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  • 16 de jan. de 2026

    Egocentrismos ao sabor dos idólatras de oradores, médiuns ou dirigentes



    Jorge Hessen

    Brasília – DF

     

    O Espiritismo, desde sua Codificação, estrutura-se sobre bases inegociáveis: o livre exame, a impessoalidade do ensino dos Espíritos e a primazia da razão aliada à moral evangélica. Qualquer prática que contrarie esses princípios, ainda que travestida de zelo religioso ou entusiasmo doutrinário, constitui grave distorção do ideal espírita.

    Entre tais desvios, destaca-se a idolatria de oradores, médiuns ou dirigentes, fenômeno antigo, mas que se intensifica no contexto contemporâneo de exposição pública, celebrização e espetacularização da tribuna espírita em que as palestras doutrinárias assumem um caráter de entretenimento ou show, priorizando-se a oratória performática (imitadores de Divaldo) e o “carisma” do palestrante em detrimento do conteúdo educativo, simples e consolador proposto por Allan Kardec.

    Allan Kardec combateu com rigor qualquer tentativa de personalização da Doutrina e advertiu que o Espiritismo não pertence a indivíduos, mas à coletividade dos Espíritos superiores, submetida ao controle universal do ensino e ao crivo da razão humana (1).

    No Livro dos Médiuns, Kardec é categórico ao afirmar que o médium é apenas um instrumento, sujeito a falhas morais e intelectuais, razão pela qual não deve jamais ser objeto de confiança cega ou veneração (2). A exaltação da figura mediúnica, segundo o Codificador, cria terreno fértil para a mistificação espiritual e para o abandono do método crítico que sustenta a Doutrina.

    Em Obras Póstumas, Kardec reafirma que o Espiritismo sobreviveria independentemente de nomes ou personalidades, justamente por se apoiar em princípios racionais e universais (3). Assim, qualquer forma de idolatria humana representa ruptura direta com o pensamento kardeciano.

    O Espírito Emmanuel aprofunda essa reflexão ao abordar o problema sob o prisma moral. Para ele, o personalismo é uma das expressões mais sutis da vaidade espiritual, tanto no médium quanto naqueles que o exaltam. Em O Consolador, Emmanuel adverte que o personalismo sempre se constitui em obstáculo à verdadeira vivência do Evangelho (4).

    Quando a figura do trabalhador espírita passa a ocupar lugar central, eclipsando o conteúdo moral da mensagem, estabelece-se perigosa inversão de valores. Emmanuel alerta ainda que espíritos inferiores se aproveitam da admiração desmedida, estimulando o orgulho e a autossuficiência, portas clássicas para processos obsessivos silenciosos.

    André Luiz, em suas obras psicográficas, oferece esclarecimentos valiosos sobre as consequências espirituais da idolatria. Em Nos Domínios da Mediunidade, descrevem-se médiuns sinceros que, ao se deixarem envolver pelo aplauso e pela exaltação pública, gradualmente se afastam dos benfeitores espirituais, passando a sintonizar com entidades interessadas em manter ilusões de grandeza (5).

    Em Missionários da Luz, André Luiz enfatiza que o médium é responsável pela atmosfera mental que cria ao seu redor, sendo o culto à personalidade fator de desequilíbrio grave para a tarefa mediúnica (6). O êxito aparente, quando desvinculado da humildade e do estudo sério, não é sinal de aprovação espiritual.

    À luz desses ensinamentos, torna-se evidente que a idolatria de oradores e médiuns — sobretudo em ambientes de marketing religioso, grandes eventos e ausência de crítica doutrinária — representa sério risco à identidade espírita.

    O Espiritismo não foi concebido para formar ídolos, mas consciências esclarecidas. Onde não há espaço para questionamento respeitoso e análise doutrinária, não há fidelidade a Kardec.

    Em suma,  ninguém é maior que a Doutrina, nem mais importante que o Evangelho vivido. O verdadeiro trabalhador espírita distingue-se pela discrição, pela coerência moral e pela fidelidade doutrinária, jamais pela notoriedade.

    Zelar contra a idolatria não é perseguição pessoal, mas dever doutrinário. Preservar o Espiritismo de personalismos é preservar sua essência racional, moral e libertadora.

     

    Referências bibliográficas:

    1.      KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano de 1861. Tradução de Júlio Abreu Filho. 4. ed. São Paulo: IDE, 2004, p. 321–323.

    2.      Idem, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 76. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013, itens 230, 303.

    3.      Idem, Allan. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. 45. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 35–37.

    4.      EMMANUEL (Esp.). O Consolador. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011, questão 383.

    5.      ANDRÉ LUIZ (Esp.). Nos Domínios da Mediunidade. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 30. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2014, cap. 16.

    6.      ANDRÉ LUIZ (Esp.). Missionários da Luz. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013, cap. 3.