Jorge Hessen
Brasília - DF
O envolvimento do
movimento espírita com pautas políticas contemporâneas tem gerado debates
esdrúxulos, especialmente no campo do chamado espiritismo progressista.
Embora supostamente motivado por preocupações “sociais e humanitárias”, esse
engajamento levanta uma questão central: até que ponto a militância
político-partidária é compatível com a identidade doutrinária do Espiritismo?
A Doutrina Espírita
estabelece o livre-arbítrio como fundamento da evolução moral.
Kardec é explícito ao afirmar que o progresso do espírito depende de suas
próprias escolhas, ainda que o meio exerça influência relativa: “O homem é
sempre o árbitro de sua própria sorte; pode abreviar ou prolongar seus
sofrimentos pela maneira por que procede.” (1)
Quando leituras
coletivistas transferem o eixo da evolução espiritual para as estruturas
sociais, corre-se o risco de diluir a responsabilidade moral individual,
aproximando-se de um determinismo incompatível com o Espiritismo,
que afirma a soberania do espírito sobre a matéria.
Alguns setores
progressistas defendem a revisão de trechos de O Livro dos Espíritos considerados
“datados”, a fim de adequá-los a sensibilidades morais contemporâneas. Tal proposta, porém, acarreta uma grave contradição doutrinária. Kardec define o
Espiritismo como uma ciência de observação, não como um sistema
moldável a conveniências ideológicas: “Uma fé inabalável é somente aquela
que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.”
(2)
Subordinar a Codificação
a agendas temporais converte a doutrina de critério racional em produto
ideológico, esvaziando seu caráter científico-filosófico-moral.
Ao denunciar a
instrumentalização religiosa por setores conservadores, o segmento do
espiritismo progressista acaba por repetir o mesmo equívoco, utilizando espaços
doutrinários para panfletagem político-partidária.
Kardec adverte contra
qualquer forma de autoridade imposta ou dogmatismo: “O Espiritismo não
impõe crença alguma; convida ao exame.” (3)
O Movimento Espírita deve
permanecer como espaço de esclarecimento moral e espiritual, não de propaganda
ideológica, sob pena de ruptura com o princípio do livre exame.
Obviamente, a busca por
justiça social é compatível com a ética espírita; contudo, o Espiritismo
reconhece a Terra como um mundo de provas e expiações, onde o
progresso é gradual. Pretender instaurar uma harmonia plena no plano
material imediato ignora a pedagogia espiritual da experiência humana.
Como esclarece Kardec: “O
mal é necessário ao progresso; é por ele que o homem adquire a experiência.”
(4)
A absolutização de
projetos políticos avermelhados demais gerará frustração espiritual
e intolerância moral, em desacordo com a visão espírita da evolução.
O Espiritismo pode — e
deve — inspirar atitudes éticas na vida social, mas não pode se
confundir com militância político-partidária sem perder sua
identidade.
Quando a reforma das
estruturas substitui a reforma íntima, e a imortalidade da alma é eclipsada
por diagnósticos materialistas, a doutrina se reduz a filosofia
politiqueira “espiritualizada”.
Preservar a identidade
espírita exige fidelidade ao método kardeciano, ao livre-arbítrio e à
finalidade maior da Doutrina: a transformação moral do espírito imortal.
Referências bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 76. ed. Rio de Janeiro: FEB,
2019.
KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 132. ed. Rio
de Janeiro: FEB, 2020.
KARDEC, Allan. Obras
Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 51. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018.
Notas
- KARDEC,
O Livro dos Espíritos, questão 258.
- KARDEC,
O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIX, item 7.
- KARDEC,
Obras Póstumas, “Constituição do Espiritismo”.
- KARDEC,
O Livro dos Espíritos, questão 132.
