Jorge Hessen
Brasília – DF
O Espiritismo, desde sua Codificação,
estrutura-se sobre bases inegociáveis: o livre exame, a impessoalidade do
ensino dos Espíritos e a primazia da razão aliada à moral evangélica.
Qualquer prática que contrarie esses princípios, ainda que travestida de zelo
religioso ou entusiasmo doutrinário, constitui grave distorção do ideal
espírita.
Entre tais desvios, destaca-se a idolatria
de oradores, médiuns ou dirigentes, fenômeno antigo, mas que se intensifica
no contexto contemporâneo de exposição pública, celebrização e espetacularização
da tribuna espírita em que as palestras doutrinárias assumem um caráter de
entretenimento ou show, priorizando-se a oratória performática (imitadores
de Divaldo) e o “carisma” do palestrante em detrimento do conteúdo
educativo, simples e consolador proposto por Allan Kardec.
Allan Kardec combateu com rigor qualquer
tentativa de personalização da Doutrina e advertiu que o Espiritismo não
pertence a indivíduos, mas à coletividade dos Espíritos superiores, submetida
ao controle universal do ensino e ao crivo da razão humana (1).
No Livro dos Médiuns, Kardec é
categórico ao afirmar que o médium é apenas um instrumento, sujeito a falhas
morais e intelectuais, razão pela qual não deve jamais ser objeto de confiança
cega ou veneração (2). A exaltação da figura mediúnica, segundo o Codificador,
cria terreno fértil para a mistificação espiritual e para o abandono do método
crítico que sustenta a Doutrina.
Em Obras Póstumas, Kardec reafirma que
o Espiritismo sobreviveria independentemente de nomes ou personalidades,
justamente por se apoiar em princípios racionais e universais (3). Assim,
qualquer forma de idolatria humana representa ruptura direta com o pensamento
kardeciano.
O Espírito Emmanuel aprofunda essa reflexão ao
abordar o problema sob o prisma moral. Para ele, o personalismo é uma das
expressões mais sutis da vaidade espiritual, tanto no médium quanto naqueles
que o exaltam. Em O Consolador, Emmanuel adverte que o personalismo
sempre se constitui em obstáculo à verdadeira vivência do Evangelho (4).
Quando a figura do trabalhador espírita passa
a ocupar lugar central, eclipsando o conteúdo moral da mensagem, estabelece-se
perigosa inversão de valores. Emmanuel alerta ainda que espíritos inferiores se
aproveitam da admiração desmedida, estimulando o orgulho e a autossuficiência,
portas clássicas para processos obsessivos silenciosos.
André Luiz, em suas obras psicográficas,
oferece esclarecimentos valiosos sobre as consequências espirituais da
idolatria. Em Nos Domínios da Mediunidade, descrevem-se médiuns sinceros
que, ao se deixarem envolver pelo aplauso e pela exaltação pública,
gradualmente se afastam dos benfeitores espirituais, passando a sintonizar com
entidades interessadas em manter ilusões de grandeza (5).
Em Missionários da Luz, André Luiz
enfatiza que o médium é responsável pela atmosfera mental que cria ao seu
redor, sendo o culto à personalidade fator de desequilíbrio grave para a tarefa
mediúnica (6). O êxito aparente, quando desvinculado da humildade e do estudo
sério, não é sinal de aprovação espiritual.
À luz desses ensinamentos, torna-se evidente
que a idolatria de oradores e médiuns — sobretudo em ambientes de marketing
religioso, grandes eventos e ausência de crítica doutrinária — representa sério
risco à identidade espírita.
O Espiritismo não foi concebido para formar
ídolos, mas consciências esclarecidas. Onde não há espaço para questionamento
respeitoso e análise doutrinária, não há fidelidade a Kardec.
Em suma, ninguém é maior que a
Doutrina, nem mais importante que o Evangelho vivido. O verdadeiro
trabalhador espírita distingue-se pela discrição, pela coerência moral e pela
fidelidade doutrinária, jamais pela notoriedade.
Zelar contra a idolatria não é perseguição
pessoal, mas dever doutrinário. Preservar o Espiritismo de personalismos
é preservar sua essência racional, moral e libertadora.
Referências bibliográficas:
1. KARDEC,
Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano de 1861.
Tradução de Júlio Abreu Filho. 4. ed. São Paulo: IDE, 2004, p. 321–323.
2. Idem,
Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 76. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2013, itens 230, 303.
3. Idem,
Allan. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. 45. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2010, p. 35–37.
4. EMMANUEL
(Esp.). O Consolador. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 29. ed.
Rio de Janeiro: FEB, 2011, questão 383.
5. ANDRÉ
LUIZ (Esp.). Nos Domínios da Mediunidade. Psicografia de Francisco
Cândido Xavier. 30. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2014, cap. 16.
6. ANDRÉ
LUIZ (Esp.). Missionários da Luz. Psicografia de Francisco Cândido
Xavier. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013, cap. 3.
