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  • 22 de jan. de 2026

    Os “PhD de Kardec”, autoproclamados guardiões da “pureza doutrinária” e a falácia do Espiritismo restrito à “Codificação”



    Jorge Hessen

    Brasília

     

    A ideia de que apenas o que se encontra literalmente na Codificação pode ser considerado espírita revela uma leitura reducionista, dogmática e antimetodológica da Doutrina Espírita. Trata-se, paradoxalmente, do mesmo tipo de postura que o Espiritismo nasceu para combater ao se apresentar como ciência filosófico-moral fundada na razão, na observação e no progresso.

    É necessário esclarecer, desde o início, um ponto fundamental: a Codificação é a base do Espiritismo, não o limite do conhecimento espírita. Kardec jamais concebeu sua obra como um sistema fechado, acabado ou imune ao avanço das ideias humanas. Ao contrário, ele a definiu explicitamente como uma doutrina progressiva, aberta ao desenvolvimento das ciências e da filosofia.

    Na Introdução da Gênese, Kardec é categórico ao afirmar que o Espiritismo “marchará sempre com o progresso” e que, se a ciência demonstrar algo novo e verdadeiro, a Doutrina não terá dificuldade em assimilá-lo (1). Tal afirmação desmonta, por si só, qualquer tentativa de transformar a Codificação em um cânone estático, semelhante aos textos sagrados das religiões dogmáticas.

    A Codificação, portanto, funciona como alicerce doutrinário, não como cárcere intelectual. É a estrutura que sustenta o edifício, não o teto que impede sua ampliação. Confundir esses papéis é comprometer o próprio método kardequiano, que se apoia no exame crítico, na comparação dos ensinos e no uso permanente da razão.

    Além disso, é preciso recordar que o chamado “corpus kardequiano” não se limita às cinco obras fundamentais. Allan Kardec escreveu, organizou e publicou, ao longo de doze anos, dezenas de artigos, estudos e análises na Revista Espírita, que ele próprio definia como o laboratório experimental da Doutrina Espírita (2). Nela, conceitos são testados, hipóteses são revistas, comunicações são analisadas e princípios são aplicados à realidade social, científica e moral do século XIX.

    Esses escritos não contradizem a Codificação; ao contrário, a ampliam, esclarecem e contextualizam. Negar sua legitimidade é negar o método do próprio Codificador. Trata-se de um paradoxo frequente: invoca-se Kardec enquanto se ignora Kardec.

    Nesse contexto, o conceito de “obras subsidiárias” não apenas é legítimo, como é coerente com a história e a metodologia espíritas. Desde que respeitem os princípios fundamentais — imortalidade da alma, comunicabilidade dos Espíritos, pluralidade das existências, progresso moral e supremacia do ensino ético de Jesus —, tais obras contribuem para o amadurecimento do pensamento espírita.

    Autores como Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion e Ernesto Bozzano, entre outros, desempenharam papel essencial na consolidação e no aprofundamento da Doutrina, especialmente em seus aspectos filosóficos e científicos (3). Em período posterior, produções mediúnicas e estudos sérios também se inserem nesse campo, desde que submetidos ao crivo da razão, do controle universal do ensino dos Espíritos e da coerência moral.

    O problema surge quando alguns adeptos — verdadeiros “PhD de Kardec”, autoproclamados guardiões da ortodoxia — confundem fidelidade doutrinária com imobilismo intelectual. Transformam Allan Kardec em ídolo infalível e a Codificação em texto sagrado, exatamente o que ele jamais desejou (4).

    O verdadeiro espírita, conforme o próprio Kardec ensina, analisa, compara, raciocina e questiona. Não aceita ideias por autoridade, mas por coerência lógica e elevação moral. O critério espírita não é a origem do texto, do médium ou do autor, mas sua consonância com os princípios fundamentais, sua racionalidade e sua finalidade moral.

    Portanto, nem tudo o que está fora da Codificação é “lixo doutrinário”, assim como nem tudo o que se autodenomina espírita o é de fato. O Espiritismo não se define por fronteiras editoriais, mas por método, princípios e finalidade ética.

    Reduzi-lo a um compêndio fechado não é defendê-lo — é empobrecê-lo.

    E temos dito!

    Referências bibliográficas:

    1      KARDEC, Allan. A Gênese. Introdução, item I. Paris: Didier, 1868.

    2      KARDEC, Allan. Revista Espírita. Janeiro de 1858. Considerações preliminares.

    3      DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Paris: Librairie Philanthropique, 1903; BOZZANO, Ernesto. Fenômenos Psíquicos.

    4      KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução, item VIII: “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade.”