17 janeiro 2026

“Espiritismo Progressista” e filosofia "politiqueira espiritualizada”.: Limites Doutrinários e Riscos de Descaracterização



Jorge Hessen

Brasília - DF

O envolvimento do movimento espírita com pautas políticas contemporâneas tem gerado debates esdrúxulos, especialmente no campo do chamado espiritismo progressista. Embora supostamente motivado por preocupações “sociais e humanitárias”, esse engajamento levanta uma questão central: até que ponto a militância político-partidária é compatível com a identidade doutrinária do Espiritismo?

A Doutrina Espírita estabelece o livre-arbítrio como fundamento da evolução moral. Kardec é explícito ao afirmar que o progresso do espírito depende de suas próprias escolhas, ainda que o meio exerça influência relativa: “O homem é sempre o árbitro de sua própria sorte; pode abreviar ou prolongar seus sofrimentos pela maneira por que procede.” (1)

Quando leituras coletivistas transferem o eixo da evolução espiritual para as estruturas sociais, corre-se o risco de diluir a responsabilidade moral individual, aproximando-se de um determinismo incompatível com o Espiritismo, que afirma a soberania do espírito sobre a matéria.

Alguns setores progressistas defendem a revisão de trechos de O Livro dos Espíritos considerados “datados”, a fim de adequá-los a sensibilidades morais contemporâneas. Tal proposta, porém, acarreta uma grave contradição doutrinária. Kardec define o Espiritismo como uma ciência de observação, não como um sistema moldável a conveniências ideológicas: “Uma fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.” (2)

Subordinar a Codificação a agendas temporais converte a doutrina de critério racional em produto ideológico, esvaziando seu caráter científico-filosófico-moral.

Ao denunciar a instrumentalização religiosa por setores conservadores, o segmento do espiritismo progressista acaba por repetir o mesmo equívoco, utilizando espaços doutrinários para panfletagem político-partidária.

Kardec adverte contra qualquer forma de autoridade imposta ou dogmatismo: “O Espiritismo não impõe crença alguma; convida ao exame.” (3)

O Movimento Espírita deve permanecer como espaço de esclarecimento moral e espiritual, não de propaganda ideológica, sob pena de ruptura com o princípio do livre exame.

Obviamente, a busca por justiça social é compatível com a ética espírita; contudo, o Espiritismo reconhece a Terra como um mundo de provas e expiações, onde o progresso é gradual. Pretender instaurar uma harmonia plena no plano material imediato ignora a pedagogia espiritual da experiência humana.

Como esclarece Kardec: “O mal é necessário ao progresso; é por ele que o homem adquire a experiência.” (4)

A absolutização de projetos políticos avermelhados demais gerará frustração espiritual e intolerância moral, em desacordo com a visão espírita da evolução.

O Espiritismo pode — e deve — inspirar atitudes éticas na vida social, mas não pode se confundir com militância político-partidária sem perder sua identidade.

Quando a reforma das estruturas substitui a reforma íntima, e a imortalidade da alma é eclipsada por diagnósticos materialistas, a doutrina se reduz a filosofia politiqueira “espiritualizada”.

Preservar a identidade espírita exige fidelidade ao método kardeciano, ao livre-arbítrio e à finalidade maior da Doutrina: a transformação moral do espírito imortal.

 

 

Referências bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 76. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 132. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2020.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 51. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

Notas

  1. KARDEC, O Livro dos Espíritos, questão 258.
  2. KARDEC, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIX, item 7.
  3. KARDEC, Obras Póstumas, “Constituição do Espiritismo”.
  4. KARDEC, O Livro dos Espíritos, questão 132.