indulgência para com as pessoas da necessária firmeza diante do erro. Observemos,
em O Livro dos Espíritos, Kardec afirma: “A indulgência jamais deve ir até à
conivência com o mal.” (KARDEC, 2011, p. 444).
Essa distinção é
reafirmada no Livro dos Médiuns, ao se esclarecer que a tolerância não implica
aceitação irrestrita de ideias: “A tolerância não consiste em aceitar o
erro, mas em não empregar a violência para combatê-lo.” (KARDEC, 2013, p.
289).
Desse modo, o Espiritismo
rejeita tanto a agressividade quanto o silêncio imposto. O respeito ao
indivíduo não exige a abdicação da verdade, nem a suspensão do juízo crítico.
4 O falso moralismo e a
coerção das ideias
Em Obras Póstumas, Kardec
apresenta uma análise profunda dos mecanismos pelos quais ideias falsas se
mantêm no espaço social não por mérito racional, mas por intimidação: “As
ideias falsas se sustentam menos pela força do raciocínio do que pelo temor que
inspiram.” (KARDEC, 2010, p. 118).
Esse fenômeno caracteriza
ambientes nos quais o medo da censura substitui o debate honesto.
Kardec complementa: “Toda
doutrina que proíbe o exame proclama-se, por esse fato mesmo, suspeita.”
(KARDEC, 2010, p. 121).
Quando o “politicamente
correto” assume caráter absoluto, transforma-se em instrumento de coerção
moral, incompatível com o progresso intelectual e espiritual defendido pela
Doutrina Espírita.
5 Léon Denis e a
supremacia da consciência
Léon Denis, reconhecido
como continuador fiel do pensamento de Allan Kardec, reforça a primazia da
consciência individual sobre a aprovação coletiva.
Em Depois da Morte,
declara: “As multidões não são critério da verdade; quase sempre perseguiram
aqueles que a possuíam.” (DENIS, 2005, p. 47).
Denis alerta ainda para
os efeitos morais da supressão da liberdade de consciência: “Quando a
liberdade de consciência desaparece, a hipocrisia se instala em seu lugar.”
(DENIS, 2008, p. 392).
Essas reflexões
evidenciam que, no Espiritismo, a verdade moral não se subordina às convenções
sociais transitórias, mas à lei natural inscrita na consciência humana.
6 Consenso doutrinário
espírita
A análise das obras
fundamentais permite identificar um consenso doutrinário claro:
a) a liberdade de
pensamento é princípio essencial do Espiritismo;
b) nenhuma ideia está
isenta de exame crítico;
c) a caridade não
legitima o erro;
d) o respeito às pessoas
não implica aceitação automática de ideias;
e) a verdade moral prevalece
sobre modismos ideológicos.
Tal consenso afasta o
Espiritismo tanto do autoritarismo quanto do relativismo moral.
7 Conclusão
A abençoada Doutrina dos
Espíritos não se alinha ao “politicamente correto” quando este assume
feições de censura, coerção ou relativização da verdade. Sua fidelidade é à
razão, à consciência e à lei moral. Conforme afirma Kardec: “Marchando com o
progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas
lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto, ele se modificará.”
(KARDEC, 2009, p. 39).
Conclui-se, portanto, que
a postura espírita diante das pressões ideológicas contemporâneas (avermelhadas)
deve ser de discernimento, liberdade e responsabilidade moral, ainda que isso
implique enfrentar consensos artificiais e resistências sociais.
Referências
bibliográficas:
KARDEC, Allan. A gênese.
Tradução de Guillon Ribeiro. 52. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.
________, Allan. O livro
dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 92. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.
________, Allan. O livro
dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.
________, Allan. Obras
póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 46. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.
DENIS, Léon. Depois da
morte. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
________, Léon. O
problema do ser, do destino e da dor. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.
